segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A LÁ LÁ Ô

A lá lá ô ô ô ô ô ô ô, mas que calô ô ô ô ô ô ô... Refletindo sobre a ressignificação do meu protagonismo, percebo, para além da minha zona de conforto, um empoderamento não-binário da minha orientação sexo-afetiva. Isso talvez acarrete uma reinicialização do meu sistema cognitivo de leitura da sociedade machista-heteronormativa. Na verdade esse processo libertador é meio que uma ocupação do meu espaço público/privado como forma de resistência. Mentira! Tô brincando... Eu jamais usaria tantas "palavras da moda" para me expressar. Mas o fato é que o chamado "túmulo do samba" acordou definitivamente para o carnaval. Não sei como foi no ano passado, que eu estava no Rio. Mas esse ano comprovei in loco a multidão que compareceu à Rua da Consolação para seguir o bloco Acadêmicos do Baixo Augusta. Aliás, seguir o bloco me foi impossível, tal a aglomeração humana. Preferi assistir a tudo da janela do apartamento de um amigo, verdadeiro camarote vip de frente para a folia. Me senti em Salvador. Ao contemplar da janela do oitavo andar a Consolação inteira ocupada por animados foliões que se esbaldavam ao som da palavra de ordem "a cidade é nossa", não pude deixar de lembrar da primeira fala da personagem Lisístrata, da comédia homônima de Aristófanes que montei anos atrás, ao constatar a ausência de suas companheiras à assembleia que convocara: Se tivessem sido convidadas para uma festa de Baco, isso aqui estaria infestado de mulheres e tamborins; mas, como eu falei que o assunto era sério, não compareceu nenhuma... Quem disse que o Brasil não é um país sério? Somos sérios sim. Levamos muito a sério essa questão do carnaval, por exemplo. As outras, a gente deixa pra março. E ainda estamos apenas no esquenta, no chamado pré-carnaval. Sim, porque quatro dias de folia era muito pouco, então criou-se o pré-carnaval pra gente poder curtir um pouco mais... É lógico que essa reflexão toda foi pro espaço assim que a Fafá de Belém subiu no trio elétrico e eu passei a gritar enlouquecidamente: Fafá! Fafá!! Fafá!!! Como se fosse possível ela me ouvir gritar do oitavo andar com o som do trio a milhões de decibéis. Mas a essas alturas eu já havia sido abduzido pelo espírito momesco e tudo o que eu mais queria era cair na folia como se não houvesse amanhã. E com a confortante certeza de que "a cidade é nossa"...
Na foto, a privilegiada vista do apartamento de Wilson de Santos.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

"A PROPÓSITO DA EXPOSIÇÃO MALFATTI"

Nem paranoia, nem mistificação. A exposição Anita Malfatti - Cem Anos de Arte Moderna, que está no Museu de Arte Moderna de São Paulo, é puro deleite. E encantamento. Sou muito atraído por esse período da arte brasileira. Mais especificamente, pelo grupo de artistas que integrou a Semana de Arte Moderna, da qual Anita foi precursora. A mostra traz um vasto panorama da trajetória da artista, com obras que vão de 1912 a 1956, e que ilustram as diversas fases da sua produção artística. As idas e vindas de Anita entre Alemanha, França e Estados Unidos. Seu contínuo interesse por tudo o que estava acontecendo no mundo das artes. Seu flerte com os diversos movimentos e tendências da pintura. Sua amizade com Tarsila do Amaral. Aliás, uma das coisas que mais me chamou a atenção na exposição e à qual dediquei o maior tempo de apreciação foi justamente uma carta de Tarsila para Anita, enviada da Capital Francesa, no ano de 1920. Escrita à mão, com caligrafia impecável em papel sem pauta. Nela Tarsila conta que estava morando "bem no centro de Paris, a dois passos do Louvre, o mesmo com o metro que me facilita para ir a todas as direcções. No ponto em que estou, nada fica longe". E, na parte que mais adorei ter lido, ela conta que foi dar um passeio de "aeroplano" sobre a Cidade Luz. Depois comenta: "Não tivemos medo, mas também não tencionamos bisar o passeio. A Terra é tão bôa, amemo-la, caminhemos sobre ella sem aquelle vento terrível das alturas, apenas remediado pelo capote e pelo gorro de pelles envolvendo a cabeça toda"... Adorável. E muito chic... Quase morri de dor nas costas, pois a carta é enorme e está exposta em uma vitrine horizontal, tipo mesa, o que fez com que eu me curvasse para poder lê-la melhor com os óculos para perto... Tudo por amor à arte. Mas, como eu dizia, a mostra traz um vasto panorama da produção da artista. Lá estão expostas desde O Farol, de 1915, até Vida na Roça, de 1956. Gosto particularmente do Retrato de Antonio Marino Gouvêa, no qual Anita reproduz ao fundo um outro quadro seu, Lago Maggiore, que pertencia ao retratado. E também do singelo Chanson de Montmartre, no qual uma moça rega flores à janela acompanhada de seu gatinho. Estão também expostos O Japonês, Tropical, Chinesa, A Estudante Russa, vários nus masculinos e femininos, retratos de amigos, familiares e intelectuais. E um desenho intitulado Grupo dos Cinco, de 1922, no qual aparecem Tarsila e Mário tocando piano, Menotti e Oswald repousando no chão enquanto a própria Anita dorme sobre um divã. Imperdível é pouco... Ao final da visita compreende-se porque a exposição de 1917 causou tanto estranhamento na provinciana São Paulo de então: Anita estava conectada com o que havia de mais moderno e vanguardista no mundo. Uma mulher à frente de seu tempo. Ou, como diz o meu amigo Odilon: Uma mulher moderna, voltada pro futuro...
Na foto, a obra O Japonês. Salvei do Google, pois não gosto de fotografar as obras quando vou a exposições de arte. O título do post está entre aspas porque é o título da crítica de Monteiro Lobato à exposição de 1917, que ficou mais conhecida como Paranoia ou Mistificação.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

DE VOLTA À PAULICEIA

Estou de volta a São Paulo depois de dez dias junto ao mar no pequeno paraíso que é a praia de Camburi. Dormir e acordar rodeado de belezas naturais de tempos em tempos é algo essencial para quem mora na Pauliceia. Respirar a brisa do mar, sentir a maresia, ouvir estrelas! Ora, direis, perdeste o senso. E eu vos direi no entanto que junto ao mar as estrelas são tantas que a gente chega até mesmo a ouvi-las. Ou o vinho que bebemos nos faz acreditar que sim. Mas, como já dizia Baudelaire, é preciso estar sempre embriagado. De vinho, de poesia ou de virtude, daquilo que preferirem... Eu prefiro esse mix de vinho e maresia, de lua e estrelas, nasceres e pores de sol, subires e desceres de marés... Sempre acompanhado de alguma literatura, para inspirar, e d'alguma música, para embalar as emoções... Claro que, como a perfeição não existe, tinha que ter algo de ruim: Os mosquitos. Um inferno. E dá-lhe repelente e matinset... Na volta, ao longo da estrada, um verdadeiro show em tecnicolor proporcionado por quaresmeiras e manacás que, no auge da floração, pintam e bordam a subida da serra... A capital, para variar, está cheia de coisas a serem vistas, assistidas, visitadas e revisitadas. A primeiríssima coisa que pretendo fazer, assim que terminar de desfazer a mala e botar a roupa para lavar, é visitar a exposição de Anita Malfatti no MAM. A mostra comemora os cem anos da famosa exposição da pintora que causou furor em 1917 e sacudiu a Pauliceia a ponto de fazer Monteiro Lobato chamá-la de Paranoia ou Mistificação... Das coisas que me fazem amar a cinzenta e poluída São Paulo de Piratininga. Essa visita à exposição de Anita merecerá, evidentemente, post exclusivo aqui no blog. Este que encerro agora era só para matar a saudade e fechar o parêntese aberto com a minha ida para Camburi. Agora, devidamente reabastecido de mar, sol, horizontes, entardeceres, noites estreladas, silêncio e canto dos pássaros, volto a encarar de frente a grande metrópole. Embriagado de vinho, de poesia e de virtude... Bom fevereiro a todos!
Na foto, obra do artista carioca Marcelo Eco, que homenageia a famosa esquina paulistana cantada por Caetano.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

JANEIRO À BEIRA DE

Janeiro à beira de: O mês já está quase no fim, à beira de terminar. E eu estou novamente em Camburi, meu paraíso à beira mar. Bacana, não? Para encerrar o primeiro mês do ano em grande estilo... Tantas coisas já aconteceram nesse janeiro! São Paulo fez aniversário, minha irmã veio me visitar, o prefeito Dória pintou muros e paredes de cinza para encobrir pixações e grafittis, voltou atrás e até propôs criar um grafitódromo, o que eu, amante do grafitti que sou, achei bem esquisito. E por falar em amante do grafitti, achei engraçado que de repente todos passaram a amar e a defender veementemente essa expressão artística antes tão ignorada... Mas vamos falar de coisa boa: Edson Cordeiro voltou a cantar na Pauliceia. O cantor, que há anos mora em Berlim, brindou a plateia que lotava o Teatro J. Safra com pérolas de seu repertório, especialmente canções do último álbum, Paradies Vogel, e algumas do próximo, que se chamará Fado. Edinho, como o chamam os amigos, está cada vez melhor: Voz, afinação, potência, presença cênica, timming de comédia, tudo detalhadamente burilado pela vasta experiência nos palcos desse mundo afora. Palmas para esse brasileiro que tão bem nos representa no exterior. Ou, para citar Chico, mirem-se no exemplo. Desse pequeno notável... Vera Fischer também está de volta aos palcos, agora como o capeta em si na comédia Ela é o Cara, em cartaz no Teatro Folha. Uma interessante brincadeira que faz do diabo uma estrela da TV e vice-versa. Difícil de entender? Por isso mesmo é que é interessante... Já Miguel Falabella, na contramão de Vera, volta aos palcos como a personificação de ninguém menos do que Deus, o criador do universo, na peça God. O papel veste como luva nesse deus das artes cênicas e hitmaker dos palcos. Eu sei que esse espetáculo é do ano passado, é que só tive oportunidade de assistir agora, nesse retumbante e chovedouro janeiro. E justamente por não aguentar mais tanta chuva em São Paulo é que resolvi me refugiar mais uma vez em Camburi, meu pequeno paraíso à beira-mar. Aqui o sol sempre brilha. E à noite as estrelas enchem de poesia o céu do meu verão... Teve mais, eu é que não estou lembrando agora. Ah, sim! La la land, que gostei, mas não amei. É que acho que já perdi boa parte do meu romantismo... Beijos e bom fim de janeiro a todos...
Na foto, grafittis à beira mar na praia de Camburi.

sábado, 14 de janeiro de 2017

HORTANCE, A VELHA

Vim ao Rio de Janeiro nessa quinta-feira especialmente para assistir à estreia de Grace Gianoukas na peça Hortance, a Velha. Esse texto de Gabriel Chalita tem a cara de Grace e parece ter sido escrito sob medida para ela. Sempre muito autoral em tudo o que faz, Grace se apropria da história e do personagem de Chalita e os reinventa para si própria, deixando tudo com mais cara de Grace ainda. A direção é de Fred Mayrink, que já a dirigira brilhantemente na novela Haja Coração. Excelente diretor, Fred prepara tudo para que Grace transborde seu talento livremente sobre a cena. E ela deita e rola... Amparada por uma equipe de profissionais competentes e talentosos, Grace conduz a plateia pelo cotidiano e pelas lembranças dessa velha adorável, que se apresenta adoravelmente vestida, penteada, maquiada e iluminada a desfilar por um cenário igualmente encantador. A gente ri, se diverte, se emociona e sai do teatro querendo mais. Os anos e anos em que Grace andou pelos palcos do país com seus stand ups e personagens a fizeram ainda mais atenta a cada reação da plateia. Ela está mais presente e afiada do que nunca. No dia em que o cabaré de Hortance está para fechar, a velha é surpreendida pela presença do público e resolve presenteá-lo com um número especial. Esse público, no caso, somos nós, os espectadores. E o número especial, sem sombra de dúvida, é a própria Grace. The one and only. Senhoras e senhores, aplausos, por favor!

domingo, 8 de janeiro de 2017

EMPTY SÃO PAULO

Adoro ficar em São Paulo nessa época do ano, quando a cidade está praticamente deserta para mim. Faço turismo, descubro e redescubro lugares, vou a feiras comprar alimentos e tudo está na maior tranquilidade. O trânsito, então, nem se fala. Tudo flui de maneira ágil e segura... Uma das coisas de que mais gosto é andar pelo centro da cidade apreciando tesouros da arquitetura e as obras de arte que enfeitam esses tesouros. Há também, no centro, bares, restaurantes e lojas muito antigos que são uma delícia de se descobrir. Como o Bar Guanabara, desde 1910 na Avenida São João com o Vale do Anhangabaú. Ou a Casa Godinho, mercearia que desde 1888 está aberta na Rua Líbero Badaró. Museus e exposições também ficam bem mais tranquilos de se visitar nessa época. Pena estar fazendo tanto calor. Pelo que me lembro, São Paulo não era tão quente assim quando aqui cheguei vinte anos atrás... Nada de filas em restaurantes: É só chegar e sentar. Os parques também estão bem mais frequentáveis, principalmente para mim, que detesto aglomerações: Na última sexta-feira, aproveitamos a tarde para fazer um pic-nic no da Aclimação e foi perfeito. Com direito a cisnes negros nos espreitando das margens do lago e passarinhos se aproximando para ganhar nacos da nossa comida... A academia fica praticamente só minha e nunca, jamais, em tempo algum aquela detestável história de ter que revesar aparelhos... Enfim, nesse período do ano é quando mais curto a cidade que escolhi para viver. Logo mais ela estará fazendo aniversário e voltarei a lhe prestar homenagem aqui no blog. Viva São Paulo!
Na foto, o trânsito flui sobre o Minhocão, outro local que é bom de se visitar nessa época do ano.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

ANIMAIS NOTURNOS

Violento. Triste. Denso. Cruel. Perturbador. E extremamente belo. Assim é o novo filme de Tom Ford, Animais Noturnos. Lindo desde o primeiro frame, com a baliza de banda nua e gorda dançando em uma tela gigantesca que compõe a exposição de arte da personagem principal. Luz, fotografia, direção de arte, roteiro, direção, tudo impecavelmente belo. Como no primeiro filme do diretor, Direito de Amar, a que assisti em um vôo de São Paulo para Paris. Por vezes lembra Almodóvar, pela beleza dos enquadramentos e pela trilha sonora executada com instrumentos de corda. É sempre instigante ver a violência, o horror, a crueldade, brotarem do belo. O filme promete uma coisa e acaba levando a várias outras, totalmente inesperadas. Mas não é isso que é bacana em uma obra de arte? Ainda mais quando vem tão ricamente embalado. E nem poderia ser diferente, posto que seu roteirista e diretor é estilista... Adorei o programa da tarde. Quando o filme acabou fiquei esperando todos os créditos subirem, como gosto de fazer quando um filme me agrada bastante. E vi que entre as músicas executadas na trilha sonora estava Baudelaire, de Serge Gainsbourg, compositor que adoro. Procurei a música no youtube e não consigo me lembrar que ela tenha tocado em nenhuma cena do filme... Coincidentemente eu havia comprado, antes de entrar para assistir ao filme, o livro Spleen de Paris, de Charles Baudelaire... Vai entender!
Na foto, a intrigante exposição de arte de Susan, a personagem de Amy Adams.