quinta-feira, 28 de novembro de 2019

SOL & CHUVA

Eu, que ingenuamente pensei que o mau gosto tivesse atingido o seu ápice nas saídas de praia rendadas, com brilhos e plumas, descubro estarrecido que, junto ao mar, ele pode ir ainda muito mais além. A primavera verão 2019 acaba de trazer a Ilhabela o sutiã de biquíni com babados. São inacreditáveis quatro camadas de babados em cada peito. Nem sei dizer com o que se parece, porque não se parece com absolutamente nada que eu já tenha visto nessa encarnação. Lembram do shortinho de renda em camadas que parecia uma capa de botijão de gás? Pois é, foi superado... E a moça que está ao meu lado na praia está usando um modelo AMARELO! Deus é mais. Só o humor é capaz de nos salvar... O fato é que estamos passando uns dias em Camburi e resolvemos vir passar o dia em Ilhabela para matar a saudade. E ela continua bela. Melhor dizendo, belíssima. Malgrado o mau gosto estético de alguns visitantes. Se é que se pode dizer que mau gosto seja estético...
O tempo passou e já estou de volta em casa. Fui recebido por uma São Paulo fria, escura e chuvosa. O oposto total dos dias ensolarados passados na praia. Mas fui surpreendido por um filme coreano maravilhoso. Parasita. Não sei como consegui arranjar ânimo para sair de casa numa tarde chuvosa para ir ao cinema. Ainda bem que fui. Envolvente e surpreendente do início ao fim. Vai da comédia à tragédia, passando pelo triller e pelo nonsense para terminar de forma completamente poética. Um presente de fim de ano. Palmas para Bong Joon-ho, roteirista e diretor. Aliás, mais do que simplesmente palmas: A Palma de Ouro, que ele já abocanhou no Festival de Cannes. Fica a dica para esse novembro que praticamente termina. À bientôt!
Nas fotos, o sol sobre o mar de Ilhabela e a chuva sobre a Rua Augusta, em São Paulo.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

DIA DE CHUVA

Acabo de sair do cinema. Fui assistir ao novo filme de Woody Allen, Um Dia de Chuva em Nova Iorque. No original, Rainy Day in New York. Amo o título. E devo confessar que já sabia que iria amar o filme também. Aliás, vou confessar algo ainda mais grave. Um furo de reportagem: Na minha cabeça eu vivo como numa espécie de filme deste cineasta. Entre parques, rooftops e piano-bares, tomando drinks e, invariavelmente, ouvindo jazz. Porter, Berlin, Gershwin. Agora mesmo, que cheguei em casa a tempo de escapar do toró que se anunciava, escrevo ouvindo Nat King Cole e bebendo uísque... Romântico e cômico na medida, como sempre. Um personagem central que é uma espécie de alter-ego do diretor e roteirista, como sempre. Nova Iorque como cenário, como quase sempre. Só que, dessa vez, um elenco surpreendentemente jovem. A começar pelos protagonistas: Timothée Chalamet (de Call me by Your Name), Elle Fanning e Selena Gomez. A trilha sonora traz, como tema da vez, Everything Happens to Me. Em várias versões, inclusive tocada ao piano e cantada pelo próprio protagonista. Nada mal para um fim de tarde de sexta-feira em uma São Paulo que chove quase diariamente. Digam o que disserem de Woody Allen, ele continua sendo, ao lado de Pedro Almodóvar, um dos meus cineastas preferidos. Dos poucos que me fazem sair de casa para assisti-los. Não obstante um certo machismo mal disfarçado, ao retratar as mulheres bonitas e desejáveis como burras. Ainda que de forma light, isso se evidencia em vários momentos do filme. Como quando o protagonista cita "in the roaring traffic's boom, in the silence of my lonely room", de Cole Porter, e a mocinha pensa que é Shakespeare... Mas é sempre um deleite assistir a uma película nova de Allen. Pena que o tempo esteja passando depressa demais e logo não teremos mais filmes novos dele para assistir. Como os personagens dizem, a certa altura do filme:
- O tempo voa.
- Pena que seja de classe econômica.
- O que isso quer dizer, exatamente?
- Que a viagem nem sempre é confortável.
Ainda bem que temos filmes novos de Woody Allen a cada ano. Isso faz com que a nossa viagem seja mais confortável. Pelo menos a minha viagem pessoal...
Na foto, o protagonista Timothée Chalamet como uma espécie de Woody Allen jovem.

sábado, 16 de novembro de 2019

DELICADEZAS

Sou fã da cantora Evinha, que há muito tempo vive em Paris. Quando criança eu adorava cantar o hit Luciana, que ela emplacara no Festival Internacional da Canção, nos shows de teatro que fazia no porão de casa. De uns tempos para cá tenho ouvido seus álbuns antigos no YouTube. Amo tudo o que ela gravou de Beatles e Michael Jackson. Mais tudo o que gravou da nossa MPB. E do cancioneiro internacional. Só não conheço o que ela cantava com o Trio Esperança, formado com os irmãos. Agora, finalmente, tive a oportunidade de vê-la cantar, ao vivo, sobre o palco. Foi no Teatro Italia, no centro de São Paulo, na última terça-feira, acompanhada ao piano pelo marido Gérard Gambus. No repertório, canções do nosso hitmaker mor Guilherme Arantes. Um luxo. Evinha é tranquila. Mostra logo a que veio. Comunica. Simplifica. Apazigua... Em tempos de ataques explícitos, deselegâncias e ironias nada finas, ela apresenta delicadezas. Dá novos sentidos às letras já coloridas de Guilherme Arantes. Pinta e borda filigranas. Que prazer. Que sorte a minha e de todas as pessoas que compareceram àquela terça nada insana... Estava tudo lá: De Êxtase a Cuide-se Bem, passando por Um Dia Um Adeus - que parece ter sido composta para a voz de Evinha- e mais Brincar de Viver, Deixa Chover e outras tantas. No final, um brinde com antigos hits como Teletema e Casaco Marron. Um deleite. Aplausos também para o produtor Thiago Marques Luiz, sempre nos presenteando com shows das estrelas da nossa canção popular. Saí do espetáculo com a certeza de que amanhã a luminosidade, alheia a qualquer vontade, há de imperar...
Nas fotos, Evinha sur la scène e a contracapa autografada do CD.

domingo, 10 de novembro de 2019

ON THE ROAD

Sexta-feira. Mês de novembro. Ano que termina. A van que nos leva para uma apresentação em Poços de Caldas entra agora em um engarrafamento na estrada. Chove. A tarde cai rapidamente. Várias cidades se sucedem a pouca distância umas das outras. Nas redes sociais memes indicam que finalmente "sextou". E que Lula poderá sair da prisão. Procuro no YouTube uma versão rap da música Cavalgada, de Roberto Carlos, que toca no final do filme francês Encontros, a que assisti recentemente. Me dou conta de que estou sempre procurando alguma coisa na internet. E mal consigo lembrar como é que eu conseguia viver sem essas procuras quando ainda não havia internet. Parece que foi ontem, mas já está tão distante esse tempo, essa realidade. Saimos do engarrafamento. A chuva engrossa. Daqui a pouco vamos parar para um café, um lanche, fazer xixi, essas coisas que se faz na estrada. Leio Patti Smith. O Ano do Macaco. Sua escrita me inspira. Parece mentira que essa escritora que adoro tenha lançado dois livros de uma só vez. Esse e também Devoção, que li muito devotamente. É uma pena que não vou estar em São Paulo justamente no dia em que ela vai se apresentar em um festival e lançar os livros batendo um papo com os leitores no Sesc Pompeia. C'est dommage. Uma lástima. Mas, na verdade, não sei se iria mesmo se estivesse em Sampa na data. Ando avesso a eventos populares. Tudo que reúna mais de cem pessoas me espanta. Prefiro ficar comigo e com meus botões. Já fizemos a parada. No Frango Assado. Comi uma empada (de frango) e um pão de queijo. Sem requeijão. Não havia nenhuma bebida alcoólica para vender no Frango Assado. E esse fim de tarde de sexta-feira clamando por um drink... Já anoiteceu. A chuva arrefeceu. Seguimos viagem em direção a Poços de Caldas. Em direção ao fim do ano. Em direção a... Corte de tempo. Já estou de novo em São Paulo. A viagem de volta foi tranquila e incrivelmente rápida. Nem parecia o mesmo trajeto. Nossa apresentação em Poços de Caldas foi no Teatro Urca, onde já se apresentou Carmen Miranda. Um lugar lindo. Mas, infelizmente, em adiantado estado de depredação. Por que tudo nesse país tem de ser assim? Há quase vinte anos percorro o Brasil inteiro fazendo teatro e é sempre a mesma coisa: Teatros estaduais ou municipais jogados às traças. Os que funcionam, inevitavelmente, são os mantidos pela iniciativa privada. Há quem seja contra... Saúdo o mês de novembro, que se inicia pródigo em efemérides. Essa semana mesmo, volto a Porto Alegre para duas apresentações no histórico e amado Teatro São Pedro. E, depois de vinte e três anos morando em São Paulo, pela primeira vez estarei de volta à cidade na Feira do Livro. Vida que segue...
Nas fotos, interior das Thermas Antônio Carlos, que merecerão post especial, e a lua tímida espiando no céu de Sampa.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

ENCONTROS

Sempre que estou morrendo de saudades de Paris, tendo surtos, palpitações, crises de abstinência, procuro algum programa que, por aqui mesmo, alivie mon petit coeur. Foi assim que decidi assistir ao filme Encontros, de Cédric Klapisch. Na verdade eu já havia sido atraído pelo cartaz, que mostra um jovem casal com a vista do Sacre-Coeur ao fundo. O rapaz é o ator François Civil, de quem sou fã desde que assisti à série Dix Pour Cent, no Netflix. Agradabilíssima surpresa. O tema, um dos meus favoritos: A solidão das grandes cidades. Só que aqui, abordado do ponto de vista dos jovens. Como cada um lida com a própria solidão. De que maneira cada um deles tenta superar as dificuldades da vida adulta. Rémi e Melánie são vizinhos, não se conhecem, estão sempre por um triz para que aconteçam os tais encontros do título. Mas o que vemos é uma série de desencontros. Ela dorme muito. Ele é insone. Ela tenta vários dates por aplicativos de relacionamentos. Ele se isola. Ambos procuram, por razões diferentes, psicoterapeutas. A história se passa em uma Paris surpreendentemente urbana, jovem, tecnológica e - malgré a alcunha de Cidade Luz - obscura. Totalmente oposta ao clichê romântico de cartão postal tão largamente explorado pelo cinema do mundo inteiro... Outra agradável surpresa: Camille Cottin, a Andrea de Dix Pour Cent, como a psicanalista da personagem Melánie. E Pierre Niney, que viveu Yves Saint Laurent no filme homônimo, como um amigo mala que o personagem Rémi reencontra pelo Facebook. Parece aqui, não? Aliás, parece com qualquer lugar do mundo... Eu, que vivi uma Paris bem mais tête à tête, cujos matchs se davam ao vivo, em lugares direcionados à paquera ou a outros tipos de relacionamentos, fiquei bastante surpreso. Primeiro porque nem me lembrava que solidão é um assunto que também diz respeito aos jovens. Segundo, porque nem havia internet quando eu fui jovem em Paris... Pra não dizer que só falei bem: Há um erro grave de continuidade. Quando os prédios aparecem no térreo, com os personagens entrando nas portarias, o dela fica à direita da imagem e o dele, à esquerda. Quando eles estão em casa, ele na sacada e ela na janela da chambre de bonne, estão ao contrário, como na foto que ilustra o post. Será que só eu percebi? Rsrsrs... Ah, quase me esquecia: Tem um gatinho tão fofo, mas tão fofo, que rouba as cenas em que aparece. E o árabe do mercadinho, que dá palpites e conhece toda a vizinhança e arredores. Mais a cara de Paris, impossível... Last, but not least: No final do filme, já nos créditos, uma versão remix de Cavalgada, do Rei Roberto, cantada em português. Chorei...
Na foto, os jovens solitários Rémi e Melánie em Paris. Bem que eu gostaria de um pouco de solidão em Paris agora.