terça-feira, 22 de setembro de 2026

ANGÚSTIA

Recentemente descobri no Biblion, a biblioteca virtual de São Paulo, a obra Angústia, de Graciliano Ramos. Não sei exatamente o porquê desse título ter me passado despercebido por tantos anos. O bom é descobrir que mesmo depois dos sessenta a gente ainda consegue se surpreender e se deleitar com literatura. É só embarcar numa obra de qualidade que "a festa não tem hora e a noite não tem fim", para citar as adoráveis Frenéticas... Lembro que li no ginásio, mais exatamente na oitava série, Vidas Secas, do mesmo autor. Não tenho certeza se também li São Bernardo ou se só me lembro do resumo e dos personagens por ter estudado nas aulas de literatura do segundo grau. Já Memórias do Cárcere eu sei que não li, mas assisti à adaptação cinematográfica de Nelson Pereira dos Santos, protagonizada por Carlos Vereza... Agora felizmente me chegou às mãos, ainda que em formato digital e antes tarde do que nunca, o estranhamente belo Angústia. Escrito em 1936, é todo narrado na primeira pessoa pelo personagem Luís da Silva, funcionário público insatisfeito com a vida medíocre que leva na capital de Alagoas. O que mais me envolveu é que ele não conta propriamente uma história. Da primeira à última página do romance acompanhamos o fluxo de pensamento do personagem e a angústia existencial que o leva ao isolamento, à irritabilidade e ao subsequente descontrole das próprias ações. Me identifiquei tanto, mas tanto! Rsrs... Se afasta do modernismo literário da época, que era focado nos romances regionalistas de crítica social, mas a meu ver se torna ainda mais moderno por navegar nesse existencialismo interior tão bem desenvolvido mais tarde por Clarice Lispector, por exemplo. Soa atualíssimo, como se pode ver no trecho que transcrevo a seguir: "Eles escrevem assim porque receberam ordem para escrever assim. Depois escreverão de outra forma. É tapeação, é safadeza. Não há opinião pública: há pedaços de opinião, contraditórios. Uns deles estariam do meu lado se eu matasse Julião Tavares, outros estariam contra mim. No júri metade dos juízes lançaria na urna a bola branca, metade lançaria a bola preta. Qualquer ato que eu praticasse agitaria esses retalhos de opinião. Inútil esperar unanimidade. Um crime, uma ação boa, dá tudo no mesmo. Afinal já nem sabemos o que é bom e o que é ruim, tão embotados vivemos"... Extremamente autocrítico, no final da vida Graciliano disse: "Acho em Angústia numerosos defeitos, repetições excessivas, minúcias talvez desnecessárias. E tudo mal escrito"... Para mim, essas repetições realçam ainda mais o fluxo de consciência do personagem, afinal não pensamos em linha reta ou ascendente, e sim com idas e vindas e repetições. Os constantes flash-backs do passado do personagem misturados ao seu presente marcam essas idas e vindas tão comuns ao nosso pensar. Enfim, uma viagem interessantíssima para quem ainda consegue, hoje em dia, dedicar mais do que três minutos de atenção ao que quer que seja... Para os corajosos, boa leitura! Nas fotos, Graciliano Ramos em si e a capa da atual edição de Angústia.

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