quarta-feira, 29 de maio de 2019

MAIORIDADE INSANA

Esse mês de maio marcou o início das comemorações dos dezoito anos da Terça Insana. Estamos em cartaz aos sábados, desde o início do mês, relembrando antigas criações e celebrando a longevidade do projeto/espetáculo. Quem diria que aquele pequeno show surgido em 2001, no minúsculo espaço do Next Cabaret, em pleno underground paulistano, cresceria tanto e chegaria onde chegou. Foram dois DVDs lançados, inúmeras turnês nacionais e apresentações em Portugal, para dizer o mínimo. Estou adorando remexer guardados em busca dos textos originais dos personagens, de seus figurinos e acessórios. Tudo me traz boas recordações e saudades... Pelo visto o público também estava com saudades dos nossos personagens, pois tem lotado as apresentações. O que já nos rendeu uma prorrogação da temporada, que seria até 15 de junho, para até o fim de julho. Grace e eu recebemos convidados que já fizeram parte dos diversos elencos e nos revezamos em personagens diferentes a cada sábado. Um pequeno trailler da loucura que era fazer um show inédito a cada semana... Tenho muito orgulho de ter feito parte da Terça Insana desde a sua criação. De ter contribuído para a abertura de espaço que ela promoveu, facilitando e incentivando a entrada de novos comediantes no mercado. Adoro a ideia de ter me tornado autor dos meus próprios textos e personagens, o que sempre foi fomentado pela Grace como um dos princípios do seu projeto. Assim como a busca por um humor reflexivo e não discriminatório. Ao retomar esses personagens que já estavam guardados há algum tempo, percebo que eles não envelhecem. Seus textos estão em constante atualização. São como cronistas do seu tempo: Sempre de olho nos fatos e hábitos do cotidiano... Muitos atores passaram pelos diversos elencos que já formaram a Terça Insana nesses dezoito anos. A maioria deles foi catapultada para a televisão, onde fazem grande sucesso. Não tive essa sorte, adoraria. Mas sigo na estrada! Quem sabe um dia?
Nas fotos, Grace et moi em quatro momentos insanos: Bastidores do Next Cabaret, dando um tapa na pantera com Maria Alice Vergueiro, na Festa do Mar em Rio Grande - cidade natal de Grace - e nos bastidores do Avenida Clube. Ô saudade!

quinta-feira, 16 de maio de 2019

TEMPORAL

Não tinha a menor ideia de que eu fosse um ser tão urbano. Até o dia em que me vi isolado do mundo em um pequeno chalé numa praia de pescadores... Bastou fechar o tempo no fim da tarde de domingo, desabar o maior temporal e cair a força para que eu me visse em apuros. Primeiro porque chequei todos os armários, gavetas e recantos da casa e não achei um único toco de vela. Segundo porque as baterias do iPad e do iPhone começavam a dar sinal de estarem no fim. E terceiro, mas não menos importante, porque o sinal de 3G e mesmo de telefonia desapareceram por completo. O que seria de mim quando a caixinha de som Bluetooth apagasse também? Meu rosto era o único ponto iluminado na casa inteira, pela luz da tela do iPad. Bebia as últimas taças de vinho da última garrafa. Quando as baterias restantes acabassem o que iria acontecer? Não tinha nenhuma resposta. Só uma agitação interna que começava a crescer e a dar sinais de que poderia se transformar em desespero... Depois de um tempo ouvindo música e olhando para o nada na escuridão, a chuva acalmou e resolvi sair até a frente do condomínio para dissipar a minha angústia e ver se o apagão era geral. Vamos estabelecer como sendo rive gauche o lado da rua que dá para o mar. E rive droite, o que dá para o continente. Pois a energia acabou justamente no meu lado: Rive droite. Do outro lado tudo estava iluminado. Atravessei a rua e entrei no primeiro restaurante que vi aberto. Nas mesas em volta da minha as pessoas conversavam normalmente, como se nada estivesse acontecendo. E, pensando bem, nada estava acontecendo daquele lado da rua. A chuva já acalmara e a energia elétrica nem sequer havia caído. Então me dei conta de que o perigo maior esteve o tempo todo dentro de mim. Do lado de fora, a vida seguia molhada, varrida pela ventania e mais ou menos iluminada... No dia seguinte fiquei sabendo que perto dali uma tragédia no mar tirara a vida de uma famosa modelo durante o temporal. Teria sido essa a razão da minha angústia? Essa resposta eu também não tinha. Então rezei...

segunda-feira, 13 de maio de 2019

MALA NOCHE

No final do ano de 1991 eu voltei para o Brasil, depois de um ano vivendo em Paris, e fui para o Rio de Janeiro trabalhar como assistente de direção de Luís Arthur Nunes. Foram dois espetáculos memoráveis: A Volta ao Lar, de Harold Pinter, e A Caravana da Ilusão, de Alcione Araujo. No final de 1992 eu já estava com uma vontade incontrolável de voltar a dirigir um espetáculo meu. E mais, uma vontade ainda maior de ser Almodóvar. Em Paris eu havia assistido a todos os filmes que o cineasta espanhol realizara até então. E voltei com uma necessidade urgente de experimentar em cena a estética Almodovariana... Foi quando me caiu às mãos o belo texto do meu mestre e amigo Ivo Bender, Sexta-feira das Paixões. Voltei correndo para Porto Alegre e pus a mão na massa. Ivo concordou de imediato com a minha versão abolerada e colorida do seu sombrio drama com pitadas de teatro do absurdo. Quatro mulheres vivem a noite de quinta para sexta-feira da paixão confinadas em uma casa que abriga moças desamparadas. O título, Mala Noche, sugerido pelo próprio Ivo Bender, foi tirado do bolero de mesmo nome que pontuava todas as mudanças de cena. Escalei para viver as quatro protagonistas Ida Celina, Ciça Reckziegel, Mirian Ribeiro e minha ídola Tania Carvalho. Tania chegou a fazer uma leitura, mas desistiu da empreitada por não achar-se capaz de decorar todo o papel. Chamei então Claudia Meneghetti e fechou-se o elenco. Toda a ambientação cênica, cenário e figurinos foram criados pelo genial Alziro Azevedo. A luz de Maurício Moura recortava detalhes e criava climas. A trilha, escolhida por mim, trazia canções românticas francesas e boleros de Eydie Gorme e Trio Los Panchos. (Que me foram apresentados por Tania Carvalho, uma especialista no estilo). As paixões do título foram todas exacerbadas, beirando o melodrama, revelando o humor no insólito das situações. As personagens, Maria Amparo, Amanda, Urânia e Tereza, todas à beira de um ataque de nervos. Vale destacar que a Amparo de Ida Celina foi um dos maiores presentes que o teatro me deu até hoje. Ida captou o tom da minha abordagem cênica desde a primeira leitura do texto. E deitou e rolou em cada ensaio e a cada apresentação... Meu professor Luiz Paulo Vasconcellos, que havia dirigido a montagem original, era, à época, crítico de teatro no jornal local Zero Hora. Luiz Paulo acabou com a minha montagem em uma crítica cujo título, bem no estilo bicha má, era "Drama de Ivo Bender Cai do Salto Alto". Nem ligay... Rsrsrs. Apesar de só termos feito uma temporada no Teatro Bruno Kiefer, de termos tido pouco público, de ter me deixado dívidas para pagar, Mala Noche me deu muitas alegrias e realizações. Tenho certeza que, de onde estão agora, Ivo, Alziro e Claudinha concordam comigo. Foi o último trabalho de Alziro Azevedo. Nunca vou esquecer a delícia que foi trabalhar com Claudia Meneghetti, suas tiradas antológicas, sua incrível facilidade para entrar e sair das mais diversas emoções. E o Ivo Bender, bem, o Ivo era o Ivo! Ya no estás más a mi lado, corazón, y en el alma sólo tengo soledad... Lá se vão vinte e seis anos.
Nas fotos, emoções à flor da pele pintadas a mão pela fotógrafa Irene Santos, eu querendo ser Almodóvar com o elenco no cenário da peça em foto de Zeca Felippi e na sala de ensaio com Ivo Bender fotografados por Ciça Reckziegel.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

TARSILA POPULAR

Que bom que o mês de maio chegou trazendo uma boa nova: Finalmente a fila para a exposição de Tarsila do Amaral no MASP deu uma aliviada e aproveitei para visitá-la. Isso porque era quarta-feira, por volta de duas horas da tarde. Quando saí, pelas quatro, a fila já estava novamente enorme. Como tem sido desde a abertura da exposição. Isso me deixa muito feliz. Que bom que as pessoas estão interessadas em arte. É no mínimo reconfortante... Mas, vamos à minha visita. Rever Tarsila é sempre enriquecedor. Eu já havia visto quase todas essas obras em uma mostra do Sesi no ano em que cheguei em São Paulo, 1996. Aliás, naquela ocasião estava também exposto o quadro A Lua, um dos meus preferidos que, se não me engano, foi vendido recentemente para o MOMA de Nova Iorque... Visitar uma exposição de Tarsila do Amaral é como receber uma notícia boa sobre o Brasil. O que tem sido raro. Nos últimos anos, diga-se de passagem. É perceber o quão universais podemos ser sem deixar de ser quem somos. É compreender a diversidade que nos formata como nação... Adoro Tarsila, sua obra, sua história, o fato dela ter ido estudar em Paris, de ter sido aluna de Fernand Léger. Adoro a maneira como ela incorpora os elementos da pintura modernista europeia no que intuitivamente já concebia como moderno. Sua antropofagia. Sua beleza, tão bem revelada por ela própria nos autorretratos... Lá estão os mega famosos Abaporu, Antropofagia, Operários e A Negra; os contundentes Trabalhadores, Segunda Classe e Operários; o singelo Manacá e o belíssimo Maternidade; e o impressionante e colorido Batizado de Macunaíma... Não dá para perder. A exposição Tarsila Popular fica no MASP até o dia 23 de junho. Corre!
Nas fotos, a festa das cores do Batizado de Macunaíma e a beleza de Maternidade.

sexta-feira, 26 de abril de 2019

56 OUTONOS

Camburi me recebe mais uma vez para o meu aniversário. Se faz ensolarada de dia e estrelada à noite, como a desejar boas vindas à minha nova idade: Aos meus cinquenta e seis outonos. Como faço aniversário em abril, gosto de contar meus anos em outonos... Mar bravio. Faixas de isolamento. Salva-vidas a postos. A cada placa sinalizando perigo, lembro Zizi Possi: Perigo é ter você perto dos olhos mas longe do coração. Muito feliz de estar aqui... Weidy veio comigo na véspera, mas já voltou pra São Paulo para trabalhar. De modo que agora estou apenas na companhia de Rosa, a gatinha do meu amigo Pedro, que mora aqui mas viajou e deixou-a sob meus cuidados. Quando não estou em casa, com ela, estou comigo. Uma das companhias de que mais gosto... O menino que fui insiste em permanecer comigo, por mais que o tempo passe. Nem sei se algum dia chegarei a ser adulto de fato. Mas gosto do que sinto, vivo, lembro e persisto. Um praticante de cross fit que conheci na praia me disse que já estamos vivendo cento e vinte anos. Se é assim, ainda nem cheguei na metade da minha vida. Quem sabe até lá eu amadureça... Recebi tantas mensagens me parabenizando pelo aniversário que me senti realmente querido. E bonito, também. Afinal, foram tantos elogios à minha forma física... Como costumo dizer, só eu sei a que custo... Aproveito para agradecer aqui. Obrigado a todos! Quanto a mim, sigo curtindo mais uns dias de praia. Meu aniversário, costumo comemorar uns dez dias no mínimo...
Na foto eu, bem pimpão, exibindo a forma física conquistada a duras penas.

terça-feira, 16 de abril de 2019

PARIS EM CHAMAS

Esse mês, mais exatamente no dia 23, vai fazer quatro anos que estive em Paris pela última vez. Para quem, como eu, ia regularmente desde 2007 isso significa tempo demais. Principalmente porque vivi na cidade no começo dos anos noventa e nutro por ela uma paixão imensurável. Mas, como eu dizia, faz quatro anos que estive lá pela última vez. Na ocasião, fui até a Notre-Dame, como sempre faço, rezei um pouco e comprei uma daquelas adoráveis velas que vem num copinho de plástico com a imagem de Nossa Senhora. (Não “nossa dama”, como traduziu um repórter da Globo ontem no jornal). Faço questão de dizer que comprei porque quando pego uma vela eu deixo uma contribuição em dinheiro. Ao contrário de várias pessoas que apenas colocam a vela na bolsa e saem... Pois ontem, quando fiquei sabendo do lamentável incêndio que destruía esse patrimônio da humanidade, eu já estava em chamas de tanta saudade de estar em Paris, justamente por estarmos em abril, mês do meu aniversário, e por eu ter ido passá-lo lá quatro anos atrás... Confesso que doeu. Me entristeceu muito. Não apenas o fato em si, mas a torrente de fotografias que passaram a ser postadas nas redes sociais. Não me refiro às fotos do incêndio, mas das pessoas em frente à catedral. Parece que o sentimento não é de pesar e sim: Vamos aproveitar que a Notre-Dame está pegando fogo e postar fotos mostrando que já estivemos lá? Perdoai-os, mãe, eles não sabem o que fazem. Sinto muito por Paris, pelos franceses, pela humanidade. Desejo que eles consigam sair logo dessa. Como já saíram de outras até bem piores. E me calo. Je vous salue, Marie...
Na foto, feita na última vez que estive em Paris, as lindas velas da Notre-Dame.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

A MULHER SÓ

Minha primeira direção depois de ter me formado em teatro na Universidade, A Mulher Só foi também minha primeira incursão na dramaturgia. Eu andava bastante envolvido pela ideia de usar a solidão como tema de um espetáculo. Aliás, para mim a solidão era o grande tema a ser abordado. Como ainda é, de certa forma. Só que nada do que me caía às mãos parecia dizer o que eu queria. Pelo menos não da maneira que eu queria. Foi então que, inspirado no teatro do absurdo que eu estudara recentemente (especialmente em Dias Felizes, de Becket) escrevi num rompante esse meu primeiro texto dramático. Depois, no processo de criação do espetáculo, fui escrevendo mais cenas e acrescentando-as ao todo, na medida em que se faziam necessárias. Escrevi tudo à mão, em um caderno que guardo comigo até hoje... Agora, quando paro para lembrar desse trabalho, me dou conta de que as minhas pretensões dramatúrgicas foram grandemente superadas pelo verdadeiro show performático que os atores Ciça Reckziegel e Paulo Vicente promoviam em cena. Paulo é dono de um histrionismo todo próprio, uma espécie de grife que imprime a todas as suas criações. E Ciça possui uma vasta gama de emoções que gentilmente empresta a seus personagens, indo do cômico ao trágico sem parecer fazer o menor esforço. Some-se a importantíssima colaboração de Marlene Goidanich na preparação vocal dos atores et voilà: O espetáculo ficou perfeito. Modéstia à parte... Em mais um ímpeto autoral, compus uma pequena canção para os personagens cantarem em cena. Essa música ganhou gravação com arranjo de Hique Gomes. Tenho muita saudade desse tempo em que, com uma ideia na cabeça e alguns talentos reunidos, a gente conseguia fazer arte... A cena era vazia, apenas o panejamento do palco e duas cadeiras às quais os personagens estavam metaforicamente amarrados. Marilourdes Franarin levantou a produção. Chico Machado foi responsável pela criação visual. A luz de Hermes Mancilha dava o tom da atmosfera, ora de sonho, ora de duro aprisionamento. Figurinos de Coca Serpa e coreografias da própria Ciça Reckziegel arrematavam o pacote. Estreamos no final de 1989, uma pré-estreia de dois dias na Sala Álvaro Moreira, para cumprir a primeira temporada de 1990 na mesma sala. De lá, fomos para uma segunda temporada no Teatro de Câmara (Alguma notícia dele?). Um espetáculo que muito me realizou como encenador, no qual tive a oportunidade de experimentar vários estilos: Do minimalismo à chanchada, do teatro-dança à colagem de esquetes. Tudo com o subtítulo de: A Comédia -Bolero da Solidão. E lá se vão já trinta anos...
Nas fotos, Ciça e Paulo Vicente em ação. Não consigo lembrar quem foi o fotógrafo. Alguém me ajuda? Fiz foto das fotos, por isso esse brilho refletido nas imagens.