sexta-feira, 22 de julho de 2011




ENIVREZ-VOUS...
Embriagai-vos, diz o título do post em francês. Esse é também o título do meu poema preferido de Charles Baudelaire, a quem eu lia freneticamente na minha juventude. Lembro que desde então já adorava viajar e, em uma ocasião, fui, de ônibus, até Ouro Preto, cidade histórica de Minas Gerais que sonhava conhecer. Chegando lá, me hospedei em uma pousada, na verdade uma casa de família cuja dona alugava quartos para turistas. Um menino que esperava em frente à rodoviária perguntou se eu já tinha onde ficar e, diante da minha negativa, me conduziu até essa casa-pousada. Fiquei encantado, pois tinha um piano na sala. Comecei a tocar e em seguida já havia juntado um animado grupo de estrangeiros. Quando um deles me disse que era francês, perguntei, animadíssimo, arranhando meu péssimo inglês, se ele conhecia Baudelaire. Ao que ele respondeu: Of cours, I studied Baudelaire in the school. Achei aquilo o máximo! Puxa, estudar Baudelaire na escola! Um dos meus ídolos, um poeta maldito! Anos depois é que me caiu a ficha: Seria o mesmo que perguntar a um brasileiro se ele conhece Machado de Assis, ou, sei lá, Jorge Amado! Santa ingenuidade. Mas, voltando ao Embriagai-vos do título, o poema diz mais ou menos o seguinte: É preciso estar sempre embriagado. De quê? Não importa. De vinho, de poesia ou de virtude, a escolha é sua. Para que não sintamos o terrível fardo do tempo, que pesa sobre os nossos ombros, é preciso que nos embriaguemos sempre. Concordo plenamente com o poeta. Não apenas no que diz respeito ao vinho, mas, sobretudo, no quesito vida. A vida só faz sentido se for vivida intensamente, ou seja, se for embriagante. Uma paixão embriaga. Um belo filme, um espetáculo ou uma obra de arte, embriagam. O nosso trabalho deve ser embriagante. Senão é tédio puro. Dias de sol e noites de lua. Uma praia deserta. Um gato que dorme silencioso e quente ao nosso lado. A lembrança do passado. A expectativa do futuro. A preparação de uma viagem. O reencontro com alguém a quem amamos e que não vemos há muito tempo. Os poetas tem esse incrível poder de dizer por todos. Se não por todos, pelos que se permitem compreendê-los. Rimbaud, Allen Ginsberg, Florbela Espanca, Mario Quintana, Cecília Meireles, Vinícius de Moraes, todos eram meus companheiros de juventude. Ah! E Pablo Neruda... Eu sempre procurei seguir a máxima do autor das Flores do Mal e me manter embriagado através dos anos. Como nem sempre a vida é assim tão arrebatadora, em determinadas fases eu levo a máxima ao pé da letra e encho a cara mesmo. Amy Winehouse deve ser uma que também tem essa interpretação do poema de Baudelaire... Mas embriagar-se é realmente necessário. De poesia ou do que for. De poesia e vinho, então, melhor ainda...


Na foto, Baudelaire pintado por Emile Deroy.

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