Tenho passado os dias na companhia de Caio Fernando Abreu. Dessa vez são suas narrativas breves, reunidas em Contos Completos, uma linda edição de quase oitocentas páginas da Companhia das Letras. E por falar em companhia, tenho andado tão sozinho. Estou me sentindo tão só nesse mês de outubro. Como nunca antes. Sem grupo, sem pares, sem turma. Desencaixado. Sem público, sem espetáculo. Até mesmo sem assunto, posto que, nesse mês, o assunto é um só: Há uma divisão política no Brasil, uma polarização. A confrontar amigos e familiares, tribos e segmentos. Eu, que não me sinto representado por nenhuma das partes, amargo uma solidão inaudita. Fico no meu canto, quieto, na companhia desses muito bem vindos Contos Completos... Já reli muitas coisas, descobri outras que para mim permaneciam inéditas e redescobri outras tantas que lera e já não me lembrava onde. Em qual livro. Agora estão todos juntos, reunidos em um só. Do Inventário do Ir-remediável a Ovelhas Negras. E outros ainda. E inéditos. O ovo, os morangos, os dragões. Descobri as Pedras de Calcutá que, como bem definiu Luís Arthur Nunes, são preciosas. Nelas encontrei o contundente Caçada. No Inventário, o delicado Meio Silêncio. Nas Ovelhas Negras, os surpreendentes Uma História Confusa, Sob o Céu de Saigon e, pérola das pérolas, Depois de Agosto. Escrito por Caio já doente, no começo de 1995, transbordante de lirismo e referências, bem humorado mesmo na eminência de. Para ser lido ao som de Contigo en la Distancia... É em momentos como esse, de solidão e desalento, que a literatura me salva. Além de em todos os outros. Mas nesses, especialmente, não só a literatura como a arte em si, o teatro, a pintura, o cinema, a fotografia e, sobretudo o humor, salvam. Sempre. E por que sempre é bom, por que a cada vez revela e espanta, por que encanta e modifica e faz crescer, por que torna os dias mais doces ou amargos, por que semeia os mais áridos terrenos, percorre os recônditos mais sombrios, por tudo isso e ainda mais que aqui não caberia, leio releio lerei relerei para sempre Caio Fernando Abreu...
Na foto, a bela edição dos Contos Completos da Companhia das Letras.
quinta-feira, 18 de outubro de 2018
sexta-feira, 28 de setembro de 2018
MEMÓRIA ENCENADA
Finalmente consegui preencher uma lacuna imperdoável que havia na minha formação teatral: Assistir a um espetáculo de Robert Lepage. E foi com o intrigante 887, que ele está apresentando em São Paulo, no Sesc Pinheiros, com a sua companhia Ex Machina. A peça trata da memória, esse tema que me é tão caro e do qual muito já falei aqui no blog. Lepage se lançou na pesquisa sobre os labirintos da memória justamente quando se viu em dificuldade para decorar um poema que se propôs apresentar em uma cerimônia. Quando começou sua, digamos viagem, foi imediatamente transportado para o prédio onde viveu sua infância, o número 887 da Avenue Murray, no Quebec. É claro que eu, enquanto assistia ao espetáculo, fiquei também me transportando para o 1414 da Avenida Marechal Floriano em Soledade, onde nasci e vivi minha infância, para o 1271 da Rua Garibaldi em Porto Alegre, onde passei minha juventude, e para o 18 da Rue des Écouffes em Paris, onde morei no começo dos anos noventa e vivi uma espécie de segunda juventude que dura até hoje... Enquanto escrevo já fico me perguntando como discorrer sobre tão interessante assunto sem me alongar. Lepage segue contando que se utilizou, na tentativa de memorizar o tal poema, de uma técnica na qual você distribui as partes do texto em cômodos de uma casa ou de um local do passado que se lembre com exatidão. E imediatamente me vi percorrendo ambientes da casa da minha avó, com uma riqueza de detalhes que quase atrapalhou minha atenção no espetáculo a que assistia... E quando cheguei em casa e me deitei para dormir a viagem ao passado seguiu firme e forte. O centenário de Soledade, com a inauguração do Parque de Exposições, a visita do governador, o ônibus que exibia a Mulher Tarântula da Amazônia; o Teatro Serelepe, com seus melodramas, comédias, tragédias e shows de calouros; as aulas de piano chez Dona Amélia Triches, os desfiles de Sete de Setembro, as viagens com o time de handball, a excursão a Porto Alegre com a turma da sétima série... Quem como eu trabalha com teatro sabe do constante esforço de manter viva a memória, do quanto ela é importante não só para que o espetáculo se realize, mas para que se perpetue no coletivo, uma vez que é uma arte efêmera, que só pode ser vista enquanto está acontecendo. Um dos sonhos recorrentes que tenho é que preciso entrar em cena e não sei uma só linha do texto que irei apresentar. Vocês que me leem não imaginam o pavor que isso representa para um ator... Mas, fora todo o meu interesse pessoal pelo assunto abordado por Robert Lepage em seu espetáculo, vale destacar o espetáculo em si. Uma obra-prima, uma viagem de encantamento e precisão cênica de cair o queixo. O palco como uma caixa mágica que une imaginação, poesia, efeitos tecnológicos, ilusionismo, cinema, projeções, carpintaria teatral de primeira e, acima de tudo, muito, mas muito talento. Quando a apresentação termina e ele entra para receber os aplausos, a gente percebe que, apesar dele estar sozinho em cena o tempo todo, não se trata de um solo, há muitas pessoas por trás fazendo a mágica acontecer. Cerca de dez artistas são chamados ao palco para gradecer com ele. E fazem jus ao nome da companhia: Ex Machina... Em cartaz só até domingo. Corre!
terça-feira, 25 de setembro de 2018
CONTO JUVENIL
Inspirado pela mais recente modinha das redes sociais, digo anti-sociais, remexendo guardados encontrei esse micro-conto que escrevi quando contava apenas púberes vinte aninhos. Chama-se COMPASSO:
O relógio já havia marcado muitas horas e continuaria marcando-as indefinidamente dentro do processo que era estar a vida transcorrendo a partir dos seus sentidos e impressões naquela tarde. No prédio ao lado o barulho das picaretas dos pedreiros dava a dimensão da vida que se andava levando. Naquele momento a visão do dia de sol e vento - que balançava as árvores arrancando-lhes as folhas - não era agradável. O som da vida que se desenrolava - ou se enrolava - do lado de fora produzia um forte sentimento de angústia e não-participação do lado de dentro. Tudo o que estivesse ao alcance - sons, imagens, cheiros, lembranças - de nada valia, pra nada adiantava. Agora era marcar passo no mesmo lugar ou ir adiante. A sensação era a de um condenado à morte pela forca, tal qual ela é descrita nos livros inteligentes. Teseu perdido em um labirinto - agora com elevadores - incapaz de matar o Minotauro, acertar o alvo, chegar na frente e romper a linha de chegada. Crianças passam carregando balões de gás e acreditando em super-heróis. E os policiais registram novas queixas em seus arquivos. O carpete era de um tom bege que personificava o tédio. A solidão pesando como um jeans molhado colado ao corpo. A vida entregue ao tempo, lento demais para apresentar soluções a curto, médio ou longo prazo. Não havia nenhuma saída visível e nada estava acontecendo. No entanto, lá fora, picaretas e balões de gás. O desenrolar-se enrolado da vida bege como o carpete que personifica o tédio. E o relógio marcando as horas indefinidamente...
Achei bonitinho relembrar. E, para ilustrar, foto tirada por Lúcia Serpa em tarde de lascívia chez Nora Prado, em Porto Alegre, nos anos oitenta.
quarta-feira, 12 de setembro de 2018
CAIO 70
Hoje, 12 de setembro de 2018, Caio Fernando Abreu completaria setenta anos de idade se estivesse vivo. E está mais vivo do que nunca. Pelo menos para mim. Não pretendo me repetir, contando como foi que nos conhecemos e nos tornamos amigos. Basta digitar o nome dele no campo de pesquisa aqui do blog e inúmeros posts aparecerão dando conta de todas essas histórias. Hoje meu intuito é simplesmente homenagear esse importante escritor brasileiro, que deu voz a uma geração de jovens desencaixados do sistema, das convenções, da sociedade. Ah como me era reconfortante descobrir, ainda adolescente, percorrendo as páginas dos seus livros, que eu não estava sozinho no mundo... Serei eternamente grato a meu professor, diretor e amigo Luís Arthur Nunes que nos aproximou e me proporcionou a inesquecível experiência de privar da companhia e da amizade de um dos meus escritores preferidos. Cheguei a conhecer o apartamento em que Caio morava, aqui do lado do meu prédio, na rua Haddock Lobo, onde hoje seríamos vizinhos... Mas já estou a me repetir, tenho quase certeza de que isto eu também já contei aqui no blog. Então, para finalizar, que a memória de Caio permaneça viva e presente na vida de todos nós e dos que virão; que suas obras sejam cada vez mais lidas; que a sua palavra seja sempre passada adiante; que cada vez mais jovens possam ler os seus escritos e descobrir quem foi essa pessoa maravilhosa; e, para encerrar comemorando seu aniversário, gritemos juntos a uma só voz: Viva Caio Fernando Abreu! Viva, viva, viva! E, como sempre é bom citá-lo: Que seja doce...
Na foto, Caio em momento de alegria.
Na foto, Caio em momento de alegria.
domingo, 2 de setembro de 2018
SEPTEMBER-SONG
Que bom que setembro chegou e a boa nova anda nos campos... O mês já entrou com sol e calor antecipando a primavera. E trouxe uma das atrações culturais mais esperadas por mim: A companhia de dança DCA, do coreógrafo francês Philippe Decouflé, no Teatro Alfa. Por incrível que pareça eu, que morei em Paris no começo dos anos noventa, só conheci o trabalho de Decouflé aqui em São Paulo. Mais precisamente em 1996, ano em que mudei para a capital paulista. Mais precisamente ainda, no festival de teatro da saudosa Ruth Escobar. Que naquele ano apresentou Decodex no palco do Teatro Municipal. Foi amor à primeira vista. Fora os trabalhos de criação da companhia, assisti também à direção de Decouflé para o cabaré Crazy Horse de Paris em 2010: Désirs. Que foi, devo dizer, inesquecível. Ou, como dizem os franceses, inoubliable... Agora ele traz Nouvelles Pieces Courtes, sua mais recente criação. Essas trazem a inequívoca marca da sua formação. Decouflé é formado pela École Nationale du Cirque de Annie Fratellini onde, modestamente, euzinho também estudei quando morei na Cidade Luz. Sua dança teatro é profundamente marcada pela figura do clown. As altas doses de humor que essas "peças curtas" apresentam também trazem a marca Fratellini. Fico tão feliz e emocionado de ver tantos pontos em comum, tantas referências e identificações sobre a cena, que me fogem as palavras. Só posso recomendar que assistam. Aliás, nem isso eu posso fazer, posto que hoje foi a última apresentação. Então façam isso: Se informem, procurem saber, joguem no Google, vão a Paris, perguntem à Siri: Who the hell is Philippe Decouflé. A resposta, eu garanto, irá agradar. Ele representa o que há de mais moderno e criativo na dança teatro contemporânea. Ah, o título do post refere-se à canção de Kurt Weill, September-Song...
Na foto, a companhia recebe os merecidos aplausos, Philippe em si ao centro.
Na foto, a companhia recebe os merecidos aplausos, Philippe em si ao centro.
segunda-feira, 27 de agosto de 2018
FRIO AGOSTO
Mais um mês de agosto se aproxima do final. Esse, se não me engano, foi o mais frio agosto dos últimos tempos. E eu adorei. Ainda mais agora que já faz três anos que não vou à Europa, estava mesmo sentindo saudade do frio... Quando o mês de agosto termina, rapidamente temos a chegada da primavera e, num piscar de olhos, o fim do ano com todo o pacote de festas, Natal, Ano Novo, etc. E a vida segue... Aqui na Pauliceia nem o frio é capaz de fazer a gente sossegar o rabo. Abundam atrações, passeios, programas. Fui visitar a exposição de retratos de Bob Wolfenson no Espaço Cultural Porto Seguro. Destaco as belezas estonteantes de Sonia Braga e Vera Fischer em meio a centenas de celebridades retratadas por este mestre da imagem. Fica até dezembro, dá tempo de sobra pra todo mundo ir conferir... Tenho ido com frequência ao teatro, graças a Deus. E melhor, tenho gostado do que vejo, graças aos Deuses! Assim foi com a interessante montagem do Mal Entendido, de Albert Camus, com direção precisa de Ivan Andrade e um excelente elenco encabeçado pela brilhante interpretação de Lara Córdula... Uma divertida e agradável surpresa está incrustada no pequeno Teatro de Arena da rua Teodoro Baima: Normalopatas, escrita e dirigida por Dan Nakagawa, ator e músico que se lança como encenador já cheio de cartas na manga. Uma delícia trash com direito a todos os clichês do gênero que consagrou Ed Wood... Na Casa Donanna, belíssimo palacete situado nos Campos Elíseos, uma divertida imersão no universo de Tenessee Williams: Hotel Tenessee, que faz a gente se sentir em um hotel de verdade enquanto assiste a cenas extraídas de peças do dramaturgo americano... Coisas de São Paulo que vão nos entretendo e a gente nem sente o tempo passar. E vamos em frente que até o fim do ano muita água vai rolar por baixo da ponte, ainda teremos uma sinistra eleição na qual o principal é que consigamos conter Bolsonaro e fazê-lo voltar para as trevas de onde nunca deveria ter saído... E que setembro nos seja leve!
Nas fotos, o inquietante cartaz de Normalopatas e interior do Hotel Tenessee.
Nas fotos, o inquietante cartaz de Normalopatas e interior do Hotel Tenessee.
segunda-feira, 20 de agosto de 2018
A OUTRA MULHER
Sou fã de Daniel Auteuil desde que morei em Paris, no começo dos anos noventa. Ele é um excelente ator de teatro e de cinema e nos últimos anos tem dirigido também. Amoureux de Ma Femme, seu mais recente filme, é uma deliciosa comédia de casais, bem nos moldes dos filmes de Woody Allen, de quem também sou fã declarado. Aqui no Brasil o filme recebeu o título de A Outra Mulher. Que vem a ser uma adaptação da peça L'Envers du Décor, que Daniel protagonizou no teatro. Fui por acaso ao cinema no meio da tarde de segunda-feira, como normalmente faço. E não poderia ter feito escolha melhor: Era exatamente o que eu buscava! Diversão, beleza, Paris, bons diálogos, excelentes atores e muitas risadas. Um filme leve, curto, extremamente agradável de se assistir. Adorável, numa palavra. Ou adorable, como dizem os franceses... Daniel continua très en forme. Lembro de tê-lo visto no teatro em uma montagem de Les Fourberies de Scapin, de Molière. Ele estava no auge da sua carreira no cinema, uma grande estrela, e voltava aos palcos com uma performance de tirar o fôlego. Desde então eu segui prestando atenção aos seus trabalhos. Hoje, maduro e de cabelos grisalhos, segue cheio de charme e com o timming cômico ainda mais apurado. Seu partner em cena nesse filme é Gérard Depardieu, outra lenda viva do cinema francês. Um levanta a bola e o outro corta, um passa e outro chuta em gol. Some-se os talentos de Sandrine Kiberlain e da belíssima Adriana Ugarte e o pacote está completo. Imperdível, para dizer o mínimo. Um filme de atores, de atuações. Excelente para quem gosta de uma boa historia e boas interpretações.
Na foto, da esquerda para a direita: Daniel Auteuil, Sandrine Kiberlain, Adriana Ugarte e Gérard Depardieu em cena de A Outra Mulher.
Na foto, da esquerda para a direita: Daniel Auteuil, Sandrine Kiberlain, Adriana Ugarte e Gérard Depardieu em cena de A Outra Mulher.
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