segunda-feira, 22 de agosto de 2022

ROMANTISMO EXACERBADO

Jão é minha nova descoberta musical no pop romântico. Jovem cantor/compositor que canta e encanta pelas letras e melodias carregadas de romantismo. A comparação com Cazuza é imediata e inevitável. Quando descobri Cazuza, mais ou menos na metade da década de oitenta, o que me pegou foi justamente o romantismo exacerbado. Apesar dele ser roqueiro, para mim soava como Dolores Duran. (Pra quem não sabe, Dolores compôs sua profícua obra musical ainda muito jovem, morreu aos 29 anos). Diferente de Cazuza, que berrava a plenos pulmões, disparando sua metralhadora giratória, Jão canta. Lindamente. Como se usava cantar e hoje em dia não se canta mais. E, como Cazuza, apaixona à primeira audição. Descobri por acaso, através do hit Idiota, no qual ele entoa: Vou te amar como um idiota ama, vou te pendurar num quadro bem do lado da minha cama... Me soou um tanto Morrisey também. Lembram, do The Smiths? Não apenas pelo vasto e altíssimo topete, mas também por aquele tom chorado na voz, que imprime melancolia ao canto. Anos oitenta na veia. Não consigo imaginar, visualizar o possível link desse "menino" com uma década já tão longínqua (que pra mim parece que foi ontem)... E Jão segue cantando coisas como: "Ai Meu Deus eu vou morrer sozinho". "Me diz em qual bar você vai estar". "O nosso pra sempre dura a noite inteira". "Não me ponha no altar, que eu sou meio desonesto. Eu te juro amor eterno, mas no fundo eu não presto". "Nunca acredite no que eu te juro quando você está em cima de mim". E, para mexer com a gente - que viveu a década de oitenta - e acordar a juventude adormecida: "Eu vou te abraçar tão bêbado, sua mão dentro da minha calça me faz graça e esquece o medo"... Imperdível em álbuns como Pirata, Anti-herói e Lobo. Vale a pena conferir. Na foto, Jão em si na capa do álbum Pirata.

terça-feira, 16 de agosto de 2022

UM LIVRO SÓ?

Acabo de terminar a leitura do livro Uma Rosa Só, de Muriel Barbery, a autora do festejado e mundialmente traduzido A Elegância do Ouriço. É um belo romance, muito bem escrito, sensível, delicado, com descrições detalhadas de paisagens, templos e jardins japoneses. Mas não me arrebatou como A Elegância do Ouriço. Aliás, depois dele li também outro romance da autora, A Morte do Gourmet, e sucedeu-se o mesmo: Gosto, mas não amo. Fiquei me perguntando se ela seria autora de um romance só. Como aqueles cantores que fazem sucesso com uma música e depois somem, sabe? Não é o caso, ela não sumiu. Pelo contrário, continua a publicar romances. Só não encontrei mais em suas obras aquele lirismo cotidiano que tanto me encantou em A Elegância do Ouriço. Aquela zeladora de um prédio de ricos em Paris, cuja aparente simplicidade escondia um interior rico e fascinante. Aquela adolescente que, através de um diário, planeja o dia de sua morte. E o misterioso novo morador japonês que intriga ambas. Já falei desse livro aqui no blog, em post de mesmo título. Em uma das minhas idas a Paris encontrei o filme em DVD. Comprei e, chegando aqui em casa, fui correndo assistir. Qual nada, o DVD não roda fora da França! Dommage pour moi... Alguns escritores conseguem provocar em mim esse arrebatamento ao longo da obra toda. Foi assim com Monteiro Lobato, no começo. Depois com Castañeda. Mais tarde Clarice Lispector. Na sequência vieram Caio Fernando Abreu, Antonio Bivar e, mais recentemente, Murakami. Já perdi a conta de quantos romances desse escritor japonês eu li e amei. Mas não vou desistir de Muriel Barbery. Essa francesa nascida em Casablanca, no Marrocos, que aos dois meses de idade se mudou para a França. Há algo na sua escrita que me envolve, mesmo quando a identificação ou o interesse pela história não é total. Preciso descobrir o que é... Enquanto isso, seguirei a ler seus romances. Na expectativa de encontrar uma nova Elegância do Ouriço... Na foto, a bela capa de Uma Rosa Só.

sábado, 6 de agosto de 2022

AGOSTO INCONSTANTE

O mês de agosto chegou de mansinho e, já nos primeiros dias, nos levou Jô Soares. Que lástima! Perder Jô é como perder alguém muito próximo, um ente querido, um familiar. Um avô querido! Desde a minha mais tenra infância lembro de assistir aos seus shows de humor na televisão, com personagens marcantes e inesquecíveis. Faça Humor, Não Faça Guerra (nada mais adequado para os dias de hoje), Satiricon, O Planeta dos Homens, Viva o Gordo. Personagens como Norminha, Bo Francineide e sua pornô mãe (A saudosa e inesquecível Henriqueta Brieba), o precursor defensor das minorias Capitão Gay e tantos outros. A lista não caberia em um post. Aliás, a importância de Jô para a cultura desse país não caberia em um post. Mas vivemos uma espécie de devastação de figuras deste quilate. E não se vê ninguém à altura chegando para substituí-las. E assim seguimos, cada vez mais desfalcados... Como tudo tem um lado bom, tenho trabalhado, com a direção impecável e sempre atenta a mínimos detalhes de Luis Artur Nunes, os textos de Caio Fernando Abreu que irão compor meu solo Caio em Revista. Projeto já antigo que retomamos agora com a intenção de fazer com que finalmente saia da gaveta. (Para quem não sabe o teatro, assim como o inferno, está cheio de boas intenções)... Caio escreve tão bem que nos inspira a ser criativos, poéticos e talvez tão bons quanto ele foi. Digo escreve, no presente, porque ele ainda vive através de seus textos. E de amigos como nós, que fazemos questão de manter viva a sua memória. Dia desses, em um dos nossos encontros/ensaios – que, vez por outra, se estendem em happy hours regadas a drinks – comentávamos que até mesmo uma lista de supermercado feita por Caio deveria ser muito bem escrita, conter poesia. Fiquei imaginando: Pragmáticos papéis higiênicos, insensatas beringelas, intensas bergamotas e dúbias batatas doces... Ainda no lado bom das coisas, agosto também explode em inebriantes floradas de ipês e cerejeiras pela cidade, conferindo cor à cinza Pauliceia que a gente ama e odeia em igual intensidade. Mentira, eu a amo muito mais do que odeio. São Paulo me acolhe, me inspira, me representa. Como dizia Caio, também tenho essas Zonas Lestes, esses Jardins, Moocas e Morumbis esquizoidemente divididos sobre a pele asfaltada... Bom mês de agosto a todos! Nas fotos, Luis e eu brindando à amizade, Jô como Carlitos e Caio em si.