segunda-feira, 18 de setembro de 2017

PAIXÃO JUVENIL

Escrevi esse conto (?) em 1985, aos vinte e um anos de idade, visivelmente influenciado por Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector. Começa assim mesmo, com reticências:
... quando chega aqui em casa vai logo se jogando no sofá, tirando o tênis, as meias, e de cara pedindo pra ouvir aquele Frank Zappa que ele adora. No Bar do Parque vendem cigarro avulso e ele me trouxe dois enrolados num papel de carta onde tinha escrito uma poesia. Mas não era poesia dele, era uma letra de música. Comprei numa banca do centro um magazine dos anos cinquenta, com fotografias de artistas de cinema e, imagine só, embalei em papel de seda lilás e lhe dei de presente. Quando, nas primeiras noites do verão, anda pela rua sem ter propriamente onde ir, colhe um jasmim perfumado e traz pra casa pra eu por no vaso. No meu quarto. Ele me trouxe a Maçã no Escuro e eu lhe falei da Paixão Segundo GH. Me conta histórias da sua vida que sempre acabo achando infantis. Mas é tão lindo, tão leve, tão assim nem sei dizer como, que me apaixona. O Cine Bristol deveria incluir na sua programação um ciclo dos filmes de Darlene Glória. A divina prostituta, a grande atriz do cinema brasileiro que hoje é religiosa. A gente vai, eu e ele, assistir a tudo que é filme que passam aqui. Até porque queremos fazer cinema. Escrever, dirigir, atuar. Não há mais quem aguente esse bairro boêmio onde moro nos fins de semana. Acabo tendo que vir pra casa, os bares estão lotados. Além disso não me interessam, são feios e mal frequentados. Escrevo no ritmo do jazz de Louis Armstrong. Literalmente, pois vou marcando o r-i-t-m-o a cada nota do jazz nas teclas dessa Remington. Quando fala de suas ex-namoradas fica tão dengoso e choramingas como criança mimada, como gatinho rosnador, que quer ser afagado. Mas não quer ao menos dormir comigo. Só dormir, eu falei. No máximo se tocar, assim tipo fazer carinho. Não, não tenho essa tua vontade, ele disse. Então assim: Ele chega, tira o tênis, as meias, a gente conversa, bebe gim, eu acabo me cansando, mas é com incontida ansiedade que o espero voltar.
Na foto, a capa do LP de Frank Zappa referido no texto.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

BOLERO

O ano era 1989 e eu ainda morava em Porto Alegre. Em uma das minhas idas a São Paulo para visitar amigos e conferir espetáculos de teatro, comprei uma edição da Revista AZ, de Joyce Pascowich, que trazia a cantora Rosemary na capa. Dentro, o editorial abolerado e o texto de Caio Fernando Abreu que passou a me inspirar em quase tudo o que fazia: Bolero. Partindo de uma comparação entre a "roupa" e a "música" bolero, Caio embarca em lembranças da infância que terminam por definir o "feeling" bolero, por assim dizer. Mais ainda: O universo bolero. Minha identificação com o conteúdo daquele texto foi tamanha que cheguei a escrever e dirigir uma peça de teatro que chamei de A Mulher Só - Uma Comédia Bolero. Lembro de uma vez em que estava dando uma entrevista na TVE de Porto Alegre sobre a peça e disse que gostava de ficar em casa aos sábados à noite ouvindo Dalva de Oliveira e Dolores Duran. Quando voltei à sala de maquiagem para pegar meus pertences o maquiador, bem mais velho do que eu, me disse: Você é jovem demais pra ficar ouvindo essas coisas, falando dessas coisas. E eu nem tinha trinta anos... Quando recebi o convite de Luís Arthur Nunes para participar da noite de lançamento do festival Caio Entre Nós, no Teatro São Pedro de Porto Alegre, que aconteceu na semana passada, não tive dúvida: Chegara a hora de interpretar o texto de Caio que guardei por tantos anos. Até o momento de entrar em cena eu estava um feixe de nervos. O coração parecia querer saltar pela boca. Todo o ar que me fosse possível respirar era insuficiente. Mas quando o foco no centro do palco se acendeu e fui entrando nele ao som do piano de Arthur de Faria que tocava os acordes iniciais de Sabor a Mí, tudo fluiu como devem fluir os boleros... E que eles nunca nos faltem! Essa imagem ficará na minha memória para sempre. Arquivada, arquetípica. (Para citar Caio Fernando Abreu). Uma pena Tânia Carvalho não estar presente. Eu teria dedicado minha cena a ela, que foi quem me apresentou ao universo dos boleros de Eydie Gormé e Trio Los Panchos quando eu ainda era praticamente menino... Volto para São Paulo me coçando de vontade de transformar esse bolero em um solo. Que os deuses do teatro me iluminem...
A foto que ilustra o post é de Flavio Wild, outro agradável reencontro que Caio Entre Nós me proporcionou.

sábado, 9 de setembro de 2017

CAIO ENTRE NÓS

De volta à cidade da minha juventude para homenagear o escritor da minha juventude... Estou em Porto Alegre para ensaios e apresentação de Caio Entre Nós, a noite de lançamento de um festival em homenagem a Caio Fernando Abreu. Entre reuniões e ensaios, um rápido giro pelo centro da cidade para visitar a exposição Queermuseu, no Santander Cultural. A mostra traz um vasto e interessante painel da diversidade na arte brasileira. De Alair Gomes a Volpi, passando por Cândido Portinari e Flavio de Carvalho, até Leonilson e Lygia Clark. Particularmente fiquei muito feliz de ver e rever os trabalhos de alguns artistas gaúchos de quem sou fã como Fernando Baril, Gilberto Perin, Mário Rönelt, Milton Kurtz, Rogério Nazari e Telmo Lanes. Os óleos sobre tela de Baril impressionam tanto pelo surrealismo que representam quanto pelas dimensões. Sua obra O Alterofilista, exposta ao lado do Retrato de Rodolfo Jozetti, de Cândido Portinari, propõe um rico contraste ao mesmo tempo em que revela a proximidade através das diferenças. Ideia que meio que perpassa toda a exposição. Saindo de lá, ainda deu tempo de subir até o rooftop da loja popular de departamentos Lebes, e tomar um café na La Basque com vista para o Rio Guaíba. Apesar da chuva que já iniciava, deu tempo de fazer algumas fotos bem bonitas. Fiquei imaginando o quão lindo deve ser a vista no entardecer de um dia ensolarado... Após intervalo de alguns dias, volto a escrever esse post. A noite de homenagem a Caio foi um grande sucesso. Graças à colaboração de amigos queridos e artistas talentosíssimos, foi possível levantar um espetáculo de duas horas com textos, músicas, leituras de cartas, depoimentos e performances inesquecíveis. À altura do homenageado. Viva Caio Fernando Abreu... Já tive também oportunidade de assistir, na Casa de Cultura Mario Quintana, ao ensaio de um espetáculo que está sendo montado por um grupo de amigos muito queridos, com os quais já trabalhei em diversas montagens teatrais realizadas no meu período porto-alegrense. É muito reconfortante saber que artistas seguem criando, imaginando, tornando sonhos realidade malgré todas as adversidades que enfrentamos. Evoé... No mais, sigo revendo lugares, amigos e familiares, descobrindo e redescobrindo a velha Porto Alegre da minha mocidade. Encerro com um verso de Mario Quintana que li na Casa de Cultura: "O que faz as coisas pararem no tempo é a saudade"... Bom setembro a todos!
Nas fotos, Marcos Breda e Julia Lemertz, os mestres de cerimônia da noite Caio Entre Nós, brincam no fosso do elevador antes de subir para o palco do Teatro São Pedro.

domingo, 27 de agosto de 2017

ORAÇÃO AO TEMPO

Outro dia fui assistir ao espetáculo de uma amiga e, depois de encerrada a função, ficamos conversando no saguão enquanto os demais integrantes iam saindo do teatro e ela me apresentava aos que eu ainda não conhecia. Lá pelas tantas chegou um jovem técnico de luz ou de som que integrava a montagem e, ao saber que eu fizera parte do elenco da Terça Insana, exclamou: Cara, eu ri muito com você quando era moleque! Puxa, pensei, mas foi ontem... Então me dei conta de que a gente vai vivendo a vida, um dia depois do outro, fazendo coisas diferentes aqui e ali, ora feliz, ora triste, alternando momentos de euforia e melancolia, e nem percebe que o tempo está passando, implacável. Até que, numa ocasião como essa, somos atropelados pela sua inexorável passagem. E súbito entendi: Uma coisa que para mim acontecera recentemente, já havia se transformado numa espécie de Sítio do Pica-pau Amarelo para a geração dele. Um Castelo Rá-tim-bum. Uma Vila Sésamo... A noite seguiu, dali fomos para um restaurante e os papos versaram sobre os mais diferentes assuntos. Mas aquilo ficou na minha cabeça, martelando. Até que, lá pelo fim da noitada, já quase chegando em casa, tomei fôlego e fiz uma oração ao tempo: "Agora que já passei dos cinquenta anos, tempo amigo, será que você poderia fazer a gentileza de passar um pouco mais devagar? Quando eu era jovem lembro de lhe pedir tanto para que você passasse depressa! Conceda-me agora o prazer de poder fruir a sua passagem num ritmo mais adequado ao pouco que me resta de você... Obrigado. De nada. Amém. E que assim seja". Adormeci ao som de Caetano Veloso: És um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho. Tempo, tempo, tempo, tempo...
Na foto, o gigantesco relógio do Musée d'Orsay, em Paris, marca a passagem do tempo através dos séculos.

sábado, 26 de agosto de 2017

POEMA ENCENADO

Primeiramente pensei dar a esse post o título de POEMA DANÇADO. Mas em seguida achei que seria redutor. Cão Sem Plumas, a mais recente criação da Companhia de Dança Deborah Colker, não é apenas dança. É teatro. Assim como Deborah não é apenas coreógrafa. É encenadora. Isso sem falar que, de lambuja, ainda nos traz um belíssimo filme de Claudio Assis. O resultado é espetacular. No sentido de espetáculo mesmo. Enche os olhos. Poesia pura sobre a cena. Teatro de imagens. A sensação que se tem é de que a plateia nem respira enquanto assiste à impressionante sucessão de imagens, ora duras e secas, ora belas de tirar o fôlego. Engraçado como a beleza pode surgir de onde menos se espera. Como o lírio que brota no lodo. Como o lodo que seca no corpo dos bailarinos e explode em pó sob a precisa e preciosa iluminação. Aliás, eles também não são apenas bailarinos. São atores, intérpretes sensíveis e plasmáveis que se transformam ora em grotescos caranguejos, ora em esguias garças. A bela e impactante trilha sonora conduz o espectador nessa interessante fusão de imagens projetadas com dança ao vivo. Como se os bailarinos entrassem nas imagens da tela para delas sair em seguida. O poema de João Cabral de Melo Neto, que inspirou a criação, está todo lá. Sem plumas, é certo. Mas carregado de emoção, plasticidade, lirismo e poesia. Fico até meio sem palavras para descrever o impacto visual e emocional que o espetáculo provoca. É ver para crer. Imperdível.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

RETRÔ

Dia desses estava ouvindo um disco de Elis Regina dos anos sessenta e chegou um amigo bem mais jovem, de vinte e poucos anos. Ao perceber a música que embalava o ambiente, o juvenil mancebo perguntou: É o novo CD da Maria Rita? Não, respondi. Não é novo e não é da Maria Rita. E fiquei pensando... Porque tudo o que foi feito nos anos sessenta parece extremamente moderno aos olhos e ouvidos atuais? Vide Os Mutantes, Brigitte Bardot, Serge Gainsbourg. Dá a impressão que a estética evolui em ciclos que, de tempos em tempos, se repetem. O que bombou artística ou esteticamente em uma década volta a acontecer algumas décadas depois. Só pode ser isso, refleti com meus botões enquanto passava um café para o jeune garçon visitante. Depois, dando uma olhada geral na casa, percebi que a minha estética é ligeiramente voltada para o passado. E que eu, por conseguinte, sou uma pessoa retrô. Livros, discos, vídeos. Quadros, retratos, eletrodomésticos. Móveis, objetos, utensílios. Um museu de grandes novidades, para citar Cazuza. O anti-aplicativo... A essa altura a TV já estava ligada no cômodo ao lado e Karol Conka cantava: Multitelar, multitelei... Fiquei lembrando dos meus amigos Les Étoilles, que abalaram Paris nos setenta, dos Dzi Croquettes, dos Secos & Molhados, da Rita Lee, de Bowie, do Asdrúbal Trouxe o Trombone, de Ciranda Cirandinha... Quando dei por mim já estava folheando um dos quinze volumes da coleção O Mundo da Criança, o Google da minha infância. E, antes que eu procurasse caneta e papel para escrever uma carta (antigo meio de comunicação pré-internet), decidi pegar o iPad e digitar esse post...
Na foto, eu em momento retrô inspirado pelo post.

domingo, 20 de agosto de 2017

PLENO AGOSTO

Tanto se fala do mês de agosto! Mal, em geral. Eu não tenho nada contra esse que, para mim, é um mês igual a todos os outros. E o agosto desse ano de 2017 está sendo especialmente bacana. Primeiro porque retomei minhas apresentações na Terça Insana. Estou, portanto, de volta à estrada. O que reúne duas das coisas que mais gosto de fazer na vida: Viajar e fazer teatro. E, como agora o ritmo de viagens é bem menos intenso do que nos áureos tempos, sobra espaço para todas as outras atividades... Segundo porque retomei também a minha rotina diária de exercícios físicos, agora praticados não mais no chiquérrimo Renaissance Spa & Fitness, mas na simpática & popular Smart Fit da Rua Augusta. Entrei o mês de agosto firmemente empenhado em recuperar a forma perdida e, além do treino diário, estou cuidando da alimentação e bebendo beeem menos do que andava bebendo nos últimos tempos. Drinks agora só no fim de semana. E moderadamente... Tenho também assistido a muitas coisas legais. Uma delas foi a estreia da peça A Visita da Velha Senhora, de Friederich Dürrenmatt, no Teatro Popular do Sesi, protagonizada por Denise Fraga em atuação notável e digna de prêmio. A competente direção é assinada por Luiz Villaça, marido da atriz. E o grande elenco que a acompanha faz jus a essa montagem inspirada e inspiradora, para dizer o mínimo... Teve também O Filme da Minha Vida, de Selton Mello, que mereceu post especial aqui no blog. E uma grata surpresa: O filme Corpo Elétrico, de Marcelo Caetano, que aborda o dia a dia de pessoas comuns que, entre outras coisas, são gays ou não. Trabalho, sexo, relações afetivas e de amizade são mostrados como são. E não da maneira geralmente edulcorada pelas produções cinematográficas. O protagonista Elias é vivido pelo jovem ator Kelner Macedo, outra grata surpresa revelada pela película. Sua interpretação carismática e natural conduz o espectador com interesse e curiosidade durante todo o filme... Ah! Já ia esquecendo: Vi também a peça Whisky e Hambúrguer, escrita e dirigida por Mario Bortolotto, que divide a cena com Patrícia Vilela. O texto é bom, Patrícia é excelente atriz e mais não digo... Para finalizar, hoje, nesse domingo frio & chuvoso, assisti em casa mesmo, em DVD, ao interessantíssimo documentário Gatos, que acompanha a fascinante vida dos gatos de rua da cidade de Stambul. Qualquer pessoa apaixonada por gatos como eu fica enlouquecida assistindo. Mas desconfio que mesmo os que não gostam desses adoráveis animais serão facilmente fisgados... E vamos em frente, que ainda tem muito agosto para ser vivido!
Nas fotos, Denise Fraga e Tuca Andrada em cena de A Visita da Velha Senhora, Kelner Macedo em Corpo Elétrico e Patrícia e Mario em Whisky & Hambúrguer.