domingo, 14 de junho de 2026

JUNHO INTENSO

O mês de junho começou frio e ao mesmo tempo intenso como eu gosto. Literário e cinematográfico. Teatral e realista. Puro drama & comédia… Já na primeira quinzena devorei dois livros do escritor francês Philippe Besson. Fico muito feliz e satisfeito quando descubro um novo escritor. Besson escreve com grande sensibilidade e concisão. Duas das qualidades que mais admiro atualmente em escritores. Comecei com Uma Noite de Verão e na sequência li Mentiras Que Contamos. Seu primeiro livro, que o catapultou para o sucesso internacional, Na Ausência dos Homens, estou na lista de espera do Biblion para ler assim que for liberado… Para seguir na seara das letras estive no lançamento do livro da minha amiga Patrícia Vilela, Trilogia de Uma Sociedade Distópica, na Feira do Livro do Pacaembú. O livro traz três peças da autora: Cães de Rua, Perda Maior e Demônio de Poeira. Tive o privilégio de fazer a revisão e assinar o texto da orelha. Aliás, Perda Maior estreia em julho aqui em São Paulo, com a autora no elenco e direção de Elias Andreato… No cinema assisti ao novo filme de Almodóvar e também Chopin, Uma Sonata em Paris, ambos já retratados em posts anteriores aqui no blog. Fui também a duas exposições bacanérrimas: Shiro, Uma Escala de Nuances, na Japan House. Um interessante estudo das graduações do branco nos elementos papel, seda, neve e sal; e na Cidade Matarazzo, onde tudo parece acontecer agora na cidade, mais especificamente na Mata Lab, a belíssima Somos Um Único Fio, da artista gaúcha Sandra Anselmi. Fui por indicação do meu amigo Ivan Mattos e fiquei encantado. Tramas de lã tricotam cogumelos gigantes em uma instalação pela qual a gente passeia e se dá conta de que, como diz o título da mostra, pertencemos a um único e imenso corpo que pulsa através de filamentos. A curadoria é de Lilian Pacce, mais chic impossível... No mais, muitos lámens quentinhos no bairro da Liberdade, acompanhados de sakê. O que mais? Ah, nessa sexta-feira Weidy e eu comemoramos o dia dos namorados pela vigésima terceira vez! Acho que já está bom, né? Olha que ainda estamos apenas na metade do mês… bom mês de junho a todos! Nas fotos, meu abraço na autora Pati, Shiro na Japan House, os cogumelos de Sandra Anselmi e noite de lámen na Liberdade.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

SONATA EM SP

Saio apressado da academia, subindo a rua Augusta em direção ao metrô - quero chegar no shopping antes de voltar para casa a tempo de almoçar. Entro na estação Consolação e sou capturado pela inconfundível melodia de Bach: Ária da corda Sol. Um violinista a executa sobre uma base de orquestra gravada em playback. Paro no meio da escada, encostado na vidraça da estação, revendo a orquestra de cordas que sempre ouvia no metrô de Paris executando essa mesma obra. Esses músicos que nos enlevam assim no meio do dia, que nos brindam com sua arte refinada em pleno caos, deveriam ser subvencionados pelas prefeituras, penso em um delírio já provocado pela fome do pós treino. Dias antes eu tinha ido ao cinema assistir ao filme Chopin Uma Sonata em Paris. Sonatas, adágios, prelúdios, alegros, andantes, sempre me capturam com suas melodias. Assim como jovens pianistas e compositores. Frédéric Chopin morreu jovem, aos 39 anos, de tuberculose. A Paris do século dezenove ainda não era uma festa como o seria a de Hemmingway. Eu não sabia do romance de Chopin com a escritora George Sand, lindamente mostrado no filme. Chopin tinha pavor de acordar no caixão, por isso pediu que seu coração fosse removido após a morte. Adorei saber (pela internet) que seu coração foi conservado em conhaque. E que está (até hoje) em uma igreja na Polônia. Já seu corpo repousa no cemitério do Père-Lachaise, em Paris, onde viveu seus últimos anos. Penso que cheguei a vizinhar com ele logo que cheguei na capital francesa no começo dos anos noventa e morei uns meses no vingtième arrondissement, rue des Pyrénées, pertinho do cemitério… Desço as escadas em direção ao embarque enquanto a melodia vai se diluindo aos poucos, abafada pelos ruídos das pessoas, dos alto-falantes, dos trens que vem e vão na barafunda da manhã de uma cidade grande. Junto com a melodia se dissipam memórias, crônicas e declarações de amor… Na foto, o ator Eryk Kulm como Chopin em cena do filme.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

DELÍRIO AUTORREFERENTE

Fui ao cinema, claro, assistir ao novo filme de Pedro Almodóvar, Natal Amargo. É preciso dizer, sem nenhuma intenção de spoiler, que não se trata de uma história de Natal. É apenas mais um filme sobre ele próprio. O que, para quem é seu fã como eu, é mais um deleite. Almodóvar sempre foi autorreferente. Essa é uma das características que mais me fazem gostar de sua obra. Agora que já está maduro, reconhecido, premiado e com maiores orçamentos para filmar, ele parece ter se confrontado com a famigerada folha em branco que assombra os escritores e criadores em geral. O bom é que não faz disso um drama pessoal mas sim, como sempre, lança mão do humor e da autoderrisão para debochar de si próprio. E o faz com tal leveza e descompromisso que arranca risadas da plateia em meio ao drama das personagens do filme. Como quando, em um dado momento da história, a produtora do filme diz ao personagem cineasta: Você precisa parar de falar da morte da sua mãe em seus filmes, faz quatro anos que você fala da morte dela… O enfant terrible do cinema espanhol zomba da moda da “autoficção” com a consciência de quem já a pratica desde antes mesmo dela ter sido criada. Tem as atrizes fantásticas, os atores gostosos, as cores e simetrias que o tornaram célebre, a belíssima trilha sonora, a participação de Rossy de Palma e tudo o mais que a gente ama em Almodóvar. Senti falta de mais boleros rsrs. Mas vale a ida ao cinema. Na foto, Patrick Criado, o novo Banderas, em cena do filme.