quinta-feira, 4 de junho de 2026

DELÍRIO AUTORREFERENTE

Fui ao cinema, claro, assistir ao novo filme de Pedro Almodóvar, Natal Amargo. É preciso dizer, sem nenhuma intenção de spoiler, que não se trata de uma história de Natal. É apenas mais um filme sobre ele próprio. O que, para quem é seu fã como eu, é mais um deleite. Almodóvar sempre foi autorreferente. Essa é uma das características que mais me fazem gostar de sua obra. Agora que já está maduro, reconhecido, premiado e com maiores orçamentos para filmar, ele parece ter se confrontado com a famigerada folha em branco que assombra os escritores e criadores em geral. O bom é que não faz disso um drama pessoal mas sim, como sempre, lança mão do humor e da autoderrisão para debochar de si próprio. E o faz com tal leveza e descompromisso que arranca risadas da plateia em meio ao drama das personagens do filme. Como quando, em um dado momento da história, a produtora do filme diz ao personagem cineasta: Você precisa parar de falar da morte da sua mãe em seus filmes, faz quatro anos que você fala da morte dela… O enfant terrible do cinema espanhol zomba da moda da “autoficção” com a consciência de quem já a pratica desde antes mesmo dela ter sido criada. Tem as atrizes fantásticas, os atores gostosos, as cores e simetrias que o tornaram célebre, a belíssima trilha sonora, a participação de Rossy de Palma e tudo o mais que a gente ama em Almodóvar. Senti falta de mais boleros rsrs. Mas vale a ida ao cinema. Na foto, Patrick Criado, o novo Banderas, em cena do filme.

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