domingo, 10 de agosto de 2014

SENTIMENTO ILHADO

Retomando antigos discos de vinil, de há muito guardados no armário, escuto coisas que vem totalmente ao encontro do que sinto, que creio, que vivo. Arranjos de cordas que calam fundo no peito, torcem, dóem, friccionam. Quando eu não te vejo eu perco o rumo, canta La Ro Ro. Quando a gente tenta de toda maneira dele se guardar - geme Fagner - ele volta a incomodar. Estava lá, guardado no fundo do armário do peito, da memória do coração. Volta com tudo, feito furacão. Morto e amordaçado. Gal previne: É preciso estar atento e forte. Palavras, calas, nada quis. Estou tão infeliz. Recorro a tudo o que posso, do aço dos meus olhos ao fel das minhas palavras. Ne me quittes pas, implora Maysa em bom francês. Sirvo mais vinho enquanto Cazuza é feliz em Ipanema e enche a cara no Leblon. Eu ando tão down... Na porta, lentas luzes de neon. Aliterações contidas na canção. Figuras de linguagem. Quero ficar no teu corpo feito tatuagem. Elis não grava mais. Dommage... Há interatividade em ouvir LPs. Não se pode ficar jogado no sofá esperando que o aparelho faça tudo. É preciso levantar para virar o disco, trocá-lo, escolher outro álbum para ouvir na sequência. Percebo agora que a vida sem riscos e chiados é bastante sem graça... E que só uma palavra me devora: Aquela que meu coração não diz.
Nas fotos, a velha Billie na nova vitrola e a capa de A Cena Muda, de Bethânia.

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