segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

MAR & CÉU

Uma pequena cidade do interior. Na estrada, duas bicicletas passam levando sonhos e juventude. Um riacho que corre sob uma ponte. Ali as bicicletas são deixadas na margem e os corpos dos meninos mergulham nas águas claras. Depois de se banharem soltos, alegres, voltam para a pequena cidade a tempo de apreciar o por do sol. Noite de muitas estrelas e lua cheia. De novo na estrada, os dois meninos sobem um morro para contemplar o luar ao som de Milton Nascimento. Não me esqueça, amigo, eu vou voltar... Fim das férias, eles voltam para a cidade grande. Os sonhos agora são urbanos, mas seguem soltos a sonhar. Madrugadas de álcool, peregrinações e poesia. Um pacto de saberem sempre um do outro, não importa onde estiverem... E assim a vida segue, cada um para o seu lado. Alguns sonhos são realizados, outros são esquecidos. Mas o lugar de um permanece no coração do outro. Mesmo à distância, estava tudo certo. Até que o baque da partida súbita de um deixa o outro sem chão. Cadê tuas botas de sete léguas e a Tilim de Peter Pan? E tua esperança branca de neve, cadê quem levou? Quem levou? Vamos trocar meu Via Láctea do Lo Borges pelo teu Milton 70 que tem Pai Grande? Vamos juntos pra Ilha do Mel acampar na minha barraca? Vamos ver o Trem Azul da Elis no Gigantinho? Passar só mais umas férias de verão em Soledade? À noite, depois do jantar, a gente se encontra na praça? Vamos pegar o carro do teu pai? Vamos pegar o do meu? Pede pra ele, ele te adora... O ruim de sonhar é que os sonhos sempre acabam antes do fim. Marcel, meu amigo querido, meu irmão, meu primo, meu companheiro de aventuras e descobertas foi pro céu. Levado pelo mar... Hoje, dia 16 de janeiro, ele estaria de aniversário. Feliz aniversário, querido! Que bom, amigo, poder saber outra vez que estás comigo. Dizer com certeza outra vez a palavra amigo. Se bem que isso nunca deixou de ser...
Nas fotos, Marcel fotografado por mim e nós dois, juntos como sempre, comemorando o dia que passei no vestibular e ele estava de aniversário.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

PORTO VERÃO ALEGRE

Estou de volta a Porto Alegre para três apresentações da Terça Insana no festival Porto Verão Alegre, que costuma esquentar ainda mais as noites de verão na capital gaúcha. Serão shows que me darão a oportunidade de experimentar quadros novos e também de retomar outros que criei bem no início da Terça Insana e que há muito não faço. Melhor assim: Mesmo depois de tantos anos ainda com sabor de desafio. A estreia será logo mais à noite e desde que acordei já estou com frio na barriga. Se por mais não fosse, só estar de volta ao palco do Teatro São Pedro já justifica essa emoção... Claro que vou aproveitar os dias na cidade para ir ao dentista, rever amigos, familiares, lugares, etc. Também vou assistir aos ensaios finais da peça Lembranças no Lago Dourado, dos queridos amigos Paulo vicente, Claudio Benevenga e Ciça Reckziegel, que marca a estreia na direção da minha amada Nora Prado. A peça também fará parte da programação do festival. Desde já desejo sucesso! De volta à Pauliceia já retomarei a insanidade de fazer espetáculos em Campinas e na capital. E no aniversário da cidade, dia 25, terei a honra de cantar Brecht e Weill ao lado da minha musa inspiradora Cida Moreira, na Biblioteca Mario de Andrade, cujo prédio é um ícone da arquitetura paulistana. De modo que estou amando esse ano que se inicia... Ah! No espetáculo de hoje à noite, a cantora Waléria Houston será nossa convidada especial, acompanhada do músico Rafael Erê. Prometo dar mais notícias de Porto Alegre por aqui...
Na foto, Grace, Agnes et moi bem pimpões fazendo a linha praia.

sábado, 6 de janeiro de 2018

BEM VINDO, 2018!

O ano de 2018 começou bem. Depois de uma entressafra de trabalhos entro o novo ano com agenda cheia até março. Nada mal, especialmente para essa época do ano em que pouco se trabalha no Brasil até o Carnaval... E se 2017 se despediu com a animadora estreia de Roda Gigante, de Woody Allen, 2018 já irrompe com A Canção da Terra, de Gustav Mahler, em encenação primorosa de Yoshi Oida, no Sesc Pinheiros. Vale a pena parar por uma hora e vinte minutos, desacelerar, desligar o celular e se deixar levar pelas belíssimas canções de Mahler dentro da atmosfera zen de um jardim japonês criado por Yoshi Oida para emoldurar o espetáculo. Quando a gente entra no teatro as cortinas já estão abertas e nos deparamos com a beleza do jardim. Cheio de detalhes em pedras, areia e madeira, o único som que dele se escuta é o da água que corre em uma fonte de bambu. Dado o terceiro sinal, a orquestra, os cantores e os atores completam o quadro compondo as imagens criadas por Oida para conduzir os espectadores nesse ritual de vida e morte, de nascimentos e renascimentos, essa sucessão de ciclos que é a natureza e, portanto, a vida. Sou suspeito para falar, porque tudo o que é oriental já me atrai e me agrada pelo simples fato de sê-lo. Mas o casamento desse ciclo de canções de Mahler, sua última obra composta, sua despedida da vida, com a ideia do eterno renascer da natureza criada por Oida é, a meu ver, perfeito. Yoshi Oida, para quem não sabe, é o maior colaborador de Peter Brook, participou de diversos espetáculos dele, e também de vários filmes como O Mahabharata, do próprio Brook, e O Livro de Cabeceira, de Peter Greenaway. Tive o privilégio de vê-lo em cena quando morava em Paris, no começo dos anos noventa, e assisti à mise-en-scène de Brook para A Tempestade, de Shakespeare, na qual ele interpretava o personagem Alonzo. Essa montagem tinha no elenco o ator do filme O Tambor, David Bennent, no papel de Caliban. Alguém se lembra desse filme, desse ator? Mas já estou me dispersando... A ideia do post é dar boas vindas ao ano que se inicia, desejar um excelente 2018 a todos e recomendar para quem está ou mora em São Paulo o espetáculo A Canção da Terra, em cartaz no Sesc Pinheiros até o dia 14 de janeiro. Que assim seja!
Na foto, cena do espetáculo A Canção da Terra.

domingo, 31 de dezembro de 2017

FIM DE ANO

Mais um ano se passou. Que bom, né? Nada como a passagem do tempo para curar males e trazer renovação e experiência. Adorei ter voltado aos palcos em 2017, depois de um jejum de quase dois anos. Retomei o humor da Terça Insana e também tive o privilégio de participar de Caio Entre Nós, homenagem ao querido e saudoso escritor Caio Fernando Abreu. Essa minha participação foi o start para um projeto solo que estou desenvolvendo e pretendo estrear no ano que se inicia. Foi também a retomada da parceria artística com meu mestre e amigo querido Luís Arthur Nunes... E nada melhor para encerrar o ano do que um filme novo de Woody Allen. E esse é dos bons: Roda Gigante. Com Kate Winslet dando um show de interpretação. Tenho a impressão de que Woody Allen se aproxima cada vez mais de Tennessee Williams. Já foi assim com Blue Jasmin, uma espécie de releitura de Um Bonde Chamado Desejo. Agora, em Roda Gigante, a gente tem a impressão de que assiste a uma peça de Tennessee. Não a uma em específico, mas ao universo do dramaturgo, suas personagens cujas vidas se perderam por um mau passo que deram no passado e que agora se entregam ao álcool, aos remédios, às frustrações e vivem à beira de um colapso... Um prato cheio para Kate Winslet presentear os espectadores com seu enorme talento. A personagem tem enxaqueca e a atriz chega a ter cara de enxaqueca de tão perfeita que é a composição. Um Woody Allen mais sério, com menos piadas, mas ainda assim muito bem vindo... Quero aproveitar para agradecer a todos que me seguem, me leem, me comentam e, de alguma forma, me admiram. E aproveito para confessar que sou carente, sim. Adoro me sentir querido e amado por todos. Não que almeje aqueles milhões de seguidores dos youtubers. Mas que as minhas centenas sejam sempre significantes... E agora deixa eu voltar para as minhas panelas, a lentilha já está cozinhando e o lombinho já está assando... Feliz Ano Novo a todos e todas!!!
Nas fotos, eu em cena de Caio Entre Nós, dirigido por Luís Arthur e fotografado por Flavio Wild, e Kate Winslet quebrando tudo em Roda Gigante.

sábado, 23 de dezembro de 2017

VAI, MALANDRA!

Eu sinto muito que, junto com o fim do ano, estejamos vivendo também o fim da elegância. Isso sem falar do triste fim das noções mais básicas de civilidade, convivência e ética. Mas aí já seriam assuntos demais para um simples post. Vou tentar focar na elegância. Ou no fim dela, mais especificamente. E nada como um pouco de futilidade para refrescar os ânimos nesse início de verão que já pega fogo... Anitta lançou clipe novo e, para variar, causa polêmica nas redes anti-sociais. Eu não sei como as pessoas tem paciência para polemizar tanto sobre tantos assuntos. Os argumentos vão desde feminismo e machismo até racismo e classismo. Eu digo: Muito barulho por nada, para citar Shakespeare. É óbvio que Anitta deixou a celulite à mostra porque está de olho na concorrência das gordinhas sertanejas... Já a música é o mesmo lixo de sempre. E a elegância, ali, passa lonje... Para continuar na música, só que boa, outro dia, assistindo ao programa do Ronnie Von na tevê, vi um músico talentosíssimo que ficava o tempo todo com a perna direita cruzada sobre a esquerda segurando com a mão esquerda o pé direito pela sola do tênis. Essa mesma mão que manipulava frenética a sola suja vez por outra coçava a orelha ou o nariz, quando não marcava os acordes no braço do violão. Fiquei me perguntando se esse rapaz não tinha uma mãe, uma esposa, uma namorada ou mesmo um amigo que lhe dissesse que a gente não fica manipulando a sola do sapato em rede nacional. Não diante de um príncipe como Ronnie Von, a própria personificação da elegância... E agora da música para as ruas: Eu ando muito de transporte público. E assisto diariamente a cenas de deselegância nivel top (expressão que considero extremamente deselegante). Algumas pessoas falam tão alto no ônibus, expondo para todos os passageiros desconhecidos as suas constrangedoras intimidades, que dá vontade de saltar no primeiro ponto. Isso sem falar que escutam em alto e bom som mensagens de áudio do whatsap, respondem a essas mensagens e, como se fosse pouco, assistem a videos e ouvem músicas também em volume máximo. É a própria descida aos infernos, sem ter o poeta por companhia... Para continuar no âmbito do transporte coletivo, olhando pela janela a deselegância abunda desfilando pelas calçadas. É um tal de homens usando terno com tênis de academia pra cá, mulheres usando vestidos com tênis pra lá, ou, ainda pior, tailleurs com improváveis tênis. Eu compreendo que os tênis são muito mais confortáveis do que os incômodos sapatos sociais que as pessoas precisam usar no trabalho. Mas se vestir pela metade levando os sapatos na bolsa ou deixando-os no trabalho para calçá-los ao chegar já é demais. E o trajeto? Vale desfilar a própria deselegância Avenida Paulista afora em nome do conforto? Será que essas pessoas pensam que vão invisíveis até o trabalho? Eu sei que tudo isso é nada diante de todas as nossas deficiências, nossas carências, ignorâncias e pobrezas, as de espírito principalmente. Só que umas são desgraçadamente reflexo das outras. Somos o que somos e temos o que merecemos ter... Bora jogar na Mega-Sena acumulada pra ver se a gente fica rica igual à Clara da novela e sai dando lição nos juízes e delegados por aí? Não seria má ideia... Futilidades e deselegâncias à parte, Feliz Natal e Ano Novo para todos! Acho que ainda nos falamos por aqui antes da virada. À bientôt...
Na foto, eu, desfilando minha própria deselegância na Rua 25 de Março.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

BODAS DE PAPOULA

Hoje meu blog está de aniversário, fazendo oito anos. São as nossas Bodas de Papoula. Adorei saber que bodas de oito anos são de papoula. Desde pequeno gostava dessa flor de cor intensa, potente e ao mesmo tempo frágil. Potente porque dela se extrai o ópio, origem de diversos narcóticos, e frágil porque pode se despetalar toda se for tocada bruscamente. Minha mãe tinha algumas no quintal de casa. Depois, quando fui morar em Paris nos anos noventa, eu as encontrei plenas, fortes e coloridas no Jardin des Plantes. Lá venho eu de novo com Paris. Tudo sempre acaba me levando para lá. Principalmente nessas fases de abstinência, como a que me encontro agora, depois de dois anos e meio sem visitá-la... Mas, voltemos ao blog. Ao aniversário do blog, mais especificamente. Todo ano eu meio que repito a mesma ladainha - la même rengaine, como dizem os franceses. (Olha eles aí novamente). Mas, enfim: O blog me conecta. Com o mundo, comigo mesmo e, principalmente, com as pessoas. Ainda que poucas, para esses tempos de milhares de seguidores a definir o que é ou não é um sucesso. Confesso que ando um tanto preguiçoso e postando bem menos do que outrora. Mas são ciclos, como aliás tudo na vida. O importante é que quando eu ando perdido por aí, como se estivesse doidão de alguma substância extraída da papoula, meu blog me traz de volta. Ele representa uma espécie de compromisso que me vejo obrigado a honrar. E acaba sendo sempre um grande prazer jogar algumas ideias aqui para que germinem e, quem sabe, venham a dar frutos... Falei acima que da papoula se extrai o ópio, origem de diversos narcóticos. Mas não apenas narcóticos, também analgésicos e hipnóticos. E drogas como a morfina e a heroína. Fico imaginando Toulouse-Lautrec mascando ópio - ou seria fumando? - no salão vermelho de algum cabaret de Montmartre acompanhado de uma corista ou prostituta amiga que lhe serve o absinto em taças de cristal Baccarat... Paro por aqui. Como podem ver, todos os caminhos me levam a Paris. Ainda que atualmente só na imaginação... Parabéns para o blog e, modestamente, para mim! Afinal de contas, eu sou ele e ele é eu... Muitas papoulas bem coloridas para nós!
E para todos os leitores, évidemment... Santé!

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

SAMPA STORIES

Entrei no vagão do metrô na estação da Sé e alguém que acabara de sair pelo lado oposto perdeu uma carteira que pousava diante da porta. Me abaixei para pegá-la, a campainha tocou, a porta fechou e o trem partiu deixando para trás a pessoa a quem a carteira pertencia. Abri. Era uma daquelas carteirinhas cheias de envelopes plásticos, um porta documentos, na verdade. E eles estavam todos ali. Pertenciam a uma moça, uma bombeira, como pude ver pela sua credencial. Além dos vários documentos, carteira de identidade inclusive, havia diversos cartões. Puxa, que maçada. Já pensou o trabalho que ela teria para refazer todos os documentos e bloquear todos os cartões? O que pude fazer foi deixar a carteira no guichê da estação em que desci, com a promessa do funcionário de que iria lançar nos achados e perdidos. Fiquei imaginando o trabalho que a moça teria e me lembrando de uma vez em que esqueci uma pequena valise no metro daqui de São Paulo. Eu estava morando no Rio e vim passar um fim de semana na Pauliceia chez minha amiga Lucia Serpa, quando, ao trocar de trem na mesma estação da Sé, deixei minha pequena mala num cantinho do vagão. Como não sabia dessa história de achados e perdidos, segui até a casa da minha amiga completamente arrasado por haver perdido cadernos de notas, fotos, máquina fotográfica, passaporte e, pasmem, dólares. Saí para curtir a noite paulistana e, ao chegar em casa, minha amiga me avisa que haviam ligado para mim do metrô dizendo que minha mala tinha sido encontrada. Quando o trem chegou ao fim da linha o condutor revisou todos os vagões e encontrou minha valise. No guichê eles a arrombaram e encontraram meu telefone do Rio. Ligaram e a menina que dividia apartamento comigo deu o telefone da minha amiga de São Paulo. Inacreditável. Parece que a cena se passou na Europa ou nos Estados Unidos, não? Pois foi aqui mesmo, na velha e boa Sampa. E a valise estava intacta, com tudo dentro. Dólares inclusive. E mais, o metrô não aceitava recompensa. Apenas me pediram para redigir uma carta relatando o ocorrido, o que de pronto atendi. Juro: Se na carteira que encontrei hoje tivesse um número de telefone, eu teria ligado na hora para poupar à brava bombeira o trabalho que ela certamente terá. Sem falar que eu me sentiria finalmente quite com a incrível equipe do metrô de São Paulo. É por essas e outras que amo essa cidade...
Pois nessa mesma São Paulo da garoa, descia eu dia desses a rua Augusta quando quase esbarrei em um menino que, ao passar roçando por mim, sussurrou: Tiozinho gato. Ao ouvir essas palavras virei na direção dele sorrindo agradecido pelo elogio e, ao virar a esquina, fiquei frente à frente com uma vitrine que me refletiu muito velho. Então entendi toda a carga de crítica que o elogio continha: Ele me achou gato, porém tiozinho. Eu sou um velho até que bonitinho. Ele mordeu e assoprou em seguida. Que crueldade. Eu jamais faria um elogio desse tipo. A gente precisa tomar decisões na vida: Ou elogia ou critica! Os dois, de uma vez, assim de soco, não é qualquer um que está preparado para receber. Ainda mais nessa São Paulo que tanto amo...
Na foto, o bilhete da primeira viagem de metrô que fiz em São Paulo, aos onze anos, quando vim com meus avós passar férias na casa do meu tio.