domingo, 25 de setembro de 2016

SEPTEMBER SONG

Ah, o mês de setembro, tão aguardado, chegou chegando e já está quase no fim! Oh my blog, esse é apenas o terceiro post do mês... A agenda social tem sido intensa, com jantares chez les copains, e a cultural não menos, com shows, leituras e peças de teatro. Ainda cheio de coisas para assistir, que a oferta aqui na Pauliceia é imensa, e fazendo uma seleção, já que os preços também são imensos. Fiquei encantado com o filme Chocolate, não o americano de 2000, com Juliette Binoche, e sim o francês, de 2015, com Omar Sy, o inesquecível Driss de Os Intocáveis. Filmes que retratam o mundo do circo geralmente me comovem. Não foi diferente com Sangue Azul, de Lírio Ferreira, nem com O Palhaço, de Selton Mello, e nem tampouco com La Strada, clássico de Federico Fellini. Mas esse tem o charme especial de se passar em Paris e mostrar bastante o Cirque d'Hiver, um dos meus lugares preferidos na capital francesa onde assisti pela primeira vez, no começo da década de noventa, a um espetáculo do hoje mundialmente famoso Cirque du Soleil. Omar Sy é puro carisma em cena, além de ser um ator talentosíssimo. Lembrei dos meus tempos na École du Cirque Fratellini que, por sinal, é citada no filme... Setembro trouxe também Gilberto Gavronski, Luís Arthur Nunes e Marcos Breda relendo Caio Fernando Abreu, e Cida Moreira fazendo homenagem a ele junto a Thiago Pethit. A primavera entrou parecendo mais uma extensão do inverno do que uma prévia do verão. E vamos vivendo aqui nessa selva de pedra, cada dia mais reveladora de mistérios e encantamentos. Mas atenção! É preciso estar atento e forte. E de olhos bem abertos, pois São Paulo não é nada óbvia e precisa ser decifrada a cada nova estação. Boa primavera para todos...
Na foto, Omar Sy esbanjando talento & simpatia no affiche de Chocolate. Ah! O título do post peguei emprestado da canção de Kurt Weill.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

CAIO MON AMOUR

Que bom que entrou setembro e a boa nova anda nos campos! Hoje o saudoso Caio Fernando Abreu completaria sessenta e oito anos de idade. Seu aniversário está sendo comemorado à altura, com intensa programação que começou ontem com a abertura da exposição Caio Mon Amour. A curadora, Paula Dip, me convidou para apresentar seu texto As Quatro Irmãs-Uma Psico-Antropologia Fake, mais conhecido como A Lenda das Jaciras. Foi emocionante ver vários amigos e admiradores de Caio reunidos comemorando seu aniversário e perpetuando a sua memória. Uma menina me abordou perguntando: O senhor é ator? Adorável. Quando disse a ela que conheci Caio em Paris no ano de 1991, ela me disse que nasceu em 1993... Outro garoto que me entrevistou para um site me perguntou qual era, na minha opinião, o maior legado de Caio. Respondi que, além de sua obra, essa possibilidade de se perpetuar através das novas gerações via internet. Caio virou uma espécie de ídolo virtual de toda uma nova geração que está conhecendo sua obra agora. Como a menina que me perguntou "o senhor é ator"... E as homenagens seguem. Hoje tem, simultaneamente, em Porto Alegre e aqui em São Paulo, dois espetáculos. No sul, Luis Arthur Nunes e Marcos Breda apresentam O Homem e a Mancha. Aqui, Gilberto Gavronski retoma a sua Dama da Noite. Como não posso estar nos dois lugares ao mesmo tempo, assistirei hoje à Dama de Gilberto e, no sábado, ao Homem e a Mancha que Luis Arthur e Breda trarão para a Pauliceia. Na quinta ainda teremos Cida Moreira e Thiago Pethit e muito mais... Caio está em festa. Comemorado dignamente. E lá se vão vinte e cinco anos desde que nos conhecemos em Paris, numa fria tarde de inverno... Outro dia, quando contava para alguém como nos conhecemos, essa pessoa me perguntou: Você não tem nenhuma foto com ele? Não, respondi frustrado, não tenho. Naquela época a gente não fotografava tudo o tempo todo como faz agora. Depois, puxando pela memória, lembrei: Tenho uma única foto com Caio. Na festa do meu aniversário de trinta anos em Porto Alegre. Vou procurar e escanear para postar aqui. Por enquanto, Viva Caio Fernando Abreu!
Na foto, roubei o lugar de Cazuza no abraço de Caio clicado por Vânia Toledo.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

RUA DOS CATAVENTOS

Que falta faz Mario Quintana. Descobri isso hoje pela manhã enquanto aguardava para ser atendido por minha dentista. Na verdade, minha amiga Anne que, por coincidência, é também quem cuida dos meus dentes há mais de trinta anos... Pois na sala de espera do consultório da minha amiga/dentista, ao invés de Caras ou Super Interessante, o cliente espera lendo Clarice Lispector ou Mario Quintana. Um luxo. De um requinte surpreendente nessa era de banalidades e superficialidades que vivemos. Me dei conta de que não lia Mario há muito tempo. Apesar de ter quase tudo dele em casa. É sempre bom folhear seus livros e, totalmente ao acaso, encontrar as coisas mais inacreditavelmente apropriadas. Como aconteceu comigo nessa manhã de inverno em Porto Alegre, quando folheava A Rua dos Cataventos e me deparei com os versos que transcrevo a seguir:
"Eu nada entendo da questão social. Eu faço parte dela, simplesmente... E sei apenas do meu próprio mal, que não é bem o mal de toda a gente.
Nem é deste planeta... Por sinal, que o mundo se lhe mostra indiferente! E o meu Anjo da Guarda, ele somente, é quem lê os meus versos afinal"...
Me deu uma enorme saudade de quando eu era jovem e vivia aqui na capital gaúcha. Não raro eu encontrava com o poeta pelas ruas do centro da cidade. Ou quando ia buscar minha irmã, que era jornalista e trabalhava no Correio do Povo, e o via pelas dependências do jornal. Ou na Feira do Livro, na Praça da Alfândega. Naquela época a gente não fotografava tudo obstinadamente como se faz hoje em dia, por isso não tenho foto com ele. Mas tenho seu autógrafo e dedicatória em livros e num caderno meu no qual ele me chama de colega, pois eu me dizia poeta na ocasião... Bons tempos! Fiquei lembrando do meu livro de leitura do curso primário, que trazia em uma das páginas o seu poema Dorme Ruazinha... É tudo escuro!... Não consigo imaginar sua delicadeza em meio à descortesia reinante nos dias atuais. E, para encerrar citando o próprio, "eles passarão; eu, passarinho"...
Na foto, Quintana em seu habitat natural: As ruas do centro de Porto Alegre.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O ANÃO

A convite do meu amigo Caetano Pimentel, que é diretor cênico residente do Teatro São Pedro, fui assistir à ópera O Anão, de Alexander Von Zemlinsky, com direção musical de André dos Santos e direção cênica de William Pereira. Um belo espetáculo. Uma direção de William é sempre a garantia de delicadeza em cena. E, além de extremamente prazeroso de se assistir, O Anão leva a uma interessante reflexão. Não é para menos, uma vez que o libreto foi inspirado em um conto de Oscar Wilde: O Aniversário da Infanta. Eu sempre fui fã de Wilde, desde a mais tenra idade, quando me caiu nas mãos O Retrato de Dorian Gray e, mais tarde, na escola de teatro, quando descobri sua intrigante dramaturgia. Dono de um olhar crítico sobre a sociedade que retrata, Wilde tem o típico humor ferino, por vezes negro, dos ingleses. Com O Anão não é diferente. A infanta recebe o anão como presente de aniversário e se diverte muito com ele. Sem saber de sua condição feia e disforme, o protagonista pensa agradar a todos que o cercam, quando, na verdade, apenas os faz rir com a sua diferença. Até que um espelho cruel lhe revela o inexorável... Soa atual? Não à toa, em tempos de imagens distorcidas por filtros em redes sociais onde todos são lindos & felizes... Fico pensando em Oscar Wilde nos dias de hoje. Seria massacrado. Como de fato o foi em sua época, por ousar praticar o "amor que não ousa dizer seu nome", para citar o próprio. Ele poderia viver plenamente sua sexualidade fora do armário mas, certamente, não sobreviveria ao politicamente correto. Nem às patrulhas ideológicas virtuais que a todos denunciam. Cultuador que era da beleza e dos prazeres, o dândi vitoriano sucumbiria sob a pecha de racista, preconceituoso, elitista e xenófobo. Para dizer o mínimo... De fato é muito cruel. Como cruel é a humanidade. E é justamente dela que nos fala Wilde. Ao ver que seu anão está morrendo, a infanta lamenta: Tão novo o meu brinquedo e já quebrou! Soa atual também? Então. Eu disse que levava à reflexão...
Na foto, a Infanta de Espanha lamenta a morte de seu "brinquedo".

terça-feira, 23 de agosto de 2016

PAUVRE FRIDA

Ando sentindo muita pena de Frida Kahlo. E não é pelas dores lancinantes que a artista mexicana sofreu ao longo da sua vida pós-acidente. Mas pela banalização eminente de sua figura. Explico: Frida tornou-se um ícone pop. Para o bem e para o mal. Para o bem porque quanto mais pop algo ou alguém se torna, mais alcance terá junto ao público médio, popular, pop enfim. E para o mal porque sua imagem se tornou uma estampa, algo que é infinitamente reproduzido até o degaste total. Andando pela Rua Augusta, por exemplo, a gente percebe que nove em cada dez vitrines de lojas "descoladas" exibem o rosto de Frida estampado em algum objeto de uso pessoal ou de decoração. Tem Frida em camisetas, almofadas, canecas, tecidos, porta-copos, quadrinhos, bolsas, cadernos, agendas e abajures. Frida virou tema de decoração. Nada que já não tenha sido feito com Marilyn, James Dean ou Che Guevara. Ou com o Seu Madruga. Só que no caso de Frida, não é apenas o seu rosto que se banaliza, mas a sua obra, posto que é basicamente composta por auto-retratos e são eles, os portraits, que são reproduzidos à la mort... Pra que transformar Frida Kahlo em Romero Britto? Sempre me incomodei com essa ideia da reprodução das coisas. Se uma coisa é bonita, bacana, original, interessante, se alguém teve uma ideia genial, de sucesso, pra que vou perder tempo e quebrar a cabeça para ter a minha própria? Basta copiar o que já deu certo... Sei que exagero, mas uma coisa leva à outra, leva à outra, leva etc. Eu sempre fui muito apaixonado por Frida Kahlo, sua obra e sua história pessoal. Li sua biografia, seu diário e tudo o que saía sobre ela muito antes de a terem transformado nessa xerox. Ante mesmo de Madonna sonhar vivê-la no cinema. E Salma Hayek tê-lo realizado. Mas, enfim, ninguém é dono de nada. Muito menos eu. Agora já estou pensando em Warhol e suas Ten Lizes, obra que reproduz dez vezes o rosto de Elizabeth Taylor e que tive a oportunidade de ver no Beaubourg alguns anos atrás... Paro por aqui. Senão, daqui a pouco, vou ficar como a Marta Suplicy no debate de ontem após a resposta do Haddad: Sem entender nada!
Na foto, a Coluna Partida de Frida.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

SEREIA'S DRINKS

Dizem que a esperança é a última que morre. Tenho minhas dúvidas. Ninguém me tira da cabeça que o Sereia's Drinks ganha. Morre depois. Pelo menos, depois do amanhecer. Nas noites escaldantes do verão ou nas madrugadas do mais rigoroso inverno ele está lá, na Rua do Lavapés, com a porta aberta e o luminoso aceso. E sempre tem alguém entrando pra ver qual é que é. Morro de curiosidade. Circulo muito pelo Glicério, Cambuci e arredores, por isso passo com frequência em frente à porta cujo indefectível luminoso é um convite. Um convite a quê, exatamente, não sei. Mas como imagino! À luxúria, à lascívia, a toda sorte de perversidades, ao álcool, às drogas, a garotas de programa, a shows de sexo explícito... Desfilam em minha mente fantasiosa & pervertida cenas e mais cenas, que vão de Fellini à Boca do Lixo. De Almodóvar a Alexandre Frota. Fico fantasiando se, ao adentrar a pequena portinha da Rua do Lavapés, o cliente seria conduzido por um longo e estreito corredor que o levaria a uma ante-sala redonda e cheia de portas com letreiros sugestivos. Como no teatro mágico de Hesse. Se seria vendado ou despido. Se, conduzido por sacerdotizas profanas, seria encaminhado ao altar-mor do prazer ou à sala do trono do Rei ou Rainha da Noite. Se beberia absinto, champanhe ou cachaça. Se fumaria ópio, charuto ou maconha. Se inalaria rapé ou pó. Se faria sexo grupal ou solitário. Se usaria lingerie ou farda. Se um imenso globo de espelhos giraria refletindo luzes coloridas pelo salão. Se uma velha jukebox tocaria Roberto Carlos... E se, ao amanhecer, ele seria estrategicamente defenestrado por uma saída secreta de modo a não ser visto por nenhum dos matinais frequentadores da região. E se voltaria para a sua vidinha pacata com o ritmo da música ainda na cabeça e o perfume da aventura na memória olfativa da alma... Delírios de um senhor ligeiramente alcoolizado. Sonhar não custa nada. Se alguém tiver coragem de um dia me acompanhar, quem sabe eu não me anime?

terça-feira, 16 de agosto de 2016

APROVEITEM, CRIANÇAS!

De volta à Pauliceia depois de dez meses no Rio de Janeiro. Feliz como um chafariz, vou revendo, recomeçando, refazendo aos poucos tudo o que deixei temporariamente para trás. Maravilhas da natureza à parte, sou São Paulo de coração e para mim não tem no Brasil lugar melhor para viver. E por falar em maravilhas, uma das maiores delas nos deixou nessa manhã fria de inverno. Elke, a oitava maravilha do mundo. Dois meses atrás, eu andava de carro pela Avenida Atlântica, no Rio, e nosso carro parou no sinal lado a lado com um táxi que levava a maravilha em si: Elke. Abrimos o vidro, chamamos, acenamos, gritamos que a amávamos, e ela, sempre sorridente, acenou de volta e respondeu do alto de sua sabedoria: Aproveitem, crianças! E é isso o que pretendo dizer com o post de hoje: Aproveitem, crianças. Toda uma geração de pessoas maravilhosas como Elke está partindo, está nos deixando. Sem dramatizar, sem achar que uma onda de caretice irá tomar conta de tudo ou que iremos voltar à idade média, vamos aproveitar não apenas o legado dessas pessoas maravilhosas mas também o que nos resta para viver e, quem sabe, deixar também um legado maravilhoso para os que estão por vir. Muitos estão partindo, mas também muitos estão chegando. É a lei da vida. Por isso vamos aproveitar. Cada novo entardecer, cada novo amanhecer, cada beijo, cada abraço, cada sorriso, cada lembrança, cada saudade, cada nova amizade que começa, cada novo frisson, cada novo prazer, cada nova emoção e cada nova repetição de todas essas coisas. Estar vivo é muito bom e passa depressa. Aproveitem, crianças!
Na foto, Elke no clássico Xica da Silva, de Cacá Diegues, um dos meus filmes cult.