quarta-feira, 10 de junho de 2026
SONATA EM SP
Saio apressado da academia, subindo a rua Augusta em direção ao metrô - quero chegar no shopping antes de voltar para casa a tempo de almoçar. Entro na estação Consolação e sou capturado pela inconfundível melodia de Bach: Ária da corda Sol. Um violinista a executa sobre uma base de orquestra gravada em playback. Paro no meio da escada, encostado na vidraça da estação, revendo a orquestra de cordas que sempre ouvia no metrô de Paris executando essa mesma obra. Esses músicos que nos enlevam assim no meio do dia, que nos brindam com sua arte refinada em pleno caos, deveriam ser subvencionados pelas prefeituras, penso em um delírio já provocado pela fome do pós treino. Dias antes eu tinha ido ao cinema assistir ao filme Chopin Uma Sonata em Paris. Sonatas, adágios, prelúdios, alegros, andantes, sempre me capturam com suas melodias. Assim como jovens pianistas e compositores. Frédéric Chopin morreu jovem, aos 39 anos, de tuberculose. A Paris do século dezenove ainda não era uma festa como o seria a de Hemmingway. Eu não sabia do romance de Chopin com a escritora George Sand, lindamente mostrado no filme. Chopin tinha pavor de acordar no caixão, por isso pediu que seu coração fosse removido após a morte. Adorei saber (pela internet) que seu coração foi conservado em conhaque. E que está (até hoje) em uma igreja na Polônia. Já seu corpo repousa no cemitério do Père-Lachaise, em Paris, onde viveu seus últimos anos. Penso que cheguei a vizinhar com ele logo que cheguei na capital francesa no começo dos anos noventa e morei uns meses no vingtième arrondissement, rue des Pyrénées, pertinho do cemitério… Desço as escadas em direção ao embarque enquanto a melodia vai se diluindo aos poucos, abafada pelos ruídos das pessoas, dos alto-falantes, dos trens que vem e vão na barafunda da manhã de uma cidade grande. Junto com a melodia se dissipam memórias, crônicas e declarações de amor…
Na foto, o ator Eryk Kulm como Chopin em cena do filme.
quinta-feira, 4 de junho de 2026
DELÍRIO AUTORREFERENTE
Fui ao cinema, claro, assistir ao novo filme de Pedro Almodóvar, Natal Amargo. É preciso dizer, sem nenhuma intenção de spoiler, que não se trata de uma história de Natal. É apenas mais um filme sobre ele próprio. O que, para quem é seu fã como eu, é mais um deleite. Almodóvar sempre foi autorreferente. Essa é uma das características que mais me fazem gostar de sua obra. Agora que já está maduro, reconhecido, premiado e com maiores orçamentos para filmar, ele parece ter se confrontado com a famigerada folha em branco que assombra os escritores e criadores em geral. O bom é que não faz disso um drama pessoal mas sim, como sempre, lança mão do humor e da autoderrisão para debochar de si próprio. E o faz com tal leveza e descompromisso que arranca risadas da plateia em meio ao drama das personagens do filme. Como quando, em um dado momento da história, a produtora do filme diz ao personagem cineasta: Você precisa parar de falar da morte da sua mãe em seus filmes, faz quatro anos que você fala da morte dela… O enfant terrible do cinema espanhol zomba da moda da “autoficção” com a consciência de quem já a pratica desde antes mesmo dela ter sido criada. Tem as atrizes fantásticas, os atores gostosos, as cores e simetrias que o tornaram célebre, a belíssima trilha sonora, a participação de Rossy de Palma e tudo o mais que a gente ama em Almodóvar. Senti falta de mais boleros rsrs. Mas vale a ida ao cinema.
Na foto, Patrick Criado, o novo Banderas, em cena do filme.
domingo, 24 de maio de 2026
NOSTALGIA
O sol voltou! São Paulo andou sendo São Paulo por vários dias. Uma semana, pelo menos. Dias escuros, céu cinzento, chuvinha fina de dar dó. Ornando com tudo de obscuro que anda acontecendo no Brasil e no mundo. E a minha positividade dando sinais de falência. Até que finalmente, em pleno domingo pela manhã, o sol voltou a brilhar. Graças aos céus… Faz tempo que não falo por aqui da minha abstinência de Paris. Ultimamente ela tem me atacado em doses bastante elevadas. Até o cheiro do pó de café, quando vou preparar meu desjejum pela manhã, me lembra Paris. Quando abro a janela e o ar frio do outono entra misturado com o cheiro de lenha queimada da pizzaria em frente, voilà: Ça me donne envie d’être à Paris… Memórias são os nossos melhores aliados nesses momentos. Que bom que já vivemos bastante e temos muito do que lembrar. Dia desses meu amigo Odilon, que mora na Bahia, me perguntou se existe mesmo aquela Paris tão luxuosa e especial que a série Emily in Paris mostra. Respondi que Paris é realmente fantástica, às vezes inacreditável mesmo. E o melhor é que, do nada, você se vê incluído numa dessas coisas inacreditáveis que só acontecem por lá. O João, meu amigo que me hospedava nas minhas idas à Cidade Luz, trabalhou por anos em bares e restaurantes de uma mesma família de proprietários. O Le Fumoir, por exemplo, que é um dos meus lugares preferidos na cidade, eu conheci por indicação da revista da Joyce Pascowitch. Nem sabia que meu amigo tinha sido barman lá. Quando contei para ele que tinha conhecido e que adorava o Fumoir, ele me disse que era do mesmo proprietário do restaurante onde ele estava trabalhando, o La Gazeta. Eu já conhecia o chefe do João pelo telefone, de atender quando ele estava ocupado. Então João contou para o chefe que eu amava o Fumoir e ele me convidou para uma degustação de vinhos na cave do bar! O melhor é que fui apresentado aos produtores de vinho como um famoso enólogo brasileiro rsrs. Eu falei: Exagero seu! Ele respondeu: que nada, você é um grande conhecedor de vinhos, só é modesto… Só sei dizer que enquanto eles bochechavam os vinhos e os cuspiam fora, eu ia bebendo todo o conteúdo das taças que me eram servidas. Resultado: Eram dez da manhã e eu saí completamente bêbado do meu bar preferido em Paris… ah, essa saudade no meu peito! Como bem disse Clarice Lispector, saudade é um pouco como fome, só passa quando se come a presença… O céu já está nublado outra vez, minha positividade foi temporariamente recarregada, o vinho branco bateu, sem mais para o momento me despeço cordialmente. Bom fim de domingo a todos!
Na foto, fachada do Lux Bar, na rue Lepic, em Paris.
sexta-feira, 8 de maio de 2026
ALICE CANTA CAYMMI
Sou fã de Alice Caymmi desde que a ouvi cantar pela primeira vez. Desde então acompanho a carreira desta moça de talento imensurável. Ela já fez de tudo: Inquieta que só, está sempre se renovando e experimentando. Adoro. Agora ela resolveu se debruçar sobre a obra do avô Dorival Caymmi e o fez com maestria (e olha que sou apaixonado pelo álbum Gal Canta Caymmi, da saudosa Gal Costa). Os clarins da banda militar tocam para anunciar que sua Alice agora vai passar: Venham ver o que é bom! Com fortes bases eletrônicas, guitarra, baixo, bateria e percussão, ela soltou o vozeirão e encheu a belíssima sala do Teatro Cultura Artística do melhor da música brasileira, fazendo jus à linhagem da qual descende. Foi a estreia da turnê do álbum Caymmi, que ela acabou de lançar. Quem sai aos seus não degenera mesmo. Sucessos atemporais como Modinha Para Gabriela, Morena do Mar, Dora, O Bem do Mar, Maracangalha e O Que é Que a Baiana Tem? desfilam com roupagem contemporânea provando que talento não morre nunca. Como ela própria diz em entrevista no programa do show: “Acordei nesse mundo já cantando meu avô; antes de qualquer coisa havia Alice cantando Caymmi”. De vez em quando me pego reclamando que não temos mais cantoras do quilate de Elis, Nana ou Gal. Qual! Temos Alice Caymmi, graças a Deus e aos orixás… Saí do teatro muito feliz, revendo na memória flashes da apresentação. No banco de trás do táxi que me levou para casa fiquei imaginando o avô Dorival cantando para a neta Alice os versos de Acalanto: “É tão tarde, a manhã já vem. Todos dormem, a noite também. Só eu velo por você, meu bem. Dorme, anjo, o boi pega neném”… Agora, enquanto escrevo, não sai da minha cabeça Alice cantando Dora a plenos pulmões para a plateia que lotou o Cultura Artística: "Oh, Dora rainha do frevo e do maracatu, ninguém requebra e nem dança melhor do que tu"... Viva Dorival Caymmi, viva Nana, Danilo, Dori e viva Alice Caymmi!
Nas fotos, Alice e sua excelente banda agradecem os calorosos aplausos.
quarta-feira, 6 de maio de 2026
LÍNGUA PORTUGUESA
Ontem, dia 05 de maio, foi o Dia Mundial da Língua Portuguesa. No intuito de homenageá-la, dei uma rápida busca no Google e constatei que nove países a têm como língua oficial. A maioria deles na África. Na América, somente o Brasil (além de Macau, na China, que a preserva junto com o mandarim). Eu amo a Língua Portuguesa. Desde muito pequeno me lancei na leitura de livros como se lançavam ao mar os portugueses que a levaram para outros continentes. A língua tem esse poder de nos transportar, sobretudo quando escrita (bem escrita, quero dizer)… Uma das primeiras palavras que me encantaram foi “entrementes”, que aprendi ainda nos gibis de histórias em quadrinhos. Com o tempo vieram amiúde, sobremaneira, circunspecto, intangível, célere, alhures, adrede, convescote e outras tantas. Milhares, incontáveis, indescritivelmente belas. E meu encanto parece não ter fim. Quando comecei a estudar teatro descobri a dramaturgia. Um novo universo se apresentou, pleno de possibilidades, contendo a História Universal e suas mitologias. E mais: a concisão na escrita. O que para mim é um luxo. Isso me lembra (como sempre) Caio Fernando Abreu. Uma vez ele me contou que estava ministrando uma oficina de literatura e eu perguntei que tal eram os alunos, se havia algum talento literário na turma e ele me respondeu: Eles usam muitos “frementes” e “arfantes”. Genial e conciso, até nos comentários… Para encerrar de maneira concisa, cito aqui outro mestre da concisão, Nelson Rodrigues. No último final de semana fui com Grace Gianoukas assistir à montagem de Nossa Senhora dos Afogados, belíssima encenação de Monique Gardenberg com o grupo do Teatro Oficina em homenagem a Zé Celso Martinez Correia. Precisa ser visto. Se por mais não for, pela arrebatadora performance da atriz Leona Cavalli. E antes que a concisão (a minha) vá para as cucuias, me despeço desejando vivas à Língua Portuguesa, com os versos de Olavo Bilac: “Amo o teu viço agreste e o teu aroma de virgens selvas e de oceano largo; amo-te, ó rude e doloroso idioma”.
Na foto, Bilac fazendo a bonita no alto da escada. Imaginem a descida.
domingo, 26 de abril de 2026
63 OUTONOS
Vim passar mais uma vez o meu aniversário em Camburi, no litoral norte de São Paulo. Quem me conhece sabe que adoro fazer anos junto ao mar. Desta vez vim sozinho, Weidy está ocupadíssimo com trabalhos na capital. Adoro passar o meu aniversário sozinho. Adoro viajar sozinho, estar na minha própria companhia é algo que muito me apraz. Completei sessenta e três outonos. Fazer sessenta e três anos não chega a ser uma efeméride; não é muito mais do que sessenta e nem muito menos do que sessenta e cinco ou setenta. É só mais um aniversário de transição, igual a vários outros que passamos. Nunca ouvi falar de alguém que fez uma grande festa para comemorar os sessenta e três anos rsrs. Mas sou um apaixonado por aniversários, amo comemorá-los seja como for. Fico muito feliz no dia do meu nascimento e, como já cantaram Kleyton e Kledir, ser feliz é tudo o que se quer… Nesse momento tenho muita vontade de estar no palco. Voltar aos palcos. Isso inevitavelmente me lembra Rita Lee: Disseram que o palco não é mais aquele lugar, mas do jeito que a gente me olha de frente como eu vou parar? Tenho também muita vontade de voltar a Paris. Morar em Paris. Viver a cidade. Revivê-la. Quero muito publicar meus escritos, meus contos, minhas memórias da Terça Insana, quem sabe uma seleção de posts aqui do blog... Jogo tudo para o Universo. Ou peço para o meu Anjo da Guarda que, segundo meu amigo Paulo Vicente, no dia do meu aniversário é só pedir que ele me concede... São desejos de um idoso que não se entrega, não se conforma, não se mixa para a idade rsrs. Que bom que tenho Camburi pertinho de mim. Afinal de contas, assim como Paris, sempre teremos Camburi...
Na foto, eu feliz que só, brindando com champanhe meu aniversário junto ao mar.
sexta-feira, 10 de abril de 2026
ESTRANHOS FAMILIARES
Acabei de assistir ao filme Pai Mãe Irmã Irmão, de Jim Jarmusch. Sou fã desse cineasta desde os anos oitenta do século passado. Faz tempo que não via um filme dele. Aliás, faz tempo que não ia ao cinema. Saí saciado, mais ou menos como se tivesse ido a um bom restaurante e pedido o meu prato preferido, acompanhado do meu vinho preferido também. E que maravilha ver Tom Waits atuando! Ele faz o pai que engana os filhos se fazendo de pobre para que lhe deem dinheiro. Impagável. Adam Driver, no papel do filho, perfeito como sempre. Mas essa é apenas a primeira das três histórias. Na segunda, Mãe, temos Charlotte Rampling e Kate Blanchet como mãe e filha. Tá bom ou quer mais? Ah, cada história se passa em uma cidade diferente de um país diferente. Um pouco como em Uma Noite Sobre a Terra, outra obra de Jarmusch. A gente fica esperando que em algum momento as histórias se entrelacem, mas não. São independentes, como três curta metragens exibidos conjuntamente. Um tríptico, como Mistery Train. Há pontos em comum nas três histórias. Em algum momento os personagens observam skatistas que passam, por exemplo. Em Dublin, Paris ou no interior dos Estados Unidos. Alguém tem um Rolex nas três histórias. E brindes são levantados com água e chá enquanto um dos personagens pergunta se é possível brindar com água ou chá. A distância entre pais e filhos permeia as três narrativas. As tentativas de aproximação também. Há humor, aquele humor característico de Jim Jarmusch (que normalmente só eu rio na sala). Há a trilha sonora, do próprio, linda como sempre. Mas o que mais me tocou foi Tom Waits no papel do pai. Antológico. Dá muita vontade de assistir, pelo menos, mais uma vez… Quem, como eu, foi jovem nos anos oitenta, não tem como não se sentir tocado e não acionar os arquivos da memória, onde estão guardados Estranhos no Paraíso, Daunbailó, Uma Noite Sobre a Terra, Café e Cigarros, Mistery Train e outros mais. Não conhecia os belos atores Luka Sabbat e Indya Moore, que fazem os irmãos gêmeos da terceira história, que se passa em Paris. Já fiquei fã dos dois e, claro, amei rever a minha amada Paris. Aliás, assim como as memórias e os filmes de Jarmusch, malgré tout, sempre teremos Paris…
Na foto, Tom Waits como o pai em Pai Mãe Irmã Irmão.
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