quinta-feira, 8 de outubro de 2026
DIÁRIO DE UM VELHO LOUCO
Não é a mim que o título do post se refere, embora eu seja de fato um velho, mesmo que não propriamente louco. Ainda tenho conseguido manter a minha saúde mental com um certo esforço, alguma resiliência e três ou quatro drinks… O título se refere ao romance do escritor japonês Junichiro Tanizaki, lançado originalmente em 1961, dois anos antes do meu nascimento e mais de sessenta anos antes de vir cair nas minhas mãos. O personagem, autor do dito diário, tem setenta e sete anos. O que na época correspondia a um ancião às vésperas da morte. Atormentado por dores físicas que o obrigam a tomar fortes medicamentos e se submeter a trações da coluna, ele decide aproveitar o pouco tempo de vida que lhe resta para se lançar em um jogo de dominação e submissão com a esposa de seu filho, uma ex-corista de espetáculos de variedades. É isso mesmo que você pensou: A nora concede favores sensuais ao vovô em troca de presentes e proteção. O interessante é que nessa troca a gente nunca sabe exatamente quem domina e quem é dominado. O abuso é mútuo e consensual. Ambos tem seus desejos atendidos, não importa de que natureza sejam. A velha e boa safadeza debaixo dos olhos da vovó e do filhinho, no Japão do começo do século passado. É como dizia meu avô: Velhacaria sempre existiu… Com perdão da brincadeira, o livro - que é escrito em formato de diário - revela a angústia de um ancião que vive às voltas com dores lancinantes e que busca através de um possível hedonismo dar sentido ao pouco tempo de vida que tem pela frente.
Acho válido. Afinal, como já cantaram os Titãs, “quando não houver esperança, quando não restar nem ilusão, ainda há de haver esperança; quando não houver desejo, quando não restar nem mesmo dor, ainda há de haver desejo em cada um de nós aonde Deus colocou”… Administrar o tempo que temos por aqui e que nunca saberemos quanto tempo será é das maiores urgências que temos na vida. E como iremos preenchê-lo quando ele der sinais de estar chegando ao fim, um de nossos maiores consolos. Para terminar citando Clarice Lispector, “escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente e pela saída da porta dos fundos”… Se for com algum prazer, melhor ainda.
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