quarta-feira, 11 de outubro de 2017

ESCAPADA

Para quem vive numa cidade como São Paulo, dois ou três dias em contato com a natureza - de preferência de frente pro mar - fazem toda a diferença. Abrir a janela e ver o horizonte, ao invés de prédios, é uma benção. Respirar fundo o ar puro da Mata Atlântica, sentir a maresia, ouvir os pássaros cantar. Dois ou três dias assim valem por toda uma terapia. Ou fisioterapia. Ou qualquer outra forma de auto-cuidado a que se possa recorrer para aguentar o dia a dia puxado da grande metrópole. E o melhor, pertinho de casa, no litoral norte, a duas ou três horas da capital. Em Ilhabela que, a meu ver, deveria chamar-se Ilhabelíssima... Dois ou três dias sem 3g ou wi-fi - só que não - rsrsrs. Dois ou três dias sem saber da votação da acusação do Temer, da questão da independência da Cataluña ou mesmo da Bibi e do Rubinho... Dois ou três dias de muita música boa. De belas fotografias, de entardeceres inesquecíveis e amanheceres de tirar o fôlego. De drinks durante a semana sim pois, em dias como estes, dane-se a dieta. De casas de portas abertas com famílias na sala assistindo televisão. Noites de incontáveis estrelas e boêmia lua minguante. De incandescentes vagalumes a piscar na escuridão. E uma primavera que explode em buganvílias de cores insuspeitadas. Tão intensas que faltam nomes na cartela para definir. Quando a gente vê, tudo isso já passou e estamos nos preparando para voltar para casa. Mas foi tão incrivelmente lindo, que sempre valerá a pena voltar...
Na foto, detalhe da Praia do Julião na belíssima Ilhabela.

domingo, 8 de outubro de 2017

ALAIR

Não consigo lembrar quando foi que conheci o trabalho do fotógrafo Alair Gomes. O que lembro bem é que assim que coloquei os olhos em suas fotografias de rapazes na praia de Ipanema me tornei seu fã. Lembro também que na sala da casa da minha saudosa amiga Lidoka, na mesma Ipanema, havia algumas fotos de seu marido, o mitológico surfista Petit, imortalizado por Caetano Veloso na canção Menino do Rio, que tinham sido feitas por Alair. Pois agora Alair Gomes foi transformado em peça de teatro, protagonizada pelo sempre brilhante ator Edwin Luisi. O texto, escrito por Gustavo Pinheiro a partir dos diários de Alair, dá uma boa ideia não só da abrangência da obra do artista, mas também da sua humanidade. A solidão e a insaciável busca pela beleza. As viagens e suas descobertas. Seu olhar sobre o mundo e seus habitantes. A peça é muito bem vinda, nesse momento em que se atenta contra as liberdades estéticas e de expressão. Edwin, além de talento, é puro carisma sur la scène. Agora, com barba e cabelos grisalhos, faz lembrar uma outra figura icônica das artes, o pintor Darcy Penteado. E os atores que representam os modelos do fotógrafo, com suas belas figuras, são um deleite à parte. Isso sem falar que a trilha sonora traz à tona uma outra pérola: O álbum Transa, de Caetano Veloso - olha ele aí de novo - com trechos da canção Mora na Filosofia, que muito embalou minha adolescência... No começo dos anos noventa, logo que voltava de uma temporada de um ano em Paris, tive o privilégio de trabalhar com Edwin em uma montagem de A Caravana da Ilusão, de Alcione Araujo, na qual ele era o protagonista e eu, o assistente de direção de Luís Arthur Nunes. Até hoje não sei porque ele abandonou a montagem a poucos dias da estreia. Uma pena, pois estava deslumbrante no papel do velho Bufo, líder de uma trupe de comediantes... Mas agora o negócio é o seguinte: O espetáculo vai cumprir uma temporada curta no Teatro Nair Bello, somente até o dia 5 de novembro, e é necessário, indispensável que seja assistido. Fica a dica.
Nas fotos, os atores Edwin Luisi e André Rosa em cena do espetáculo e o eterno menino do Rio - Petit - clicado por Alair.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

OUTUBRO À FLOR DA PELE

O mês de outubro chegou repleto de estreias teatrais. Logo nos dias 2, 3 e 4, fui a três delas assim, de carreirinha: O Som e a Sílaba, de Miguel Falabella, com Alessandra Maestrini e Mirna Rubim dando um show de canto e de interpretação, Tour du Monde, o novo espetáculo do Paris 6 Burlesque com coreografias do Weidy, e À Flor da Pele, novo show da cantora Zizi Possi, respectivamente. Me senti uma Tuna Duek... Mas é na estreia de Zizi que vou me deter aqui. Há muito tempo eu não via Zizi Possi cantar. Até que ontem à noite fui à estreia de seu novo show À Flor da Pele, a convite do querido José Possi Neto, que vem a ser o diretor do espetáculo, além de irmão da cantora. Não dá para chamar de show, "espetáculo" é bem mais apropriado para definir esse tour de force de Zizi. Intensa e profunda, ela mergulha nos mais escuros cantos de si própria para encontrar a essência de seu canto. Transforma a dor de uma experiência difícil em pura arte. Numa espécie de stand up comedy musical - ou seria stand up drama? - ela costura canções com textos próprios, do irmão José e do meu querido amigo Edu Ruiz, relatando a complexa vivência de uma depressão. O resultado, além de belo, é instigante. Faz pensar, acende fagulhas, desperta medos adormecidos, sacode poeiras da alma, espanta fantasmas e faz, até mesmo, rir. Refeita da dor que viveu, Zizi consegue rir de si própria e cantar ainda mais plena. Um ato de coragem, se desvendar assim, sem filtros, diante do público. Fiquei com aquela vontade de ver mais e de ouvi-la cantar antigos sucessos dos anos oitenta como Meu Amigo, Meu Herói. Mas ela vem e surpreende trazendo pérolas como Mon Cœur S'Ouvre à ta Voix, da ópera Sansão e Dalila, de Camille Saint-Saëns, e O Que Será (À Flor da Pele), de Chico Buarque, que dá nome ao espetáculo. Aliás, nome mais apropriado impossível. É assim mesmo que Zizi se entrega para a plateia: À Flor da Pele. E que pele! Ela está linda. O tempo tem sido generoso com ela. Ainda bem. Ela merece! Imperdível...
Nas fotos, as cantrizes de O Som e a Sílaba, cena de Tour du Monde e Zizi em si.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

LIGADO NA TOMADA

Engraçado como fatos corriqueiros do dia a dia, não mais que de repente, nos conectam com o passado e com as lembranças que estavam guardadas em algum recôndito cantinho da memória. Ao chegar em casa pela manhã, percebi que o celular não estava conectando à minha rede wi-fi. Em seguida, constatei que o modem estava desligado. E, seguindo o fio, descubro o problema: A tomada à qual o equipamento estava ligado, que por sinal havia sido instalada por mim, estava com um dos fios soltos. Desliguei a força da casa inteira, desencapei a ponta dos fios, religuei-os à tomada et voilá, tudo voltou a funcionar como de costume. Imediatamente fiquei lembrando do meu pai, já há vinte anos falecido. De como ele me fazia acompanhar cada passo do processo de consertos domésticos em geral. De como eu me revoltava com isso, interessado que estava em continuar brincando ou não fazendo nada. E do quanto hoje sou grato a ele por tudo o que me ensinou. Ou me obrigou a aprender. Durante as demonstrações ele sempre me perguntava como eu faria para resolver aquele problema. Eu, quase sempre interessado em dar fim à indesejada atividade, apontava a solução mais rápida. E ele dizia: Essa é a solução mais fácil, não a melhor. É a solução de quem tem preguiça, não a de quem pensa... Que bom que, mesmo contra a minha vontade na ocasião, esses ensinamentos todos tenham ficado comigo. Graças a eles e a muitos outros, tudo o que tenho na minha casa foi instalado por mim mesmo. Desde lustres e luminárias até tomadas e instalações elétricas em geral. Sem falar em todos os pneus que ele me fez observá-lo trocar e que até hoje me lembro exatamente como se faz. Falando nisso, logo que vim para São Paulo tive de ir com meu amigo Fariello até um bairro distante, se não me engano Mutinga, para burocracias referentes ao nosso contrato de trabalho com o Sesi, onde iríamos apresentar um espetáculo. No meio do caminho, em plena estrada, fura um pneu do carro e meu amigo começa a se descabelar. Quando se deu conta, eu já estava de mangas arregaçadas trocando o pneu diante de seus incrédulos olhos. Rimos muito e mais uma vez lembrei de meu velho pai... É isso. Constatações de uma manhã corriqueira e banal na casa e na vida de uma pessoa nem tão banal ou corriqueira.
Na foto, Robertinho ligadinho na tomada da infância em Soledade.

sábado, 23 de setembro de 2017

PRIMAVERÃO

A primavera veio quente como o mais tórrido dos verões logo nos primeiros dias da sua chegada. Aqui na Pauliceia, o ar quente, seco & poluído rasga gargantas sensíveis como a minha, entope narizes e faz tossir pulmões. E nada de chuva... A chegada da nova estação me pegou totalmente mergulhado no universo de Caio Fernando Abreu. Não nas suas obras literárias, mas nos textos que escrevia para as revistas AZ e Around, nos anos oitenta. Cida Moreira me disponibilizou sua coleção gentilmente. Tenho me divertido muito. O Caio dessas revistas é muito parecido com o que convivia com os amigos: Engraçado, leve, debochado, irônico, crítico dos hábitos e costumes da sociedade. Para mim é sempre um enorme prazer trazer à tona esse lado menos conhecido do escritor denso e profundo revelado pelos livros. Vez por outra, nessas publicações, Caio assina com o pseudônimo de Terezinha O'Connor. Segundo ele, prima de Sinead e discípula de Nadja de Lemos. Sob tal alcunha, ele deita e rola... O start desta pesquisa foi dado no lançamento do Festival Caio Entre Nós, que ocorreu no dia sete de setembro próximo passado, em Porto Alegre, e no qual apresentei Bolero, um dos textos de Caio para a Revista AZ. Espero conseguir reunir uma quantidade razoável de artigos "dizíveis" destas publicações para transformar em um solo. Um pocket espetáculo que seja. Então voltarei a dar notícias por aqui. Bom primaverão a todos!
Na foto, a jovem Malu Mader ilustra a capa de uma das edições da saudosa AZ.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

PAIXÃO JUVENIL

Escrevi esse conto (?) em 1985, aos vinte e um anos de idade, visivelmente influenciado por Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector. Começa assim mesmo, com reticências:
... quando chega aqui em casa vai logo se jogando no sofá, tirando o tênis, as meias, e de cara pedindo pra ouvir aquele Frank Zappa que ele adora. No Bar do Parque vendem cigarro avulso e ele me trouxe dois enrolados num papel de carta onde tinha escrito uma poesia. Mas não era poesia dele, era uma letra de música. Comprei numa banca do centro um magazine dos anos cinquenta, com fotografias de artistas de cinema e, imagine só, embalei em papel de seda lilás e lhe dei de presente. Quando, nas primeiras noites do verão, anda pela rua sem ter propriamente onde ir, colhe um jasmim perfumado e traz pra casa pra eu por no vaso. No meu quarto. Ele me trouxe a Maçã no Escuro e eu lhe falei da Paixão Segundo GH. Me conta histórias da sua vida que sempre acabo achando infantis. Mas é tão lindo, tão leve, tão assim nem sei dizer como, que me apaixona. O Cine Bristol deveria incluir na sua programação um ciclo dos filmes de Darlene Glória. A divina prostituta, a grande atriz do cinema brasileiro que hoje é religiosa. A gente vai, eu e ele, assistir a tudo que é filme que passam aqui. Até porque queremos fazer cinema. Escrever, dirigir, atuar. Não há mais quem aguente esse bairro boêmio onde moro nos fins de semana. Acabo tendo que vir pra casa, os bares estão lotados. Além disso não me interessam, são feios e mal frequentados. Escrevo no ritmo do jazz de Louis Armstrong. Literalmente, pois vou marcando o r-i-t-m-o a cada nota do jazz nas teclas dessa Remington. Quando fala de suas ex-namoradas fica tão dengoso e choramingas como criança mimada, como gatinho rosnador, que quer ser afagado. Mas não quer ao menos dormir comigo. Só dormir, eu falei. No máximo se tocar, assim tipo fazer carinho. Não, não tenho essa tua vontade, ele disse. Então assim: Ele chega, tira o tênis, as meias, a gente conversa, bebe gim, eu acabo me cansando, mas é com incontida ansiedade que o espero voltar.
Na foto, a capa do LP de Frank Zappa referido no texto.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

BOLERO

O ano era 1989 e eu ainda morava em Porto Alegre. Em uma das minhas idas a São Paulo para visitar amigos e conferir espetáculos de teatro, comprei uma edição da Revista AZ, de Joyce Pascowich, que trazia a cantora Rosemary na capa. Dentro, o editorial abolerado e o texto de Caio Fernando Abreu que passou a me inspirar em quase tudo o que fazia: Bolero. Partindo de uma comparação entre a "roupa" e a "música" bolero, Caio embarca em lembranças da infância que terminam por definir o "feeling" bolero, por assim dizer. Mais ainda: O universo bolero. Minha identificação com o conteúdo daquele texto foi tamanha que cheguei a escrever e dirigir uma peça de teatro que chamei de A Mulher Só - Uma Comédia Bolero. Lembro de uma vez em que estava dando uma entrevista na TVE de Porto Alegre sobre a peça e disse que gostava de ficar em casa aos sábados à noite ouvindo Dalva de Oliveira e Dolores Duran. Quando voltei à sala de maquiagem para pegar meus pertences o maquiador, bem mais velho do que eu, me disse: Você é jovem demais pra ficar ouvindo essas coisas, falando dessas coisas. E eu nem tinha trinta anos... Quando recebi o convite de Luís Arthur Nunes para participar da noite de lançamento do festival Caio Entre Nós, no Teatro São Pedro de Porto Alegre, que aconteceu na semana passada, não tive dúvida: Chegara a hora de interpretar o texto de Caio que guardei por tantos anos. Até o momento de entrar em cena eu estava um feixe de nervos. O coração parecia querer saltar pela boca. Todo o ar que me fosse possível respirar era insuficiente. Mas quando o foco no centro do palco se acendeu e fui entrando nele ao som do piano de Arthur de Faria que tocava os acordes iniciais de Sabor a Mí, tudo fluiu como devem fluir os boleros... E que eles nunca nos faltem! Essa imagem ficará na minha memória para sempre. Arquivada, arquetípica. (Para citar Caio Fernando Abreu). Uma pena Tânia Carvalho não estar presente. Eu teria dedicado minha cena a ela, que foi quem me apresentou ao universo dos boleros de Eydie Gormé e Trio Los Panchos quando eu ainda era praticamente menino... Volto para São Paulo me coçando de vontade de transformar esse bolero em um solo. Que os deuses do teatro me iluminem...
A foto que ilustra o post é de Flavio Wild, outro agradável reencontro que Caio Entre Nós me proporcionou.

sábado, 9 de setembro de 2017

CAIO ENTRE NÓS

De volta à cidade da minha juventude para homenagear o escritor da minha juventude... Estou em Porto Alegre para ensaios e apresentação de Caio Entre Nós, a noite de lançamento de um festival em homenagem a Caio Fernando Abreu. Entre reuniões e ensaios, um rápido giro pelo centro da cidade para visitar a exposição Queermuseu, no Santander Cultural. A mostra traz um vasto e interessante painel da diversidade na arte brasileira. De Alair Gomes a Volpi, passando por Cândido Portinari e Flavio de Carvalho, até Leonilson e Lygia Clark. Particularmente fiquei muito feliz de ver e rever os trabalhos de alguns artistas gaúchos de quem sou fã como Fernando Baril, Gilberto Perin, Mário Rönelt, Milton Kurtz, Rogério Nazari e Telmo Lanes. Os óleos sobre tela de Baril impressionam tanto pelo surrealismo que representam quanto pelas dimensões. Sua obra O Alterofilista, exposta ao lado do Retrato de Rodolfo Jozetti, de Cândido Portinari, propõe um rico contraste ao mesmo tempo em que revela a proximidade através das diferenças. Ideia que meio que perpassa toda a exposição. Saindo de lá, ainda deu tempo de subir até o rooftop da loja popular de departamentos Lebes, e tomar um café na La Basque com vista para o Rio Guaíba. Apesar da chuva que já iniciava, deu tempo de fazer algumas fotos bem bonitas. Fiquei imaginando o quão lindo deve ser a vista no entardecer de um dia ensolarado... Após intervalo de alguns dias, volto a escrever esse post. A noite de homenagem a Caio foi um grande sucesso. Graças à colaboração de amigos queridos e artistas talentosíssimos, foi possível levantar um espetáculo de duas horas com textos, músicas, leituras de cartas, depoimentos e performances inesquecíveis. À altura do homenageado. Viva Caio Fernando Abreu... Já tive também oportunidade de assistir, na Casa de Cultura Mario Quintana, ao ensaio de um espetáculo que está sendo montado por um grupo de amigos muito queridos, com os quais já trabalhei em diversas montagens teatrais realizadas no meu período porto-alegrense. É muito reconfortante saber que artistas seguem criando, imaginando, tornando sonhos realidade malgré todas as adversidades que enfrentamos. Evoé... No mais, sigo revendo lugares, amigos e familiares, descobrindo e redescobrindo a velha Porto Alegre da minha mocidade. Encerro com um verso de Mario Quintana que li na Casa de Cultura: "O que faz as coisas pararem no tempo é a saudade"... Bom setembro a todos!
Nas fotos, Marcos Breda e Julia Lemertz, os mestres de cerimônia da noite Caio Entre Nós, brincam no fosso do elevador antes de subir para o palco do Teatro São Pedro.

domingo, 27 de agosto de 2017

ORAÇÃO AO TEMPO

Outro dia fui assistir ao espetáculo de uma amiga e, depois de encerrada a função, ficamos conversando no saguão enquanto os demais integrantes iam saindo do teatro e ela me apresentava aos que eu ainda não conhecia. Lá pelas tantas chegou um jovem técnico de luz ou de som que integrava a montagem e, ao saber que eu fizera parte do elenco da Terça Insana, exclamou: Cara, eu ri muito com você quando era moleque! Puxa, pensei, mas foi ontem... Então me dei conta de que a gente vai vivendo a vida, um dia depois do outro, fazendo coisas diferentes aqui e ali, ora feliz, ora triste, alternando momentos de euforia e melancolia, e nem percebe que o tempo está passando, implacável. Até que, numa ocasião como essa, somos atropelados pela sua inexorável passagem. E súbito entendi: Uma coisa que para mim acontecera recentemente, já havia se transformado numa espécie de Sítio do Pica-pau Amarelo para a geração dele. Um Castelo Rá-tim-bum. Uma Vila Sésamo... A noite seguiu, dali fomos para um restaurante e os papos versaram sobre os mais diferentes assuntos. Mas aquilo ficou na minha cabeça, martelando. Até que, lá pelo fim da noitada, já quase chegando em casa, tomei fôlego e fiz uma oração ao tempo: "Agora que já passei dos cinquenta anos, tempo amigo, será que você poderia fazer a gentileza de passar um pouco mais devagar? Quando eu era jovem lembro de lhe pedir tanto para que você passasse depressa! Conceda-me agora o prazer de poder fruir a sua passagem num ritmo mais adequado ao pouco que me resta de você... Obrigado. De nada. Amém. E que assim seja". Adormeci ao som de Caetano Veloso: És um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho. Tempo, tempo, tempo, tempo...
Na foto, o gigantesco relógio do Musée d'Orsay, em Paris, marca a passagem do tempo através dos séculos.

sábado, 26 de agosto de 2017

POEMA ENCENADO

Primeiramente pensei dar a esse post o título de POEMA DANÇADO. Mas em seguida achei que seria redutor. Cão Sem Plumas, a mais recente criação da Companhia de Dança Deborah Colker, não é apenas dança. É teatro. Assim como Deborah não é apenas coreógrafa. É encenadora. Isso sem falar que, de lambuja, ainda nos traz um belíssimo filme de Claudio Assis. O resultado é espetacular. No sentido de espetáculo mesmo. Enche os olhos. Poesia pura sobre a cena. Teatro de imagens. A sensação que se tem é de que a plateia nem respira enquanto assiste à impressionante sucessão de imagens, ora duras e secas, ora belas de tirar o fôlego. Engraçado como a beleza pode surgir de onde menos se espera. Como o lírio que brota no lodo. Como o lodo que seca no corpo dos bailarinos e explode em pó sob a precisa e preciosa iluminação. Aliás, eles também não são apenas bailarinos. São atores, intérpretes sensíveis e plasmáveis que se transformam ora em grotescos caranguejos, ora em esguias garças. A bela e impactante trilha sonora conduz o espectador nessa interessante fusão de imagens projetadas com dança ao vivo. Como se os bailarinos entrassem nas imagens da tela para delas sair em seguida. O poema de João Cabral de Melo Neto, que inspirou a criação, está todo lá. Sem plumas, é certo. Mas carregado de emoção, plasticidade, lirismo e poesia. Fico até meio sem palavras para descrever o impacto visual e emocional que o espetáculo provoca. É ver para crer. Imperdível.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

RETRÔ

Dia desses estava ouvindo um disco de Elis Regina dos anos sessenta e chegou um amigo bem mais jovem, de vinte e poucos anos. Ao perceber a música que embalava o ambiente, o juvenil mancebo perguntou: É o novo CD da Maria Rita? Não, respondi. Não é novo e não é da Maria Rita. E fiquei pensando... Porque tudo o que foi feito nos anos sessenta parece extremamente moderno aos olhos e ouvidos atuais? Vide Os Mutantes, Brigitte Bardot, Serge Gainsbourg. Dá a impressão que a estética evolui em ciclos que, de tempos em tempos, se repetem. O que bombou artística ou esteticamente em uma década volta a acontecer algumas décadas depois. Só pode ser isso, refleti com meus botões enquanto passava um café para o jeune garçon visitante. Depois, dando uma olhada geral na casa, percebi que a minha estética é ligeiramente voltada para o passado. E que eu, por conseguinte, sou uma pessoa retrô. Livros, discos, vídeos. Quadros, retratos, eletrodomésticos. Móveis, objetos, utensílios. Um museu de grandes novidades, para citar Cazuza. O anti-aplicativo... A essa altura a TV já estava ligada no cômodo ao lado e Karol Conka cantava: Multitelar, multitelei... Fiquei lembrando dos meus amigos Les Étoilles, que abalaram Paris nos setenta, dos Dzi Croquettes, dos Secos & Molhados, da Rita Lee, de Bowie, do Asdrúbal Trouxe o Trombone, de Ciranda Cirandinha... Quando dei por mim já estava folheando um dos quinze volumes da coleção O Mundo da Criança, o Google da minha infância. E, antes que eu procurasse caneta e papel para escrever uma carta (antigo meio de comunicação pré-internet), decidi pegar o iPad e digitar esse post...
Na foto, eu em momento retrô inspirado pelo post.

domingo, 20 de agosto de 2017

PLENO AGOSTO

Tanto se fala do mês de agosto! Mal, em geral. Eu não tenho nada contra esse que, para mim, é um mês igual a todos os outros. E o agosto desse ano de 2017 está sendo especialmente bacana. Primeiro porque retomei minhas apresentações na Terça Insana. Estou, portanto, de volta à estrada. O que reúne duas das coisas que mais gosto de fazer na vida: Viajar e fazer teatro. E, como agora o ritmo de viagens é bem menos intenso do que nos áureos tempos, sobra espaço para todas as outras atividades... Segundo porque retomei também a minha rotina diária de exercícios físicos, agora praticados não mais no chiquérrimo Renaissance Spa & Fitness, mas na simpática & popular Smart Fit da Rua Augusta. Entrei o mês de agosto firmemente empenhado em recuperar a forma perdida e, além do treino diário, estou cuidando da alimentação e bebendo beeem menos do que andava bebendo nos últimos tempos. Drinks agora só no fim de semana. E moderadamente... Tenho também assistido a muitas coisas legais. Uma delas foi a estreia da peça A Visita da Velha Senhora, de Friederich Dürrenmatt, no Teatro Popular do Sesi, protagonizada por Denise Fraga em atuação notável e digna de prêmio. A competente direção é assinada por Luiz Villaça, marido da atriz. E o grande elenco que a acompanha faz jus a essa montagem inspirada e inspiradora, para dizer o mínimo... Teve também O Filme da Minha Vida, de Selton Mello, que mereceu post especial aqui no blog. E uma grata surpresa: O filme Corpo Elétrico, de Marcelo Caetano, que aborda o dia a dia de pessoas comuns que, entre outras coisas, são gays ou não. Trabalho, sexo, relações afetivas e de amizade são mostrados como são. E não da maneira geralmente edulcorada pelas produções cinematográficas. O protagonista Elias é vivido pelo jovem ator Kelner Macedo, outra grata surpresa revelada pela película. Sua interpretação carismática e natural conduz o espectador com interesse e curiosidade durante todo o filme... Ah! Já ia esquecendo: Vi também a peça Whisky e Hambúrguer, escrita e dirigida por Mario Bortolotto, que divide a cena com Patrícia Vilela. O texto é bom, Patrícia é excelente atriz e mais não digo... Para finalizar, hoje, nesse domingo frio & chuvoso, assisti em casa mesmo, em DVD, ao interessantíssimo documentário Gatos, que acompanha a fascinante vida dos gatos de rua da cidade de Stambul. Qualquer pessoa apaixonada por gatos como eu fica enlouquecida assistindo. Mas desconfio que mesmo os que não gostam desses adoráveis animais serão facilmente fisgados... E vamos em frente, que ainda tem muito agosto para ser vivido!
Nas fotos, Denise Fraga e Tuca Andrada em cena de A Visita da Velha Senhora, Kelner Macedo em Corpo Elétrico e Patrícia e Mario em Whisky & Hambúrguer.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

A VIDA QUE SE LEVA


Se é verdade o que dizem, que o que se leva dessa vida é a vida que se leva, humildemente confesso que vou, sim, levar muita coisa. Eu não sou propriamente o que se pode chamar de uma pessoa empreendedora, que constrói muitas coisas em termos de projetos profissionais. Mas, em matéria de viver a vida, modéstia à parte, sou expert. E não é querer me exibir: Eu vivo bem a vida, mas é nas coisas mais simples. Um mero domingo de sol, em casa mesmo, consigo do nada transformar em um momento inesquecível. Principalmente se o céu está azul, o sol se reflete multiplicado por vários na água da piscina e eu observo da sacada enquanto sorvo goles de vinho branco ouvindo Serge Gainsbourg. Como está sendo agora... Eis o que importa: A vida ser inesquecível e, consequentemente, a gente ser inesquecível também. Por isso é que acho que mesmo não deixando grandes obras, realizações concretas, vou levar muita coisa dessa vida. E, por tabela, deixar. Deixar principalmente a lembrança de alguém que soube viver bem... Dia desses me foi solicitado escrever um parágrafo sobre mim mesmo, para a divulgação de um trabalho do qual iria fazer parte. Fiquei matutando sozinho: O que dizer, em apenas um parágrafo, que me descrevesse e desse uma visão geral da minha trajetória profissional? Me lancei nessa tarefa hercúlea e, após selecionar o que me pareceu mais digno de constar nesse parágrafo revelador, fiquei achando que não havia feito nada de importante na vida. Então era essa a minha trajetória? Com mais de cinquenta anos de idade e mais de trinta de profissão era isso o que eu tinha para apresentar? Isso era tudo? Sim, era tudo. E sabe o que mais? Era extremamente importante. Para mim. Tudo foi feito com amor. Por inteiro. De coração aberto. E com a consciência tranquila. Quer legado mais importante do que esse? E, para terminar citando Gonzaguinha, começaria tudo outra vez...

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

POESIA BEM VINDA

Ah, como tudo anda sem graça ultimamente. Ah, como a vida tá difícil pra todo mundo. Ah, como o Brasil está em crise. Ah, como está seco e poluído o ar de São Paulo neste mês de agosto... Pois uma lufada de ar fresco acaba de ser lançada: O Filme da Minha Vida, de Selton Mello. Dizem que rir é o melhor remédio em tempos difíceis e eu, como comediante, não posso deixar de concordar. Mas se rir é o melhor remédio, a poesia é a salvação. O terceiro longa de Selton Mello é poesia pura. Há algo de Fellini que permeia o filme do início ao fim. Altas doses de lirismo que tiram a gente da vidinha mais ou menos que andamos levando. O filme foi rodado no sul do país, mas poderia ter sido em qualquer lugar do mundo. Não há fronteiras quando se trata da imaginação. O colorido meio sépia da fotografia remete à memória de tempos passados. As descobertas do amor e da sexualidade. O cinema como possibilidade de expansão do reduzido universo da cidade pequena. A trilha sonora maravilhosa, que embala grande parte das cenas. A paisagem de encher os olhos. A participação de Rolando Boldrin. A comovente interpretação do protagonista Johnny Massaro... Há muito a ser visto e apreciado nessa obra de rara beleza do cinema nacional. Inspirado é o mínimo que se pode dizer desse momento da carreira de Selton Mello. Pode não ser o filme da minha vida ou da sua. Mas que vale a pena, ah como vale! Saí do cinema e o entardecer na Avenida Paulista tinha tons que eu ainda não havia percebido...
Na foto Tony, o personagem de Johnny Massaro, na deslumbrante paisagem sulista.

domingo, 30 de julho de 2017

DILEMAS DE UM PALHAÇO

Eu amo teatro. E quando digo que amo, não me refiro apenas ao fazer teatral. Amo assistir teatro, também. E quando se trata de bom teatro, amo ainda mais. Ontem tive a oportunidade de conferir o espetáculo Pontos de Vista de um Palhaço, solo do ator Daniel Warren, que só contribuiu com o meu amor pela arte da representação. Abandonado pela mulher que ama, o personagem de Daniel expõe diferentes pontos de vista: O próprio e o do palhaço que ele representa; o da mulher e o dos líderes religiosos que ela segue. Em uma sessão de terapia coletiva na qual os outros participantes são o próprio público. E Daniel o faz com maestria. O espetáculo é uma pequena joia. Prende a atenção do início ao fim sem nunca deixar a peteca cair. A interpretação de Daniel consegue ser surpreendente durante todo o tempo que dura a peça. E a gente sai da sala com a alma lavada... Nunca gostei muito de palhaços. Tampouco dos chamados "clowns", que são uma espécie de sofisticação dos mesmos. Outro dia, perdido que estou de saudades da capital francesa, fui ao cinema assistir ao filme Perdidos em Paris e sem saber me deparei com eles, os clowns. Aquelas repetições sem fim e uma lógica sem lógica me irritam em vez de me divertir... Não é o caso desse Pontos de Vista. Daniel Warren é um excelente ator. Não se limita a ser clown sobre a cena. Ele constrói seu personagem em diversas camadas de interpretação, colorindo-o com as técnicas de palhaço que inteligentemente estudou para enriquecer ainda mais o seu brilhante trabalho. E o resultado é apaixonante. Sem falar que ele é puro carisma... Fiquei bastante tocado pela força que tem esse espetáculo, que é todo trabalhado na elegância e sensibilidade. Deus queira que um dia eu consiga fazer algo parecido! E todos os aplausos para esse pequeno grande ator...
A direção e a dramaturgia são de Maristela Chelala, que divide com Daniel a concepção artística. O espetáculo está em cartaz na Oficina Cultural Oswald de Andrade. Imperdível...
Na foto, o protagonista Daniel Warren brilha sem o menor esforço sobre a cena.

sábado, 29 de julho de 2017

MAISON CLOSE

Pense numa pessoa que viveu em Paris no começo dos anos noventa, se apaixonou pela cidade, ficou dezesseis anos sem ir visitá-la e, de 2007 pra cá, estava indo regularmente uma vez por ano ou a cada dois anos no máximo. Essa pessoa sou eu. E o intervalo de dois anos sem ir a Paris já venceu em maio desse ano... Pense na síndrome de abstinência que essa pessoa, no caso eu, está vivendo. E imagine a pessoa, sozinha, em uma sala do MASP visitando a exposição Toulouse-Lautrec em Vermelho. Foi o que aconteceu comigo ontem à tarde... E foi maravilhoso. Toulouse-Lautrec simboliza a mítica Paris boêmia dos artistas, dos cabarés, das prostitutas, dos espetáculos de variedades, da vida noturna, do bas-fond, do cancan, e, claro, de Montmartre, o bairro sede de todo esse movimento. Fui transportado para os salões da maison La Fleur Blanche, para o lendário Moulin de la Galette, encontrei com a dançarina Jane Avril e com o cabaretier Aristide Bruant... Revi as bailarinas de cancan e suas saias, tal qual havia assistido ao vivo no próprio Moulin Rouge... As pinceladas nervosas do artista fazem os óleos sobre tela ou sobre cartão parecerem desenhos de lápis pastel. E os gigantescos cartazes em litografia que anunciavam as atrações dos cabarés dão a medida da importância de Lautrec para a arte da virada do século dezenove para o vinte. Gostei especialmente de uma parede inteira dedicada a retratos de atores e atrizes. Entre eles, évidemment, a grande Sarah Bernhardt... A mostra traz setenta e cinco obras e cinquenta documentos como cartas, bilhetes, telegramas e fotografias, abrangendo toda a produção do artista, desde os primeiros anos até a sua precoce morte aos trinta e seis anos em decorrência do abuso de álcool e da sífilis contraída na vida libertina que levava. Como disse anteriormente, mítico. Icônico. Arquetípico... Quando saí das dependências do museu fiquei parado na Avenida Paulista como quem espera ser resgatado por um carro mágico. Igual àquele que transportava o personagem do filme Meia Noite em Paris, de Woody Allen, para a Paris boêmia da Belle Époque. Mas tudo o que passou foram ônibus, taxis, úbers (ou seriam úberes?), carros e mais nada. E eu fiquei ali, sonhando com o dia em que verei Paris outra vez... Delírios à parte, a exposição é maravilhosa e pode ser visitada até o dia primeiro de outubro. Sendo que às terças-feiras a entrada é gratuita. Para quem está na Pauliceia, o MASP fica na mais paulista das avenidas...
Nas fotos, Toulouse-Lautrec em si, A Roda - a bailarina Loïs Fuller vista dos Bastidores e La Femme au Boi Noir, duas das obras que mais gostei. Ah! O título do post se refere às "casas fechadas" que o artista costumava frequentar com suas amigas.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

O LUGAR DA LÍNGUA

Muito já falei aqui no blog sobre o mau uso que se faz da nossa inculta e bela Língua Portuguesa. Sei que poderia até soar pernóstico pretender que se fale e escreva corretamente o idioma em um país que tem tantos problemas sociais e políticos, vive uma crise sem precedentes e tem uma desigualdade social inaceitável. Mas certas coisas, que nem seriam propriamente erros, mas vícios de linguagem, tiram muito da pouca paciência que tenho... Ultimamente, o uso da palavra "lugar" para designar coisas que não são lugares tem me irritado sobremaneira. Por exemplo: "Esse espetáculo é um lugar de reflexão". Espetáculo não é lugar. O teatro seria... "Eu estou num lugar de auto-conhecimento". Momento seria mais adequado... Mas acho que só eu me importo com esses detalhes. E por falar em lugar, outra coisa que me incomoda bastante é o uso de "onde" e "aonde" se referindo a coisas que também não são lugares. "É um filme aonde eu contraceno com fulano". Um filme no qual contraceno seria bem mais agradável aos ouvidos. Pelo menos aos meus ouvidos... "É uma medida onde o supremo revê a sua postura". Que saco! Medida não é lugar... Eu gostaria muito de saber quem começa a usar esses termos dessa maneira e porque todos passam a fazer o mesmo achando que está super correto. Vai saber! Outra modinha chata é o tal de "sobre". Esta, imagino que venha de tradução literal do inglês, como about last night. E é um tal de "sobre ontem à noite", "sobre dar e receber" e "sobre estar em boa companhia"... Haja! Tem até uma música chata, interminável e com mensagem de auto-ajuda que diz: Não é sobre ter todas as pessoas do mundo pra si, é sobre cantar e poder escutar mais do que a própria voz... Sem falar no hábito de terminar as frases com: ...que você respeita. Por exemplo: A melhor banda de rock que você respeita. Ãh? E as palavras da moda, que de repente as pessoas não conseguem dizer uma só frase sem utilizá-las pelo menos duas vezes? Do tipo superação, empoderamento, protagonismo... Ai que preguiça! Tem também os que reforçam o sujeito da frase colocando o pronome logo após: "A lei, ela é para todos". "Meus amigos, eles são poucos". Enfim, vou parar por aqui porque eu mesmo já estou me tornando irritante... E, para terminar citando Olavo Bilac: Amo-te, ó rude e doloroso idioma. És, a um tempo, esplendor e sepultura...
Na foto, a biblioteca Mario de Andrade. Um bom lugar para se estar em contato com a nossa língua. E é lugar mesmo! Rsrsrs...
PS: Acabei de lembrar de outra! Arquitetos e decoradores tem usado muito o verbo conversar para dizer que determinados móveis ou objetos combinam com a decoração. Assim: Esse abajur conversa com a cortina. Pano rápido.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

IMOBILIDADE ILUSÓRIA

Passei o último fim de semana fazendo um workshop de modelo vivo. Um ator precisa estar sempre em movimento, em busca de desafios, a superar limites. Eu já havia tido uma pequena experiência como modelo vivo na época da faculdade de teatro em Porto Alegre, posando para aulas de desenho do Instituto de Artes. Anos depois, já morando em São Paulo, tive a experiência de posar para uma aula de escultura de um grupo de mulheres. Agora, me sentindo velho e cheio de limitações corporais, resolvi voltar a exercitar essa possibilidade. Foram dois dias de estudos, conversas e trocas de experiências que resultaram em uma sessão de poses para a artista Sandra Lagua que nos desenhou em diversas poses e propostas. Para alguém que estava se sentindo tão enferrujado como eu foi no mínimo libertador. Não tenho a menor ideia se pretendo fazer disso um ganha pão, mas a simples possibilidade de me testar já foi bastante desafiadora. É um mercado restrito, poucas pessoas se aventuram de maneira consciente nesse métier, a maioria "topa tirar a roupa pra ganhar um troco". Homens, então, são uma minoria. Fiquei lembrando de quando cheguei em São Paulo, vinte anos atrás, e fiquei hospedado chez minha amiga Nora Prado. Nora era modelo vivo e foi uma das precursoras dessa atitude do modelo consciente, ativo e propositor que o curso nos estimulou a ser. Ela chegou a fazer uma peça, um solo chamado A Modelo, no qual contava suas experiências posando para vários artistas, entre eles, seu pai Vasco Prado. O workshop foi ministrado por Juliano Hollivier, que além de excelente modelo vivo com muitos anos de experiência no mercado, também é ator. Consegui vencer várias barreiras: Tirar a roupa diante de outras pessoas, por exemplo, foi uma delas. Expor minha barriga e todos os meus outros "defeitos " também. Fiquei bastante satisfeito com o resultado. E recomendo para quem tiver vontade de se testar na profissão. Vai ter uma nova edição em agosto. É só acessar o site julianohollivier.com E ficar por dentro de tudo.
Nas fotos, desenhos de Jacques-Louis David e Michelangelo feitos a partir da observação de modelos vivos.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

FEUD

O que é uma vida de artista no mercado comum da vida humana? Cantava Gal Costa no álbum Água Viva, de 1978. O que os versos de Suely Costa talvez não trouxessem era a resposta para tão complexa questão... Acabo de assistir aos oito episódios da série Feud, sobre a lendária rivalidade entre as grandes damas do cinema americano Bette Davis e Joan Crawford. E confesso que me bateu forte. Para além do deleite estético e do prazer de acompanhar as peripécias das divas. Após assistir aos episódios finais, o que ficou fortemente impregnado em mim foi a constatação da instabilidade das carreiras artísticas. Mais do que as disputas de egos exaltados ou a fogueira das vaidades, o que me impressiona é esse fino fio tenso por onde se equilibra a inconstante disputa pela construção e manutenção de um sonho. Se há alguma constância na carreira de um artista, é justamente a inconstância... Digo que me bateu forte porque venho de voltar aos palcos depois de uma ausência de quase dois anos. Um projeto de sonho inocente, segue a canção de Gal. Não se esqueça de mim essa semana... Susan Sarandon e Jessica Lange representam, respectivamente, Miss Davis e Miss Crawford. Ah sim, estou falando de Feud, já havia viajado completamente no tema. E a grande luta que travam, maior do que a rivalidade que dá título à série, é a luta pela manutenção de suas carreiras em um mercado que se transforma e que as deixa de lado. Cruel. Arrasador. Grandes talentos se afogando em álcool e decepções. Muita coisa mudou de lá para cá. Mas creio que a essência permanece. Essa necessidade constante do aplauso, dos holofotes, de ser o centro de, pelo menos, algumas atenções. Essa ilusão que encerra a realidade do ganha pão. Essa quimera. Os egos inflados, as disputas, as vaidades. Do que era mesmo que eu falava? De Feud, a série americana. Você não pode deixar de assistir. Mas antes, prepare os drinks e aperte o cinto. Vem turbulência por aí. Pescador quando tece sua rede, jogador quando joga sua sorte: Cada um que conhece sua sede é artista da vida ou da morte... Pois a série termina com a morte das protagonistas, o que deixa a triste sensação de que não haverá continuidade. E agora? Como viver sem essas adoráveis lutadoras? E as fofocas de Hedda Hopper? Como ficar sem Mamacita? O que terá acontecido a Baby Jane? Quem descerrar a cortina há de ver cheio de horror...

quinta-feira, 13 de julho de 2017

JULHO A MIL

E o mês de julho segue cheio de novidades. Um mês normalmente associado a férias. Para mim está sendo o contrário. Já não era sem tempo! Andava tendo comichões de abstinência do palco. Minha volta foi em grande estilo, ao lado de Grace Gianoukas, recebendo convidados no Festival Terça Insana no Teatro Sergio Cardoso. Nesse fim de semana repetiremos a dose com novos convidados. Logo mais farei também viagens com o espetáculo, o que me enche de alegria. Interessante também está sendo dividir palco e bastidores com novos talentos, que já se tornam novos amigos, como Johnas Oliva e Renata Augusto. Andei assistindo a alguns musicais com meu amigo Odilon, que veio fazer sua visita anual à Pauliceia. Um deles foi 60, a Década de Arromba, protagonizado pela eterna musa da Jovem Guarda Wanderléa. Em três horas de espetáculo ela mostra, do alto de seus setenta anos, que ainda é uma brasa. Mora? A Ternurinha é puro carisma sobre a cena. Suas entradas são aguardadas com excitação e recebidas com aplausos calorosos. Ah! E a filha Jadde também brilha ao lado da mãe diva. Viva a Wandeka! Tenho assistido à série Feud, com as maravilhosas Jessica Lange e Susan Sarandon vivendo Joan Crawford e Bette Davis respectivamente. Mas isso merecerá, evidentemente, post especial assim que terminar de assistir a todos os oito episódios... No mais, dias lindos de sol e aquele friozinho gostoso de dormir e de se vestir para sair...
Na foto eu, bem pimpão, chegando no teatro para me apresentar.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

SALVE BRECHERET

Prorrogada até o fim do mês a exposição Brecheret: Encantamento e Força, na Dan Galeria, que fica na Rua Estados Unidos aqui nos Jardins. Me sinto um tanto privilegiado de estar vizinhando, ainda que temporariamente, com tão expressivo patrimônio da arte mundial. A mostra exibe quarenta e seis obras, entre esculturas e desenhos, do artista ítalo-brasileiro considerado, juntamente com Anita Malfatti, introdutor do Modernismo no Brasil. Fazem parte, por exemplo, as obras Ídolo e Cabeça de Mulher, que participaram da Semana de Arte Moderna de 1922. Há cavalos, dançarinas, bustos, cabeças, nus masculinos e femininos, alguma arte indígena e figuras sacras, como as esculturas São Francisco com Burrinho e São Francisco com o Bandolim, e o impressionante desenho de San Michelle feito em crayon no período da formação do artista em Roma. Por pouco não vejo essa obra, que está exposta em uma pequena sala contígua. Não fosse a generosidade e simpatia de Andréa Vasconcellos, que me forneceu diversas informações e gentilmente me enviou o pdf do catálogo, já esgotado, por e-mail. Tive uma paixão à primeira vista pela obra Guerreiro, de 1927, esculpida em pedra de França, totalmente Art Déco como a maioria das minhas obras preferidas desse ícone da arte brasileira e mundial. Já na entrada da galeria, do lado de fora, a gigantesca Morena, esculpida em bronze com mais de um metro e oitenta de altura, recebe os visitantes como a adiantar o que vem pela frente. Luxo só. Não dá para perder.
Nas fotos, Morena recebe os visitantes na entrada da Dan Galeria fotografada por mim, e as obras Guerreiro, Torso Masculino e San Michelle, extraídas do pdf do catálogo da exposição.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

INVERNO EM SP

Caramba! Já estamos na metade do ano outra vez... O mês de julho chegou trazendo frio a São Paulo, o que achei ótimo. Afinal, inverno é mesmo época de fazer frio e já estava com saudades. A gente fica bem mais elegante no frio... Julho trouxe também ipês e cerejeiras floridos, o que é uma festa para os olhos e uma alegria para a alma. Além disso, jardins verticais surgem na Avenida Vinte e Três de Maio como uma interessante saída para o eterno problema das pixações. Ganha a cidade, já menos feia e cinza, com mais verde a oxigenar os dias... E adivinhem quem voltou? Eu! Rsrsrs. Estou de volta à Terça Insana no Festival Grace Gianoukas Recebe, agora no teatro Sérgio Cardoso, nesse e no próximo mês, com convidados e atrações diferentes a cada edição. Já não era sem tempo essa minha rentrée... No mais, rolezinhos de bicicleta no Ibirapuera e passeios em busca de novos grafittis e de ipês e cerejeiras em flor. Ontem fomos a São Roque, aqui pertinho da capital, para apreciar as cerejeiras do Centro Esportivo Kokushikan Daigaku que, malheureusement, estava fechado. Mesmo assim, deu para tirar uma casquinha do lado de fora. Curioso é que ninguém, na cidade e arredores, jamais ouvira falar do tal centro esportivo. E só depois de muito vai e vem é que conseguimos encontrá-lo... Que mais? Ah! Os Arcos do Jânio foram entregues à cidade devidamente restaurados e estão lindos. E vamos em frente. Bom inverno a todos!
Nas fotos, as cerejeiras do Centro Esportivo Kokushikan Daigaku vistas do lado de fora, eu barrado na Disneylândia, ipê florido no Ibirapuera e grafitti na Avenida Rebouças.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

VIAJANDO COM BIVAR

Depois de devorar Verdes Vales do Fim do Mundo, estou economizando a leitura de Longe Daqui Aqui Mesmo (que emendei na sequência, sem intervalo) para que o prazer da leitura seja prolongado por um pouco mais de tempo... Na verdade estou preenchendo lacunas que havia deixado na leitura da obra desse autor que tanto admiro. E ainda me faltam algumas coisas dele para ler. Mas, com calma e sem muita pressa, vou completando a prazerosa viagem através de sua vida e obra. Esses dois aqui citados, por exemplo, encontrei-os por acaso em edição de bolso quando circulava pela Livraria Cultura. E eles tem me acompanhado no ônibus, no metro, na estrada, em casa, e em todas as esperas a que sou submetido por um ou outro motivo. Tudo vira desculpa para embarcar, mochila nas costas, junto com Bivar em suas aventuras e descobertas. Não vivi, como ele, o movimento hippie, por exemplo. Mas peguei uma certa rebarba dessa tendência e vivi boa parte da minha juventude sob a sua influência. Cheguei a viajar de carona e a acampar. Só que aqui mesmo, no Brasil. Enquanto ele corria o mundo... Felizmente, desde a mais tenra idade tive os livros como passaporte e eles me faziam companheiro de viagem de vários autores que admirava: De Castañeda a Clarice. De Lobato a Fernando Gabeira... Só bem mais tarde é que fui descobrir o Bivar. E passei a acompanhar suas andanças pelo mundo, os shows a que assistiu, as cidades que conheceu, as reflexões a que foi levado, as peças que escreveu e as pessoas que encontrou. Acho que foi na hora certa pois, como diz o seu amigo Andrew Lovelock em Longe Daqui Aqui Mesmo: Nunca é tarde para começar qualquer coisa... Movido por essa ideia é que estou em busca de tudo o que me falta ler da obra de Antonio Bivar. E, para quem ainda não o descobriu, indico sua leitura como indispensável. Boa viagem!
Na foto, Bivar em si pede carona na estrada.

domingo, 25 de junho de 2017

FESTA JUNINA

Dia de São João e aniversário do Weidy em Piracaia, chez nossos amigos Rodrigo et Thomas. A maison se chama La Figueira e muito já falei dela aqui no blog. Nossa intenção era chegar na sexta-feira para o por do sol. Mas houve tanto trânsito na saída de São Paulo que acabamos chegando para um rápido brinde e dormir. No sábado acordamos cedo e, após o desjejum, saímos para caminhada matinal por longa trilha mata adentro até uma inspiradora queda d'água. Mago, o cão pastor suíço dos nossos anfitriões, abria caminho nas picadas, branco e enorme como um urso polar. Depois de longos papos e planejamentos de projetos artísticos voltamos vale acima até a figueira em si, gigantesca, centenária, a dar nome à propriedade. Sentamos em suas majestosas raízes, que saem da terra formando paredes vivas, como muros a circundá-la... Nossos anfitriões são vegetarianos e preparei uma ceia, algo entre o almoço e o jantar, composta de creme de aipo, batatinhas salteadas com alecrim e salada de avocado com tomate cereja e azeitonas verdes. De entrada, pão italiano com homus e queijo melba com amêndoas e damascos. Tudo regado a espumante brut da Serra Gaúcha. O por do sol veio para fechar o glorioso sábado com uma profusão de cores de doer a alma. Digo de doer a alma porque, a essas alturas, o som de Benjamin Clementine já habitava o ar que respirávamos... Pausa para um cochilo e à noite já estávamos reunidos para mais comemorações com vinho tinto e velouté de cenoura com mandioca. Alguma música francesa no iPad, ampliada pela caixinha de som bluetooth... Domingo de sol radioso, céu de brigadeiro. Os meninos saem para nova caminhada na mata e eu me estendo ao sol para bronzear a carcaça. Penso na passagem do tempo aqui e lá, na grande cidade. Aqui as atividades se distribuem naturalmente ao longo do dia, sem horários determinados para isso ou aquilo. E quando a gente se dá conta, mais um dia findou. O silêncio é quebrado, vez por outra, por pássaros que cantam ao longe ou pelo farfalhar das folhas das árvores. Sem trânsito nem vizinhos. Sem pressa ou poluição. Sem sirene ou buzina. Encho os pulmões de ar e agradeço...
Nas fotos, vista da piscina, a maison em si e o sol se põe na janela do quarto.

sábado, 17 de junho de 2017

ZU LAI

Há poucos minutos de São Paulo existe um lugar sagrado onde se pode meditar, respirar mais calmamente e entrar em contato com a natureza, a arquitetura e a arte sacra orientais. É o templo budista Zu Lai. Situado em Cotia, região metropolitana de São Paulo, é o primeiro templo do Monastério Fo Guang Shan na América Latina. Além de todas as atividades espirituais oferecidas, como cursos de tai chi e meditação, o Zulai tem museu, biblioteca, loja, café e restaurante vegetariano. Sem falar nos belíssimos jardins com lagos, cerejeiras e esculturas, nos quais você pode tomar sol, fazer pic nic ou simplesmente ouvir o silêncio, coisa raríssima de se conseguir vivendo na Pauliceia. Fui conhecer este paraíso na Terra nesse fim de semana de feriado prolongado, o que fez com que encontrasse o local bastante cheio de frequentadores vindos de todas as partes. Pretendo voltar em um dia de semana qualquer. Imagino que sem tanta gente circulando o passeio deva ser ainda mais proveitoso. Sem muito mais o que dizer, deixo-os com algumas das belas imagens que registrei por lá. Namaste!

quinta-feira, 15 de junho de 2017

ZONA DE CONFORTO

O que todos tem contra a chamada zona de conforto? Só se fala em sair dela. Apregoa-se ali: Saia da sua zona de conforto. Jacta-se acolá: Consegui sair da minha zona de conforto. Eu estou muito bem obrigado na minha. Daqui não saio. Daqui ninguém me tira... Aliás, tem zona melhor pra se estar? Eu, heim! Só se for a Zona em si, repleta de drinks e quengas e abajures lilases e tal... Ainda mais agora, com o frio que anda fazendo. Ir até a cozinha fazer um café, para mim, já é sair da zona de conforto... Mas São Paulo não para, São Paulo não pode parar. E nesse fim de semana tem show da cult band Hercules And Love Affair, da qual já fez parte Antony Hegarty, do Antony And The Johnsons, minha paixão de cortar os pulsos. É só digitar o nome dele aqui na pesquisa do blog para ver o tamanho da minha paixão... O show fará parte de um festival holandês de diversidade que tem sua primeira edição no Brasil. A noite terá extensa programação, o que me faz crer que Antony, digo, Hercules, pisará o palco lá pelas... Ai, que preguiça!!! Nem Hercules, nem Antony em si, nem os Johnsons e nem mesmo um Love Affair serão capazes de me tirar da minha fofa, quentinha e aconchegante zona de conforto... Beijo não me liga. Mas se joga lá: Festival Milkshake, dia 16 de junho, Stereo Pop Club, SP.
Na foto, a capa do álbum cult da banda não menos cult.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

PALAVRAS ERRANTES

Palavras são como pássaros, às vezes pousam na página em branco enchendo-a de beleza e poesia. Outras vezes voam em bando, migratórias, para terras longínquas, deixando sem assunto e nem ao menos título a pobre lauda vazia... Vez por outra se permitem pousar sobre um ou outro assunto, o novo espetáculo de um grande ator de teatro, a estreia de um amigo, um livro que li, um restaurante que conheci, bem en passant, não chegando a preencher sequer um parágrafo... E os assuntos, assim como as palavras, voam em bando para outro hemisfério. Les mots me échappent, como se diz en français... A vida, esse fenômeno por si só já tão interessante, às vezes nos faz pensar que está passando em vão. São Paulo, essa cidade efervescente que amo tanto, às vezes me faz ter a sensação de que não me corresponde, pois me permite, morto de tédio, achar que não há mais o que fazer... E se vai com as palavras o meu assunto. Ouvindo antigos discos de Caetano Veloso me encontro e me reencontro em diversas faixas, refrões, versos. Por mais distante, o errante navegante, canta ele em Terra. Me dou conta de que sigo errando por esse planeta que, às vezes penso, não é o meu. Sim, porque no planeta que imagino meu, metade das coisas que aqui acontecem não aconteceriam... Eu não sou daqui, eu não tenho amor. Marinheiro só errando de cais em cais... Ela me conta que era atriz e trabalhou no Hair. Eu também era ator, costumava brilhar sobre a cena. Alguém disse outro dia na TV: A gente nunca sabe quando vai estar no palco outra vez. Nunca sabe. Acho que foi Crioulo... Eu sempre quis muito. Mesmo que parecesse ser modesto. Agora nem sei se o que quero é muito ou pouco. Tampouco se quero. Ou o quê... Que me voltem as palavras! Isso eu sei que quero. Pelo menos...
Na foto, grafitti na antológica Rua Augusta, inesgotável fonte de assuntos.

sábado, 27 de maio de 2017

ANTÍGONA

Como diria Odorico Paraguassu, é com a alma lavada e enxaguada nas águas da emoção mais profunda que venho por meio deste enaltecer o incomensurável talento de Andrea Beltrão. E, como trata-se de post em blog e o tempo/espaço urge, não me estenderei sobre o irretocável conjunto da obra mas, sim, me restringirei ao não menos irretocável solo que ela agora nos apresenta: Antígona. Não a de Sófocles, mas a da própria. Dela e de Amir Haddad em bem sucedida e oportuna adaptação. Os exageros iniciais de Odorico se justificam por vários motivos. Primeiro porque já pisei em temporada de três meses, há exatos trinta anos, as mesmas tábuas em que agora Andrea nos brinda com sua tragédia: O histórico palco do Sesc Anchieta, templo do teatro de Antunes Filho. Lugar sagrado em que, no ano de 1987, me apresentei com Império da Cobiça, criação do Grupo Tear, da minha mestra Maria Helena Lopes. E, segundo mas não menos importante, porque amo a tragédia grega, em especial essa de Antígona, a jovem que se rebela contra a tirania do governante opressor. Em adaptação primorosa, Andrea percorre não apenas a tragédia mas o mito em si. A genealogia do mito. E conduz a plateia com maestria pelas peripécias trágicas, sem deixar de lado o humor, se é que isso é possível, e acaba provando que é. Sem nunca banalizar a gravidade do tema. Ela é capaz de fazer o público embarcar facilmente em todas as emoções que propõe sobre a cena. Não sou crítico de teatro. O que tento passar aqui vem totalmente embalado pela emoção. E, devo confessar, por algumas taças de vinho... O que mais me agrada na montagem é a dosagem perfeita entre o registro trágico e o drama. Recentemente assisti a uma montagem de Gota d´Água em que o registro da interpretação escorregava o tempo todo para o drama, o que não seria o caso, posto que Gota d´Água é uma adaptação da Medeia, portanto, uma tragédia. Ocorre que Andrea é uma grande atriz. E mais não digo... Muitos anos atrás, nem vou dizer quantos, assisti a uma montagem da Antígona protagonizada por minha professora de interpretação, a grande Sandra Dani, que me marcou profundamente. Dois anos atrás assisti, em Paris, a uma montagem cinematográfica protagonizada pela não menos maravilhosa Juliette Binoche. Devo dizer que temia algo que não estivesse à altura dessas minhas referências. Pois meu temor revelou-se totalmente infundado. Andrea brilha como nunca. Ou melhor, como sempre. Fui às lágrimas quando ela avança pela plateia dizendo a frase do coro: Numerosas são as maravilhas da natureza, mas de todas, a maior é o Homem... Lembrei o tempo todo do meu professor de teatro grego na faculdade de teatro em Porto Alegre, o mestre Ivo Bender. Ele certamente faria várias críticas ao espetáculo. Mas saberia, como poucos, apreciá-lo... Fica até 18 de junho. Não perca!
Fiz a foto enquanto Andrea esperava o público sentar para começar o espetáculo. Depois, educadamente, desliguei o celular.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

JAPAN HOUSE

Como volta e meia costumo repetir aqui no blog, São Paulo não se cansa de me surpreender. Acaba de inaugurar na cidade, em plena Avenida Paulista, a Japan House. Em bom português, a Casa Japão. E eu, encantado que sou com tudo o que diz respeito a esse país, fui correndo conferir. Correndo é maneira de falar. A inauguração foi no sábado passado, mas esperei até ontem para evitar aglomerações. E foi ótimo ter esperado. Estava super tranquilo. Mesmo assim, visitei tudo rapidamente, uma passada geral para conferir todos os ambientes. Pretendo voltar com mais tempo e mais calma para me dedicar a cada recanto. Um misto de galeria de arte, biblioteca, café, jardim, loja, restaurante e museu. A exposição inaugural é dedicada ao bambu, elemento presente em vários aspectos da vida e da cultura japonesas. Diversos artistas apresentam obras de grande beleza e impacto visual utilizando esse rico e versátil material. Dei uma rápida olhada nos livros e fiquei especialmente tocado por Kazu, ensaio fotográfico de Herb Ritts com nus artísticos do jogador de futebol japonês Kazuyoshi Miura. O restaurante, no segundo andar com vista para a Avenida Paulista, é o Junji Sakamoto, do renomado chefe de mesmo nome, e a cafeteria no térreo é o Imi Café. Sem muito o que dizer e ainda sob o impacto da primeira visita, deixo algumas imagens que registrei com meu celular. Mais para a frente conto em detalhes sobre o restaurante, exposição, café e etc. Como sempre, a cidade de São Paulo me surpreende e encanta. Sou muito grato por ter sido acolhido por ela. Arigatô, Pauliceia!
Nas fotos, o terraço com vista para a Paulista, eu fazendo graça em frente à parede de washi do artista Yasuo Kobayashi, obra de Chikuunsai IV Tanabe na sala de exposições, o incrível jardim de pedra e Kazuyoshi Miura para Herb Ritts.