terça-feira, 31 de dezembro de 2024

PARA HAVER AMOR

Último dia do ano de 2024. Mais um que passou voando. Que bom que ainda estou aqui. Que bom que aindo sinto vontade de estar por aqui e fazer coisas. Acordei muito cedo, antes das seis. Minha gatinha Lina tem me chamado cada dia mais cedo. Dei comida para ela, fiz carinho, brincamos pela casa. Weidy viajou para o interior, onde vai trabalhar em uma festa de Ano Novo em um resort. Comprei rosas brancas, arrumei-as em um vaso sobre a toalha branca de tricô redondo que a minha mãe fez. Cozinhei lentilhas para comer logo mais à noite. Fui fazer um passeio de bicicleta no parque do Ibirapuera. Tão bom! Sol, uma brisa amena, nada a ver com aquele calorão dos últimos verões. Depois passei na casa do meu amigo Guto Lacaz para desejar feliz ano novo, mas ele não estava. Mandei um e-mail - ele só se comunica assim - contando e ele respondeu: "Agradeço sua visita, pena que não agendou com minha secretária rsrsrs. E me mandou a arte linda que ele fez para o ano novo... Agora no CD player toca Baby Consuelo: Para Haver Amor Entre os Homens. Adoro essa música. Alegre, pulsante, animada e diz coisas bonitas como "dê de beber a quem tem sede, dê de comer a quem tem fome, esses são os dois mandamentos para haver amor entre os homens". E segue com "eu acho que você se esqueceu, às vezes dentro de um pobre se esconde Deus"... Quando voltava do passeio de bicicleta parei no Frevinho da rua Oscar Freire para tomar o último chopp do ano. Quando fui pagar o garçon me perguntou: Não vai querer mais um? E eu respondi: Não posso, estou dirigindo a bike rsrsrs... Desejo dias cheios de coisas boas para fazer, cheios de vontade de viver, de ajudar os outros, de fazer coisas que de alguma maneira possam melhorar a vida de quem as faz e de quem cerca quem as faz. Não apenas para mim, desejo todas essas coisas a todos os que me seguem, me leem, me comentam, me amam... E mais: Saúde, amor, viagens, alegrias, comemorações, champanhe, arte, cinema, teatro, literatura, shows, descobertas, amanheceres e entardeceres de tirar o fôlego e, se não for pedir muito, beijos apaixonados... Feliz Ano Novo de 2025 a todos! Nas fotos, Lina espera o ano novo sobre a toalha feita por minha mãe e a linda arte de Guto Lacaz.

sábado, 28 de dezembro de 2024

HONDO PENAR

Si tienes un hondo penar piensa en mi, canta Marisa Paredes no filme De Salto Alto, de Almodóvar. Ou melhor, dubla a voz de outra diva, Luz Casal. Mas ela se entrega tanto à canção e à dor da personagem que é como se fosse a própria a cantar para uma plateia lotada enquanto a filha a assiste pelo pequeno televisor de uma cela na penitenciária. Mais Almodóvar, impossível. E ela segue dublando: Piensa en mi cuando sufras, cuando llores tambiém piensa en mi. Pois tenho agora uma tristeza profunda - un hondo penar - e sofro e choro quando penso em Marisa Paredes, a grande dama do cinema espanhol que nos deixou recentemente. Lembro de cada frame desta cena de Tacones Lejanos, cada detalhe do figurino, os longos brincos de brilhantes, a lágrima que cai dramaticamente no chão do palco; assim como lembro da máquina de escrever elétrica que ela digitava freneticamente em La Flor de Mi Secreto e de sua fala, em resposta à editora que dizia ser loucura ela querer mudar de estilo da noite para o dia depois de vinte anos escrevendo novelas de amor: "el mundo entero puede cambiar de la noche a la mañana"... O que dizer da Irmã Esterco de Entre Tinieblas, que se automutilava viajando de LSD? E de Todo Sobre Mi Madre e A Pele Que Habito? São os filmes que me vem agora à lembrança. Uma estrela dessa grandeza parece não ser mortal, não ter uma vida comum como a das outras pessoas e, portanto, parece que não vai morrer. Não tem como não ficar triste, não ter ganas de llorar, como diz a canção, ao pensar que não irei assistir a mais nenhum lançamento cinematográfico com Marisa Paredes no elenco. O bom é que o cinema registra essas grandes atuações, ele as imortaliza. Diferentemente do teatro, uma arte que quem viu, viu; quem não viu, não verá. A gente pode se consolar revendo as atuações inesquecíveis dessa deusa das telas e palcos. Os filmes de Almodóvar, por exemplo, estão todos na Netflix. E, como canta o rei Roberto Carlos em Cavalgada, lembrar que "estrelas mudam de lugar, chegam mais perto só pra ver; e ainda brilham de manhã depois do nosso adormecer"... Na foto, La Paredes em cena de Tacones Lejanos, de Almodóvar.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

MISSIVAS

Dezembro veio intenso - como em quase todos os anos - e cheio de surpresas, descobertas, reencontros e o melhor, me trouxe várias pessoas que não sei como eu ainda não conhecia. É tão bom conhecer pessoas! Que bom que, mesmo depois de tantos anos, isso continue acontecendo. Nada mal para um mês que ainda não acabou... Entrei o último mês do ano ainda em cena com minha peça Caio em Revista. Foram as três primeiras terças-feiras de dezembro mais encantadoras dos últimos anos. Também entrei o mês lendo Cartas Fora do Armário, do querido Fred Itioka, que reúne missivas escritas por filhos gays para seus pais. Isso me fez lembrar da única carta que meu pai escreveu para mim, quando eu morava em Paris. Na verdade nem chega a ser uma carta, é um bilhete um pouquinho maior. Após subir e descer a escada revirando armários consegui encontrá-la. O que mais me fez feliz ao reler foi o começo, onde ele escreve "Roberto, querido filho", e o final, quando se despede dizendo "um abraço com saudade do pai Valpides", com aquela sua caligrafia inesquecível... A leitura me trouxe saudade do tempo em que a gente escrevia cartas em geral, não só para os pais, mas para amigos também. E me fez constatar que hoje, com o desenvolvimento da tecnologia, a comunicação é muito melhor, mais prática, rápida e acessível. A gente morria de saudades das pessoas quando só tinha as lentas missivas para ter notícias delas... Assisti ao espetáculo O Vazio na Mala, com texto de Nanna de Castro e direção de Kiko Marques, no qual Noemi Marinho dá um show de interpretação e leva o público às lágrimas. A peça já começa com a sua personagem escrevendo uma carta - olha as cartas aí novamente - numa antiga máquina de escrever. Eu sou apaixonado desde criança por máquinas de escrever, cresci (não muito) escrevendo em uma portátil que meu pai tinha em seu escritório, como já contei aqui no blog. Hoje escrevo à máquina em cena no meu solo Caio em Revista, quando faço a colunista Nadja de Lemos. Voltando à peça de Noemi (estou prolixo), é sempre um prazer assistir às performances irretocáveis desta grande dama do nosso teatro. Saí bastante tocado do teatro Paulo Eiró... Fui ao cinema assistir ao filme Queer, de Luca Guadagnino, com incontida curiosidade provocada pela farta divulgação que alardeava as cenas tórridas de sexo entre o James Bond Daniel Craig e o jovem ator Drew Starkey. Ledo engano, achei o filme chato como o outro desse diretor a que assisti (Me Chame Pelo Seu Nome) e apenas duas ceninhas de sexo que não chocariam nem Damares. Vale por Daniel Craig em si: Ele arrasa! Mas confesso que dei uns cochilos... Recebi amigos na noite de Natal, como há anos não fazia, e me senti muito feliz em ver a casa cheia novamente. Voltou a chover muito em São Paulo, como em todos os verões; perdemos Marisa Paredes, a grande estrela dos filmes de Almodóvar e, hoje pela manhã, perdemos também Ney Latorraca, ídolo de toda uma geração de atores entre os quais me incluo. Impossível esquecer as performances dele e de Nanini na peça O Mistério de Irma Vap, assim como seus personagens Mederix, Barbosa e Vlad na televisão... Dezembro teve lindas noites de lua cheia e céu estrelado como há muito eu não via. Quando chove bastante o ar da Pauliceia fica mais limpo, dissipa-se a poluição e podemos observar encantados a esses fenômenos naturais. Paro por aqui. Matei a vontade de escrever uma missiva... Na foto, minha máquina de escrever no cenário de Caio em Revista, o cartaz de Queer, eu com Noemi Marinho e o divo Ney Latorraca.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

COMO SER TRISTE

Há uma nova "trend"nas redes sociais. Você posta a frase: Como vou ser triste se em 2024 eu... e na sequência vem uma relação de todas as coisas boas, maravilhosas, sensacionais, incríveis que as pessoas fizeram ao longo do ano: Viagens para lugares paradisíacos, plateias lotadas, sets de filmagem e de gravação de novelas, premiações nas quais foram vencedores ou indicados, jantares em restaurantes estrelados, enfim, tudo que possa matar de inveja os seguidores! Acho irritante como todas as tendências (vamos falar português!) que rolam na internet. Mas, por outro lado, se não for apenas para se exibir e acariciar os egos, tem até um lado bonitinho, que é um certo otimismo em meio a todas as barbaridades que estamos vivendo... Sim, todos temos motivos para ser tristes, cada vez mais. Mas esses motivos são tão noticiados o tempo todo que a gente acaba esquecendo que também tem motivos para ser feliz e agradecer. Sobretudo nesta época do ano, na qual ciclos se encerram e esperanças se renovam com expectativas de melhora para o ano vindouro. (Adorei ano vindouro, acho que é a primeira vez que escrevo isso!). Então, de carona na trend do momento, lá vai: Como vou ser triste se em 2024 eu finalmente consegui estrear meu solo Caio em Revista? Um projeto em que venho trabalhando desde 2017 e que agora é uma realidade, um espetáculo estreado, que já cumpriu duas temporadas e que me faz muito, muito feliz a cada apresentação. Tenho enorme satisfação em mostrar para as pessoas essa faceta do escritor Caio Fernando Abreu que apenas os amigos conheciam. Esse Caio leve, bem humorado, solar e muito divertido que não aparece na sua literatura, sempre densa, grave, angustiada. Seus romances e contos alcançaram fama póstuma via internet, mas esses textos que enceno, raridades restritas a colecionadores das revistas para as quais ele colaborou, permanecem inéditos. Pois minha maior realização com esse trabalho é traze-los à luz. E as pessoas que assistem saem muito felizes também. Tenho recebido retornos que me enchem de alegria. Então, volto à pergunta inicial: Como vou ser triste? Sei que meu trabalho é de formiguinha, é aos poucos, de porção em porção, o que posso carregar. Mas pretendo seguir em frente com ele até quando eu puder. E enquanto tiver gente disposta a assistir, que teatro a gente não faz sozinho, é preciso que haja a troca com o espectador. Como vou ser triste se tenho amigos que entraram nessa comigo e me ajudaram a transformar esse sonho em realidade? Como vou ser triste se hoje meu blog completa 15 anos de existência? São quinze anos dividindo vivências, emoções, experiências, leituras, filmes, espetáculos. Acho que posso me considerar um produtor de conteúdo, para usar uma outra expressão em voga na internet rsrsrs... É isso, não vou esfregar nenhuma ostentação na cara de quem me segue ou me lê. Só aproveitei a tendência do momento para dividir uma felicidade bem real... Agradeço a todos que me seguem e me leem e aproveito para desejar que tenham muitos motivos para não serem tristes também. Grande beijo e muito obrigado! Na foto, feita pelo Weidy, eu em cena de Caio em Revista no Mi Teatro.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

DEZEMBRO CHEGOU

Parece mentira que o mês de dezembro já chegou! Espero por ele o ano inteiro e, quando me dou conta, ele chegou assim, de sopetão. Depois de consultas ao ortopedista e vários exames fui diagnosticado com condropatia patelar no joelho direito. O que tem me impedido de fazer os exercícios aeróbicos, que são os meus preferidos do treino. É a idade chegando! Aliás, chamar o cárdio de aeróbico também é prova de idade avançada. Pelo menos eu disse treino e não malhação, o que seria uma outra prova. Confesso que tem sido um pouco difícil me acostumar com a ideia de que a idade começa a me apresentar limitações físicas. Sempre fui muito corporal, sempre fiz exercícios, atividades físicas, esportes. O próprio teatro, minha profissão, sempre me exigiu fisicamente. Perceber de repente que agora tenho dores que me impedem de fazer o que estive acostumado a fazer por uma vida inteira não está sendo fácil. Tenho feito sessões de fisioterapia e acupuntura três vezes por semana. Tenho me cansado com mais frequência, durmo e acordo cada vez mais cedo. O estranho é que por dentro ainda tenho a motivação da juventude. Não me sinto um senhor de sessenta e um anos. Me sinto, sei lá, um garoto de trinta. Sim, hoje em dia um homem de trinta é um garoto. Tenho tomado um suplemento de colágeno e ácido hialurônico para auxiliar na manutenção das funções articulares. E sigo em frente... O bom é que minha peça Caio em Revista ainda está em cartaz - mais três semanas no Mi Teatro - e encerro a temporada no dia 17 de dezembro. O que também é bom é que tenho saído, encontrado amigos, assistido a espetáculos, conhecido pessoas, enfim, me distraído. Fiquei encantado com o espetáculo A Última Entrevista de Marilia Gabriela, no qual ela e o filho Theodoro interpretam a si mesmos em um jogo cênico de grande teatralidade e linguagem provocadora. O que poderia ser uma DR constrangedora de mãe e filho surge como um corajoso, divertido e emocionante depoimento conduzido habilmente pela direção inspirada de Bruno Guida e pelo texto inteligentemente urdido por Michelle Ferreira. Com humor, autoderrisão e inteligência mãe e filho dão um show com suas performances que divertem e emocionam na medida certa. Uma surpresa agradabilíssima num ano em que gostei muito pouco das coisas a que assisti. Sem falar que fui acompahado da minha amiga Ilana Kaplan e pudemos aproveitar para colocar a conversa (melhor dizendo, as conversas) em dia. Ontem comecei a montar a decoração natalina aqui em casa. Fiquei com preguiça e parei na metade para descansar. Acabou ficando para hoje, quando também tive preguiça e deixei para amanhã... Enfim, logo, logo será Natal, minha decoração estará pronta e aproveito para desejar um bom mês de dezembro e um bom Natal a todos! A gente vai se falando por aqui... Na foto, Gabi e Théo agradecem os calorosos e merecidos aplausos.