sábado, 14 de janeiro de 2017

HORTANCE, A VELHA

Vim ao Rio de Janeiro nessa quinta-feira especialmente para assistir à estreia de Grace Gianoukas na peça Hortance, a Velha. Esse texto de Gabriel Chalita tem a cara de Grace e parece ter sido escrito sob medida para ela. Sempre muito autoral em tudo o que faz, Grace se apropria da história e do personagem de Chalita e os reinventa para si própria, deixando tudo com mais cara de Grace ainda. A direção é de Fred Mayrink, que já a dirigira brilhantemente na novela Haja Coração. Excelente diretor, Fred prepara tudo para que Grace transborde seu talento livremente sobre a cena. E ela deita e rola... Amparada por uma equipe de profissionais competentes e talentosos, Grace conduz a plateia pelo cotidiano e pelas lembranças dessa velha adorável, que se apresenta adoravelmente vestida, penteada, maquiada e iluminada a desfilar por um cenário igualmente encantador. A gente ri, se diverte, se emociona e sai do teatro querendo mais. Os anos e anos em que Grace andou pelos palcos do país com seus stand ups e personagens a fizeram ainda mais atenta a cada reação da plateia. Ela está mais presente e afiada do que nunca. No dia em que o cabaré de Hortance está para fechar, a velha é surpreendida pela presença do público e resolve presenteá-lo com um número especial. Esse público, no caso, somos nós, os espectadores. E o número especial, sem sombra de dúvida, é a própria Grace. The one and only. Senhoras e senhores, aplausos, por favor!

domingo, 8 de janeiro de 2017

EMPTY SÃO PAULO

Adoro ficar em São Paulo nessa época do ano, quando a cidade está praticamente deserta para mim. Faço turismo, descubro e redescubro lugares, vou a feiras comprar alimentos e tudo está na maior tranquilidade. O trânsito, então, nem se fala. Tudo flui de maneira ágil e segura... Uma das coisas de que mais gosto é andar pelo centro da cidade apreciando tesouros da arquitetura e as obras de arte que enfeitam esses tesouros. Há também, no centro, bares, restaurantes e lojas muito antigos que são uma delícia de se descobrir. Como o Bar Guanabara, desde 1910 na Avenida São João com o Vale do Anhangabaú. Ou a Casa Godinho, mercearia que desde 1888 está aberta na Rua Líbero Badaró. Museus e exposições também ficam bem mais tranquilos de se visitar nessa época. Pena estar fazendo tanto calor. Pelo que me lembro, São Paulo não era tão quente assim quando aqui cheguei vinte anos atrás... Nada de filas em restaurantes: É só chegar e sentar. Os parques também estão bem mais frequentáveis, principalmente para mim, que detesto aglomerações: Na última sexta-feira, aproveitamos a tarde para fazer um pic-nic no da Aclimação e foi perfeito. Com direito a cisnes negros nos espreitando das margens do lago e passarinhos se aproximando para ganhar nacos da nossa comida... A academia fica praticamente só minha e nunca, jamais, em tempo algum aquela detestável história de ter que revesar aparelhos... Enfim, nesse período do ano é quando mais curto a cidade que escolhi para viver. Logo mais ela estará fazendo aniversário e voltarei a lhe prestar homenagem aqui no blog. Viva São Paulo!
Na foto, o trânsito flui sobre o Minhocão, outro local que é bom de se visitar nessa época do ano.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

ANIMAIS NOTURNOS

Violento. Triste. Denso. Cruel. Perturbador. E extremamente belo. Assim é o novo filme de Tom Ford, Animais Noturnos. Lindo desde o primeiro frame, com a baliza de banda nua e gorda dançando em uma tela gigantesca que compõe a exposição de arte da personagem principal. Luz, fotografia, direção de arte, roteiro, direção, tudo impecavelmente belo. Como no primeiro filme do diretor, Direito de Amar, a que assisti em um vôo de São Paulo para Paris. Por vezes lembra Almodóvar, pela beleza dos enquadramentos e pela trilha sonora executada com instrumentos de corda. É sempre instigante ver a violência, o horror, a crueldade, brotarem do belo. O filme promete uma coisa e acaba levando a várias outras, totalmente inesperadas. Mas não é isso que é bacana em uma obra de arte? Ainda mais quando vem tão ricamente embalado. E nem poderia ser diferente, posto que seu roteirista e diretor é estilista... Adorei o programa da tarde. Quando o filme acabou fiquei esperando todos os créditos subirem, como gosto de fazer quando um filme me agrada bastante. E vi que entre as músicas executadas na trilha sonora estava Baudelaire, de Serge Gainsbourg, compositor que adoro. Procurei a música no youtube e não consigo me lembrar que ela tenha tocado em nenhuma cena do filme... Coincidentemente eu havia comprado, antes de entrar para assistir ao filme, o livro Spleen de Paris, de Charles Baudelaire... Vai entender!
Na foto, a intrigante exposição de arte de Susan, a personagem de Amy Adams.

sábado, 31 de dezembro de 2016

ADIEU, 2016!

Eis que 2016 finalmente chega ao fim. Não vou ficar dizendo que foi um ano difícil, ou mesmo um ano horrível como muitos estão dizendo, nem que ele levou muita gente bacana. Eu acho o seguinte: Cada pessoa tem a sua hora de morrer. E o ano não tem nada a ver com isso. Se elas resolveram morrer todas de uma vez, que deixem o ano fora dessa... A pior coisa de 2016, pra mim, foi não ter trabalhado. Não me lembro de nenhum outro ano, desde que estreei profissionalmente em 1985, em que eu não tenha feito nenhum trabalho. Mesmo em 2010 quando, ao deixar a Terça Insana depois de oito anos, resolvi tirar um ano sabático só para viajar e curtir, nem naquele ano fiquei completamente sem trabalhar. Acabei fazendo uma coisinha aqui e outra ali. Não fazer nada profissionalmente para quem, como eu, ama o que faz é osso duro de roer... Outra coisa que me faz gostar menos de 2016 do que dos outros anos é não ter ido a Paris. Tenho uma séria implicância com os anos em que não vou visitar minha cidade do coração... Minha grande amiga e irmã astral Lidoka, eterna Frenética também nos deixou. Triste perda. Assim como Elvis, meu filho gato, meu bebê pet. Que estará comigo para todo o sempre, enquanto eu estiver vivo, na memória do meu coração... Anteontem, dia 29, tomei um banho de chuva libertador. Corri, pulei com os braços abertos, olhando pro céu e deixando a chuva lavar os olhos. Chapinhando as poças d'água como as crianças do prédio ao lado. Lembrei da minha infância em Soledade. Fui feliz e lavei a alma... Hoje acordei cedo, cozinhei lentilhas, passei o dia preparando a ceia para receber amigos queridos que estarão comigo na virada do ano. Estar junto de quem se ama será sempre o melhor presente. Desejo a todos os leitores e amigos um excelente 2017. Ano ímpar! Que assim seja...
Na foto eu, como pinto no lixo, lembrando os banhos de chuva da infância.

domingo, 18 de dezembro de 2016

BODAS DE LÃ

Hoje meu blog completa sete anos de existência. São as nossas bodas de lã. Adorei saber que bodas de sete anos são de lã: Nada mais quentinho, fofinho e aconchegante para comemorar esse aniversário na primavera paulistana que vive alternando temperaturas... Dizem que toda relação passa por uma crise aos sete anos. Comigo e meu blog não foi diferente: Basta ver que nesse nosso sétimo ano o número de postagens foi bem menor em relação aos anteriores. Cheguei a pensar várias vezes em abandoná-lo, deixar de postar como vários blogueiros que conheço o fizeram. Mas não tive coragem. Sempre pensei nos leitores, por menor que fosse o número deles. Ou mesmo que ninguém leia o que eu posto, penso sempre no futuro, no pós-morte, afinal, um dia alguém há de ter acesso a esse conteúdo... Enfim, o importante é que estamos aqui, eu e meu blog, firmes e fortes. Esse nosso sétimo ano não foi fácil, mas felizmente já está quase acabando. Espero que com ele acabe também a moda das barbas e bigodes de época e dos coques masculinos... E que no próximo ano as pessoas parem de elogiar as coisas dizendo que elas são top ou, pior ainda, “diferenciadas”. Isso lá é elogio? E, para terminar, que a humanidade promova um definitivo enterro de todos os paus de selfie... Brincadeiras à parte, considero esse blog um terreno fértil onde lanço sementes que espero, um dia, irão germinar e me dar polpudos frutos. O material armazenado nesses sete anos já é bastante significativo e, modéstia à parte, bem legal. Sem mais para o momento, subscrevo-me cheio de esperanças para o ano vindouro e agradeço a cada um dos leitores e seguidores pela adorável companhia. Ah! Por último, mas não menos importante, agradeço à minha amiga Lúcia Nascimento pela revisão espontânea dos textos, sempre me alertando para os erros de digitação que escapam à minha rígida fiscalização... Beijos e até as nossas próximas bodas!
Na foto eu, bem pimpão, saindo do Takô com casaco de lã tricotado por minha irmã Raquél.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

LUXO SÓ

Hoje fui à Galeria de Arte do Sesi para a abertura da exposição Tesouros Paulistas - Coleções de Arte dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo. Foi a melhor coisa que eu poderia ter feito numa segunda-feira de verão chuvosa na Pauliceia... A exposição é um luxo. E quando digo um luxo não é maneira de falar: É literalmente um luxo. Sofisticação, bom gosto, riqueza e valor artístico. Que, na minha opinião, é o valor maior. Logo que entrei na exposição, fiquei um pouco perdido, deslumbrado. Aos poucos fui focando minha atenção primeiro nas telas, depois nas esculturas e assim sucessivamente até as louças, o mobiliário, a prataria, e etc... Para começar com as telas, temos de Tarsila do Amaral e Anita Malfatti a Volpi e Di Cavalcanti, passando por Tomie Ohtake e Wesley Duke Lee. Esculturas de Brecheret e Bruno Giorgi... Vou voltar várias vezes para admirar com calma - e sem o efeito etílico do champanhe - esse tesouro exposto na Avenida Paulista... Nesses dias que vivemos, de tantas pequenezas e lutas para que um mínimo de decência seja preservado num país que engatinha em direção à dignidade, uma iniciativa como esta é uma lufada de ar puro e inspiração. E o melhor: É de graça. Aberto ao público de segunda a domingo das 10 às 20 horas. Eu já fui funcionário do Sesi, contratado como ator de dois espetáculos do Grupo XPTO, que se estenderam de 1996 a 1998, logo que cheguei na Capital Paulista. E coisas como esta sempre me fizeram amar essa cidade. Não tem desculpa para não se acompanhar o que acontece em termos de arte e cultura na Pauliceia: Pelo menos no Sesi, a gente tem teatro, shows e exposições de graça... A exposição fica em cartaz até 28 de fevereiro de 2017. Se joga!
Na foto, o auto-retrato de Tarsila do Amaral. (Eu, que não curto fotografar obras de arte em exposições e acho cafona postá-las, não resisti).

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

CORES DE ALMODÓVAR

Quando cheguei em Paris em outubro de 1990, para morar por um ano na Capital Fracesa, só havia assistido a um filme de Pedro Almodóvar: Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos. Por indicação de minha amiga Martinha Biavaschi. Eu ainda morava em Porto Alegre, mas assisti aqui mesmo na Pauliceia esse filme que estava dando o que falar. Foi amor ao primeiro frame. Mas eu ainda não tinha noção de tudo o que esse incrível cineasta era capaz. Pois em Paris, pouco a pouco, fui descobrindo a sua singular filmografia... É que lá tinha um cinema (não vou lembrar o nome) que exibia todos os filmes de Almodóvar em uma espécie de ciclo. Mais do que um ciclo, pois pelo que me lembro, eles ficaram em cartaz durante todo o tempo que morei por lá. O fato é que a cada nova película a que assistia eu saía mais sacudido, aturdido, transformado. Foi assim com Matador, Entre Tinieblas, Ata-me! (cujo título em francês era Atache-moi! que adoro...), Pepi Luci Bom y Otras Chicas del Montón, Labirinto de Paixões, Que Fiz Para Merecer Isto?, e outros tantos que ele já havia filmado na ocasião. Mas especialmente A Lei do Desejo, La Loi du Désir em francês, foi para mim o mais perturbador. Tanto que desde então passou a ser meu cult movie. E até hoje o é. Desde a primeira cena, em que um jovem se despe e se masturba obedecendo a uma voz em off. Quase enfartei quando ouvi tocar Ne Me Quittes Pas na voz de Maysa... Carmen Maura como a irmã transsexual do protagonista, Bibi Andersen, Rossy de Palma, Miguel Molina, Trio Los Panchos na trilha sonora e ah! Antonio Banderas... O que era Antonio Banderas nos primeiros filmes de Almodóvar? Não por acaso, até Madonna se encantou... Mas a força maior de seus filmes são as mulheres. Victoria Abril, Marisa Paredes, Chus Lampreave, Penelope Cruz, as já citadas aqui e tantas outras chicas del montón... Quando voltei para o Brasil eu estava decidido a ser Pedro Almodóvar. Tudo para mim era bolero. Exagero. Cor. Drama & comédia. Cheguei a montar uma peça do meu professor Ivo Bender, um dos maiores dramaturgos vivos do Brasil, que se chamava Sexta-feira das Paixões, numa versão abolerada que chamei de Mala Noche, por sugestão do próprio Ivo inspirado em um dos boleros que escolhi para a trilha sonora... Continuei fã deste cineasta e até hoje vou assistir a cada novo filme seu que sai no dia da estreia. É claro que desisti de ser ele. Não tenho mais idade pra isso. Aliás, hoje em dia tenho achado cada vez mais difícil ser alguém. Ainda que esse alguém seja eu mesmo...

Nas fotos, Almodóvar y su elenco e eu tentando ser ele com as atrizes de Mala Noche: As maravilhosas Ida Celina, Ciça Reckziegel, Miriam Ribeiro e a saudosa Claudia Meneghetti em foto de Zeca Felippi.