quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

TEAR DO TEMPO

Terminei emocionado a leitura do livro No Tear da História - Maria Helena Lopes, de Juliana Wolkmer. A obra me foi presenteada pela autora após ela assistir ao meu espetáculo Caio em Revista no Estúdio Stravaganza, em novembro do ano passado, em Porto Alegre. Como a própria Juliana diz na dedicatória, é um pouco da minha história também. Mas acrescida de muitas outras que eu desconhecia. E de outras tantas que eu ouvira falar de forma nebulosa e que ela agora traz à luz com precisão de antropóloga… Maria Helena moldou minha visão sobre a arte, o teatro e, porque não dizer, sobre a vida e o mundo. Sou eternamente grato por ter tido a sorte, a benção de ter sido aluno da Lena nas disciplinas de improvisação na escola de teatro e seu ator no Grupo Tear. Vivi com ela um longo processo de criação que resultou em dois lindos trabalhos: O experimento cênico Na Piscina e o espetáculo Império da Cobiça, que teve estreia nacional em São Paulo e no Rio de Janeiro, para só depois cumprir temporadas em Porto Alegre nos teatros Renascença e São Pedro. Com ela aprendi que ouvidos e olhos atentos são as ferramentas principais para quem se debruça sobre a atividade criativa. Somados à sensibilidade, evidentemente... O livro de Juliana Wolkmer é um pequeno tesouro de valor inestimável. A belíssima edição, em formato coffee table book, é fartamente ilustrada com fotos e documentos da vida, da carreira e dos espetáculos realizados por Maria Helena; traz legendas e pequenos textos que descrevem as imagens e que, somados aos capítulos propriamente ditos, proporcionam a agradável sensação de que se está a ler uma revista de arte. Ponto para o editor e muitos, muitos pontos para Juliana! Essa jovem artista que, mesmo sem sequer ter sido aluna de Maria Helena, consegue recriar sua trajetória artística e revela genuíno interesse de pesquisadora e preservadora do patrimônio histórico e cultural de Porto Alegre. Voltei da minha última temporada na cidade com uma pilha de livros que venho saboreando aos poucos, com a devida atenção que todos eles merecem. Não apenas seus artistas e intelectuais, mas a Capital dos Pampas, em si, também está de parabéns! Quando a Lena foi para Barcelona e terminamos as apresentações do Império da Cobiça eu me dediquei à minha carreira de diretor, que despontava com o sucesso da minha montagem de Lisístrata; depois fui para Paris onde, como ela, estudei com Monika Paigneux; na volta ao Brasil fui para o Rio de Janeiro trabalhar com Luis Artur Nunes e logo depois já me mudei para São Paulo. Não acompanhei, portanto, a fase final do Tear. Não assisti aos últimos espetáculos. Nem sequer o solo de Sergio Lulkin, que eu tanto queria (e confesso aqui que nutro a secreta esperança de que um dia ele volte a fazê-lo para que eu finalmente o assista). Mas guardo comigo uma lembrança única: Um dia, quando já morava aqui em São Paulo há um tempo - não me lembro o ano - encontrei com a Lena pertinho da minha casa. Eu descia a Rua Augusta e ela subia. Quando nos vimos ela abriu um enorme sorriso e nos abraçamos demoradamente. Rimos muito, mas não me lembro do que falamos nem do que ela estava fazendo por aqui. Ficou essa memória. Foi a última vez que estive com ela. E acho ótimo que tenha sido aqui, a uma quadra da minha casa, o que torna a presença dela muito mais próxima de mim do que nas memórias da minha juventude… Obrigado, Juliana Wolkmer, pelo seu belo, sensível e relevante trabalho; pelo seu olhar atento e detalhista sobre a história do teatro gaúcho; e pelo merecido reconhecimento da importância de Maria Helena Lopes. Evoé! Nas fotos, a capa do livro, Juliana me presenteando e Lena brindando na entrega do Prêmio Eva Sopher.

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