quarta-feira, 29 de outubro de 2014

RESSACA

Acordou passava do meio-dia. O calor de quarenta graus fazia a cidade derreter. Porto Alegre sempre foi um forno no verão, pensou, a cabeça pesada de ressaca. No videocassete o filme de Jim Jarmusch, Stranger Than Paradise. (Não esquecer de rebobinar a fita antes de devolver para a locadora). Será que a Vespa está na garagem? Por Deus, não lembrava de na-da. Sim, constatou depois de ver pela janela, estava lá, estacionada na vaga. Tudo correra bem... Ou, pelo menos, quase tudo. Ou quase bem... Ocidente lotado, incontáveis gin-tônicas, a Gorda vestida como a Madonna, Paulo Vicente de maiô e estola de pele, procura-se Suzan desesperadamente! Aos poucos começava a lembrar: A festa na casa da Martinha! Tinha tomado um hipofagin antes daqueles uísques todos... Talking Heads, Laurie Anderson, The Cure, o pó mocosado na folhagem da portaria! Será que ainda está? Tinha certeza que entre uma aula no prédio antigo do DAD e o ensaio na cúpula da Engenharia guardara lá... Aff! Ressaca assim só depois daquela noite no Esperança, o bar do Java na Fernandes Vieira. Ou seria na Felipe? Que depois de uma rodada de beijos foram todos esticar na casa do Leandro. Quem tinha ido, mesmo? Não importa. O Leandro era namorado do seu melhor amigo e pegou super mal. Uma saia justa de couro. Sem forro... Restos de gel purpurinado grudavam o cabelo na nuca. Olhando no espelho pensou: Ligo pro Walter assim que voltar ao normal. Preciso passar hoje mesmo no Scalp pra dar um jeito nesse cabelo. Entre a aula de dança na Choreo e o show do Mareu. Onde é que guardara o retrato em monóculo que a Rochelle fez dentro do caixão do Beijo Ardente? A década inteira passava na sua cabeça: Mil novecentos e oitenta, oitenta e um, oitenta e dois, oitenta e três... Quatro , cinco, seis, sete... Em que ano a Gorda de Madonna? As festas da Martinha, quando foram os Talking Heads? A Vespa na garagem, os ensaios do Tear, o Esperança, a video-locadora, o Leandro... O Ocidente a década inteira, do início ao fim, isso era certo. Meu Deus, que ressaca! Ressaca de uma década. Depois Cazuza morreu, ele foi morar em Paris, os noventa foram chegando e, de repente, tudo já era passado... Nunca mais quatre-vingt!
Na foto, minha tentativa de digitalizar o monóculo de Rochelle Costi.

3 comentários:

  1. Esse texto nos teletransporta para a época, mesmo sem conhecer, para o momento.
    Bacana.

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  2. Em várias, Sergio Lulkin! E em muitas outras mais...

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