
GORDA
Ainda estou emocionado pelo espetáculo a que assisti ontem à noite: Gorda, de Neil Labute, com Fabiana Carla, Michel Bercovitch, Flavia Rubim e Mouhamed Harfouch. Eu já sabia que Labute é um excelente dramaturgo, que suas peças não são, digamos, facilmente digeríveis e que nos tocam profundamente, pois já assistira à montagem de Antonio Fagundes para seu texto Restos. Mas essa Gorda é ainda mais surpreendente. Primeiro porque a protagonista, Fabiana Carla, conhecida da televisão por uma atuação exagerada, bem característica dos programas de humor televisivos em que trabalha, nos mostra uma Helena humana, palpável, real. Sua interpretação é contida, delicada, realista, de uma verossimilhança e de um desnudamento que impressionam. Sua entrega ao personagem é total. Segundo por Michel Bercovitch, um dos melhores atores a que já assisti representar. E terceiro porque a peça cutuca na ferida exposta que é o preconceito contra as diferenças, sejam elas quais forem. Aqui, por acaso, o alvo é uma mulher considerada acima do peso pelo padrão socialmente estabelecido como “normal”. Mas poderia ser uma negra, um gay, ou qualquer outro discriminado pela ditadura das aparências. Por incrível que pareça, tudo isso é mostrado com muito humor. Ri-se bastante ao longo do espetáculo, para, no fim, ficar-se com um nó na garganta. Duvido que alguém consiga sair do teatro sem ter sido tocado. Profundamente ou não. Aliás, a cena final é uma das mais belas dos últimos tempos. Antológica. Digna de constar nos anais do teatro brasileiro. E não tem nenhum grande efeito ou pirotecnia. Só é assim porque conta com o enorme talento dos dois protagonistas. Palmas para Fabiana Carla e Michel Bercovitch. E, claro, para Mouhamed e Flavia que encarnam, com crueldade e humor, os antagonistas preconceituosos.
Ah! Corram, porque fica só até dez de julho.