quarta-feira, 11 de março de 2026

COMBO DIVERSO

Dia desses, na academia, tive uma surpresa (isso ainda acontece, mesmo depois de mais de quarenta anos as frequentando): Da minha esteira, olho para o lado e o improvável se materializa: Um rapaz loirinho, de barba e óculos, bem jovem, lia Madame Bovary na bicicleta ergométrica. É verdadeira essa imagem? Teria sido gerada com uso de inteligência artificial? É fato ou fake? Pura verdade. Alheio ao movimentado e barulhento entorno ele se dedicava à leitura da obra de Flaubert como se não houvesse mais nada nem ninguém por perto. Lembrei de mim aos dezesseis, dezessete anos de idade, nos cafés do centro de Porto Alegre, naquelas travessas da Rua da Praia, com meu bornal de lona verde à tiracolo, trazendo sempre à mão algum exemplar de André Gide, Jean Genet, Sartre ou Camus. Sabe como é, nada como já adiantar pistas para possíveis interessados… Mas, voltando ao templo da boa forma - ou da forma perdida - percebo que do alto da minha idade já avançada e analógica tenho sido preconceituoso com a juventude atual. Sim, eles ainda leem. Mesmo que seja somente o loirinho gaúcho (deduzi que é gaúcho pela camiseta do Grêmio que vestia, o que tornou a princípio tudo mais improvável ainda). Achei o combo “juventude + academia + literatura” interessante. Me senti uma espécie de precursor do jovem, já que, como ele, também gosto de treinar e aprecio uma boa leitura. Ah, e também sou gaúcho. Ah, e também já fui jovem. Paradoxalmente, quando estou treinando costumo ler na biblioteca virtual que trago no celular, e não livros físicos, como fazia o jovem… Por favor, não me julguem. Nem pensem que sou algum espião de academia. Eu não estou em busca de nada além da boa forma, são as informações que me chegam de maneira espontânea. Digo isso porque, dias depois estou no vestiário me trocando para ir embora e percebo que uma mochila com um chaveiro da faculdade de medicina repousa no banco ao lado do meu. Imediatamente pensei: Tem um estudante de medicina tomando banho. Instantes depois abre-se a porta do boxe e sai o loirinho gaúcho que no outro dia lia Flaubert na bicicleta ergométrica. Ele se dirige até a mochila e mais uma informação é imediatamente acrescentada ao já eclético combo: Trata-se, provavelmente, de um estudante de medicina. Quando o observo mais de perto, vejo que o combo não para de se ampliar: O tamanho e a delicadeza dos seus pezinhos e mãozinhas somados à total ausência de volume na cueca (com o perdão da indiscrição) me revelam tratar-se de um homem trans. Tudo, a meu ver, tornou-se ainda mais interessante. Estou acostumado a conviver com homens trans, inclusive nessa academia que frequento, até aí nenhuma novidade. O que torna tudo tão mais rico e complexo é a amplitude do combo. Algum leitor mais acomodado ou conservador pode pensar que esse último dado explique, por exemplo, a escolha de Madame Bovary como leitura. Ou que gostar de academia explique a escolha de medicina como curso superior. Mas, para mim, ele apenas torna tudo mais amplo e inclusivo. Materializa-se na minha frente a prova viva de que inclusão e diversidade são muito mais do que apenas conceitos ou militância. E são muito mais amplas e abrangentes do que possam supor as vãs tentativas de cerceamento da liberdade alheia. São uma realidade. Uma importante e bem vinda realidade. O combo já anteriormente rico (juventude + academia + literatura) agora se expandira para “juventude + academia + literatura + medicina + transexualidade”. Não sei o leitor, mas eu achei que meu personagem ganhou mais colorido e se tornou ainda mais interessante e pleno de possibilidades do que já se apresentara no início da narração... Vou seguir praticando meus treinos diários, sempre atento ao que me cerca. Se mais informações chegarem a mim de maneira espontânea como me chegaram estas, prometo dar sequência ao post. Ou, quem sabe, contar uma nova história... Que os combos se ampliem cada vez mais! E a convivência entre todos eles se dê em harmonia. Para haver amor entre os homens… Na foto, a capa de uma edição da obra de Flaubert.

Um comentário:

  1. Caríssimo, que academia interessante. E que personagem maravilhoso tu encontrou. Lembro que li a historia de Emma Bovary quando tinha uns 23 ou 24 anos. De lá prá cá quanta coisa mudou. O fato de seu personagem ser estudante de medicina traz mais camadas, já que ela se casa com um médico e leva a ambos para um final trágico.
    Eu ficaria amigo desse seu personagem rsrsrs

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