sexta-feira, 27 de março de 2026

SONHOS QUE VIRÃO

Faz tempo que eu não assistia a uma peça de teatro de que gostasse tanto quanto gostei de Hamlet, Sonhos Que Virão. Por uma série de motivos. Primeiro, por ser uma encenação de um texto clássico, coisa rara de se assistir por aqui. Segundo, por ser uma boa encenação, coisa ainda mais rara. Terceiro e não último, por ser uma direção competente, inspirada e que não se sobrepõe à obra, coisa mais do que rara, raríssima… O espetáculo é impactante, prende a atenção, tem efeitos cênicos de encher os olhos, mas tudo na medida - nada é mais importante do que a história que está sendo contada. Gabriel Leone encanta com seu Hamlet, potente, frágil, louco, racional, possível e contemporâneo. O diretor Rafael Gomes mostra que conhece não apenas dramaturgia, mas carpintaria teatral. Faz belas imagens brotarem do vazio, cria beleza no caos. A Ofélia de Samya Pascotto mergulha no azul deixando a plateia em suspensão. Em meio aos escombros do velho Cine Copan, há algo de podre no reino da Dinamarca (soa familiar, não por coincidência). Mas há também vigor, juventude e energia permeando os destroços. E os belos figurinos de Alexandre Herchcovich. Fiquei lembrando do Théâtre des Buffes du Nord, também em escombros, onde assisti à montagem de Peter Brook de A Tempestade, de Shakespeare, nos anos noventa... Fiquei feliz de ver o Cine Copan lotado. Mais feliz ainda de saber que os ingressos estão esgotados até o fim da temporada. E muito feliz de ver o público aplaudir com entusiasmo um clássico do teatro universal. Dentro de um clássico da arquitetura local. A vida é mesmo cheia de som e fúria. Um museu de grandes novidades, como cantou Cazuza. No bom sentido. No sentido de olhar para o passado para se entender o presente. Para terminar citando o próprio Hamlet (Shakespeare), "tratem bem os atores, eles são o resumo e a crônica dos tempos". O resto é só dar um Google… Na foto, o Hamlet de Gabriel Leone vestido por Herchcovich.

2 comentários:

  1. Obá! Amo os clássicos, amo mais ainda quando se respeita a história e não se tenta reinventar a roda, como diria uma amiga "Acho digno".

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