domingo, 18 de novembro de 2018

SANGUE LATINO

Domingo que finda ao som de Billie Holiday. Borbulhas na flûte de champanhe. Luz difusa de abajur. Palmeiras no vaso de canto. Brisa amena que sopra, agora que já choveu, ventou e fez calor... Andei lendo sobre a criação do perfume mais famoso do mundo, o Chanel Número Cinco. Na verdade o livro é sobre o amor, a superação de uma grande perda e a capacidade de se reinventar. Chama-se Mademoiselle Chanel e o cheiro do amor, da escritora alemã Michelle Marly, e já me referi a ele no post anterior. Agora o mês de novembro segue com a leitura das memórias de Ney Matogrosso, Vira-lata de Raça. E que raça. Desde pequeno ele já disse a que veio. Sozinho. No osso. E o melhor: Sem discursos ou siglas. Apenas com atitudes. Isso em tempos bem mais bicudos do que os que vivemos hoje. Há quem prefira se lamentar. E há quem, como Ney, prefira seguir em frente escrevendo a própria história com coragem e, claro, muito talento. Agora que já provou que dá certo, ele nos deleita com suas lembranças... E, no clima da latinidad de Ney, Billie já deixou a vitrola e a sala foi invadida por Bandido Corazón, pérola que Rita Lee deu de presente para o nosso camaleão tropical. Graças aos deuses eu tenho uma caixa com todos os álbuns dele em CD. Assim posso passear por essa trajetória de sucessos. Diz-se que a carreira artística é feita de altos e baixos. A de Ney, exceção que confirma a regra, parece ter tido somente altos. E persiste através de décadas. Sempre atual. Coisa boa. Viva Ney! Eu já vinha latino à beça nos últimos dias. Embalado pela leitura dos contos de Caio a que me referi no post solitário do mês anterior, andei escutando Fina Estampa, de Caetano, em shuffle e em repeat jusq'à la mort. Agora é um tal de Paranpanpan, Trepa No Coqueiro e muito, muito Bandido Corazón. Pra quem não sabe, meu chará Roberto, marido de Rita, ainda integrava a banda Terceiro Mundo, de Ney, nesse álbum. Mas isso já é outra história. Agora, gaivota querida, voa numa boa...
Nas fotos, as finas estampas de Ney & Caetano.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

NOVEMBRO DELIRANTE

Finalmente o mês de novembro chegou. E, com ele, novos ventos varrendo a ressaca pós -eleitoral e trazendo de volta outros assuntos, possibilidades, visões. Já adentrei o penúltimo mês do ano visitando a exposição Raiz, do artista chinês Ai Weiwei, na Oca do Ibirapuera. De encher os olhos, a alma, o coração. Se a Bienal, que eu havia visitado dias antes, pouco ou nada tinha me dito, a exposição de Weiwei disse tudo. E calou fundo. Eu, que já andava cansado de assistir a processos em vez de resultados, que não aguentava mais tanto conceito para tão pouca arte, nessa exposição me deleitei: Ai Weiwei consegue unir conceito e arte, ativismo e denúncia, resistência e questionamento, sem deixar de fora algo que para mim é fundamental em qualquer manifestação artística: A beleza. Ela está presente em cada micro-detalhe das flores de porcelana que compõem a gigantesca obra Florescer ou nas milhares de Sementes de Girassol também esculpidas em porcelana. E no impacto mudo do imenso barco de refugiados esculpido em plástico negro em que navegam homens, mulheres e crianças sem rosto. Para ser vista e revista, a exposição fica na Oca até janeiro de 2019. Não vá perder... No feriado, uma rápida escapada até o reconfortante La Figueira, em Piracaia, para visitar nossos amigos Rodrigo et Thomas, respirar ar puro e, luxo dos luxos, ouvir o silêncio. Claro que entremeado de drinks, conversas, mergulhos, caminhadas, risadas, comidinhas e música. Rodrigo me apresentou a delícias musicais que eu ainda não conhecia como No Porn e Letrux. Auto-estima delirante. Maiô da Mulher Maravilha. A lantejoula apareceu de novo... De volta à Pauliceia, o não menos delirante Bohemian Rhapsody, filme que narra a trajetória de Freddie Mercury desde o surgimento do Queen até a participação no mega concerto Live Aid. Filme espetáculo, para ser assistido no cinemão clássico, com tela grande e dolby surround sound stereo... Agora sigo novembro adentro devorando o livro Mademoiselle Chanel e o Cheiro do Amor, da escritora alemã Michelle Marly. A história conta como a estilista Coco Chanel supera a perda de seu grande amor Boy Capel tornando realidade o projeto de ter a sua própria eau de toilette: O famoso perfume Chanel No 5. O livro, perfumado e de fácil leitura, é rico em detalhes descritivos da Paris da época e tem um agradável tom de folhetim que prende a atenção desde o primeiro capítulo. E, por falar em livros, eles andaram em alta na campanha presidencial. Até gente que eu sei que nem lê postou selfies com algum exemplar. Esse foi, a meu ver, um legado positivo das eleições. Eu, que sou leitor compulsivo, considero que a aproximação das pessoas com obras literárias, ainda que por razões controversas, sempre será positiva. De alguma forma, um livro sempre irá ajudar, acrescentar, engrandecer. Se por mais não for, pela simples leitura de suas orelhas ou contracapa... E vamos em frente pois, como disse Gilbero Gil em seu ótimo programa no Canal Brasil, o rio da História é caudaloso e não há abismo em que o Brasil caiba...
Nas fotos, as delicadas flores de Ai Weiwei, o cartaz de Bohemian Rhapsody e a capa do perfumado livro de Michelle Marly.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

OUTUBRO OU NADA

Tenho passado os dias na companhia de Caio Fernando Abreu. Dessa vez são suas narrativas breves, reunidas em Contos Completos, uma linda edição de quase oitocentas páginas da Companhia das Letras. E por falar em companhia, tenho andado tão sozinho. Estou me sentindo tão só nesse mês de outubro. Como nunca antes. Sem grupo, sem pares, sem turma. Desencaixado. Sem público, sem espetáculo. Até mesmo sem assunto, posto que, nesse mês, o assunto é um só: Há uma divisão política no Brasil, uma polarização. A confrontar amigos e familiares, tribos e segmentos. Eu, que não me sinto representado por nenhuma das partes, amargo uma solidão inaudita. Fico no meu canto, quieto, na companhia desses muito bem vindos Contos Completos... Já reli muitas coisas, descobri outras que para mim permaneciam inéditas e redescobri outras tantas que lera e já não me lembrava onde. Em qual livro. Agora estão todos juntos, reunidos em um só. Do Inventário do Ir-remediável a Ovelhas Negras. E outros ainda. E inéditos. O ovo, os morangos, os dragões. Descobri as Pedras de Calcutá que, como bem definiu Luís Arthur Nunes, são preciosas. Nelas encontrei o contundente Caçada. No Inventário, o delicado Meio Silêncio. Nas Ovelhas Negras, os surpreendentes Uma História Confusa, Sob o Céu de Saigon e, pérola das pérolas, Depois de Agosto. Escrito por Caio já doente, no começo de 1995, transbordante de lirismo e referências, bem humorado mesmo na eminência de. Para ser lido ao som de Contigo en la Distancia... É em momentos como esse, de solidão e desalento, que a literatura me salva. Além de em todos os outros. Mas nesses, especialmente, não só a literatura como a arte em si, o teatro, a pintura, o cinema, a fotografia e, sobretudo o humor, salvam. Sempre. E por que sempre é bom, por que a cada vez revela e espanta, por que encanta e modifica e faz crescer, por que torna os dias mais doces ou amargos, por que semeia os mais áridos terrenos, percorre os recônditos mais sombrios, por tudo isso e ainda mais que aqui não caberia, leio releio lerei relerei para sempre Caio Fernando Abreu...
Na foto, a bela edição dos Contos Completos da Companhia das Letras.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

MEMÓRIA ENCENADA

Finalmente consegui preencher uma lacuna imperdoável que havia na minha formação teatral: Assistir a um espetáculo de Robert Lepage. E foi com o intrigante 887, que ele está apresentando em São Paulo, no Sesc Pinheiros, com a sua companhia Ex Machina. A peça trata da memória, esse tema que me é tão caro e do qual muito já falei aqui no blog. Lepage se lançou na pesquisa sobre os labirintos da memória justamente quando se viu em dificuldade para decorar um poema que se propôs apresentar em uma cerimônia. Quando começou sua, digamos viagem, foi imediatamente transportado para o prédio onde viveu sua infância, o número 887 da Avenue Murray, no Quebec. É claro que eu, enquanto assistia ao espetáculo, fiquei também me transportando para o 1414 da Avenida Marechal Floriano em Soledade, onde nasci e vivi minha infância, para o 1271 da Rua Garibaldi em Porto Alegre, onde passei minha juventude, e para o 18 da Rue des Écouffes em Paris, onde morei no começo dos anos noventa e vivi uma espécie de segunda juventude que dura até hoje... Enquanto escrevo já fico me perguntando como discorrer sobre tão interessante assunto sem me alongar. Lepage segue contando que se utilizou, na tentativa de memorizar o tal poema, de uma técnica na qual você distribui as partes do texto em cômodos de uma casa ou de um local do passado que se lembre com exatidão. E imediatamente me vi percorrendo ambientes da casa da minha avó, com uma riqueza de detalhes que quase atrapalhou minha atenção no espetáculo a que assistia... E quando cheguei em casa e me deitei para dormir a viagem ao passado seguiu firme e forte. O centenário de Soledade, com a inauguração do Parque de Exposições, a visita do governador, o ônibus que exibia a Mulher Tarântula da Amazônia; o Teatro Serelepe, com seus melodramas, comédias, tragédias e shows de calouros; as aulas de piano chez Dona Amélia Triches, os desfiles de Sete de Setembro, as viagens com o time de handball, a excursão a Porto Alegre com a turma da sétima série... Quem como eu trabalha com teatro sabe do constante esforço de manter viva a memória, do quanto ela é importante não só para que o espetáculo se realize, mas para que se perpetue no coletivo, uma vez que é uma arte efêmera, que só pode ser vista enquanto está acontecendo. Um dos sonhos recorrentes que tenho é que preciso entrar em cena e não sei uma só linha do texto que irei apresentar. Vocês que me leem não imaginam o pavor que isso representa para um ator... Mas, fora todo o meu interesse pessoal pelo assunto abordado por Robert Lepage em seu espetáculo, vale destacar o espetáculo em si. Uma obra-prima, uma viagem de encantamento e precisão cênica de cair o queixo. O palco como uma caixa mágica que une imaginação, poesia, efeitos tecnológicos, ilusionismo, cinema, projeções, carpintaria teatral de primeira e, acima de tudo, muito, mas muito talento. Quando a apresentação termina e ele entra para receber os aplausos, a gente percebe que, apesar dele estar sozinho em cena o tempo todo, não se trata de um solo, há muitas pessoas por trás fazendo a mágica acontecer. Cerca de dez artistas são chamados ao palco para gradecer com ele. E fazem jus ao nome da companhia: Ex Machina... Em cartaz só até domingo. Corre!

terça-feira, 25 de setembro de 2018

CONTO JUVENIL


Inspirado pela mais recente modinha das redes sociais, digo anti-sociais, remexendo guardados encontrei esse micro-conto que escrevi quando contava apenas púberes vinte aninhos. Chama-se COMPASSO:
O relógio já havia marcado muitas horas e continuaria marcando-as indefinidamente dentro do processo que era estar a vida transcorrendo a partir dos seus sentidos e impressões naquela tarde. No prédio ao lado o barulho das picaretas dos pedreiros dava a dimensão da vida que se andava levando. Naquele momento a visão do dia de sol e vento - que balançava as árvores arrancando-lhes as folhas - não era agradável. O som da vida que se desenrolava - ou se enrolava - do lado de fora produzia um forte sentimento de angústia e não-participação do lado de dentro. Tudo o que estivesse ao alcance - sons, imagens, cheiros, lembranças - de nada valia, pra nada adiantava. Agora era marcar passo no mesmo lugar ou ir adiante. A sensação era a de um condenado à morte pela forca, tal qual ela é descrita nos livros inteligentes. Teseu perdido em um labirinto - agora com elevadores - incapaz de matar o Minotauro, acertar o alvo, chegar na frente e romper a linha de chegada. Crianças passam carregando balões de gás e acreditando em super-heróis. E os policiais registram novas queixas em seus arquivos. O carpete era de um tom bege que personificava o tédio. A solidão pesando como um jeans molhado colado ao corpo. A vida entregue ao tempo, lento demais para apresentar soluções a curto, médio ou longo prazo. Não havia nenhuma saída visível e nada estava acontecendo. No entanto, lá fora, picaretas e balões de gás. O desenrolar-se enrolado da vida bege como o carpete que personifica o tédio. E o relógio marcando as horas indefinidamente...
Achei bonitinho relembrar. E, para ilustrar, foto tirada por Lúcia Serpa em tarde de lascívia chez Nora Prado, em Porto Alegre, nos anos oitenta.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

CAIO 70

Hoje, 12 de setembro de 2018, Caio Fernando Abreu completaria setenta anos de idade se estivesse vivo. E está mais vivo do que nunca. Pelo menos para mim. Não pretendo me repetir, contando como foi que nos conhecemos e nos tornamos amigos. Basta digitar o nome dele no campo de pesquisa aqui do blog e inúmeros posts aparecerão dando conta de todas essas histórias. Hoje meu intuito é simplesmente homenagear esse importante escritor brasileiro, que deu voz a uma geração de jovens desencaixados do sistema, das convenções, da sociedade. Ah como me era reconfortante descobrir, ainda adolescente, percorrendo as páginas dos seus livros, que eu não estava sozinho no mundo... Serei eternamente grato a meu professor, diretor e amigo Luís Arthur Nunes que nos aproximou e me proporcionou a inesquecível experiência de privar da companhia e da amizade de um dos meus escritores preferidos. Cheguei a conhecer o apartamento em que Caio morava, aqui do lado do meu prédio, na rua Haddock Lobo, onde hoje seríamos vizinhos... Mas já estou a me repetir, tenho quase certeza de que isto eu também já contei aqui no blog. Então, para finalizar, que a memória de Caio permaneça viva e presente na vida de todos nós e dos que virão; que suas obras sejam cada vez mais lidas; que a sua palavra seja sempre passada adiante; que cada vez mais jovens possam ler os seus escritos e descobrir quem foi essa pessoa maravilhosa; e, para encerrar comemorando seu aniversário, gritemos juntos a uma só voz: Viva Caio Fernando Abreu! Viva, viva, viva! E, como sempre é bom citá-lo: Que seja doce...
Na foto, Caio em momento de alegria.

domingo, 2 de setembro de 2018

SEPTEMBER-SONG

Que bom que setembro chegou e a boa nova anda nos campos... O mês já entrou com sol e calor antecipando a primavera. E trouxe uma das atrações culturais mais esperadas por mim: A companhia de dança DCA, do coreógrafo francês Philippe Decouflé, no Teatro Alfa. Por incrível que pareça eu, que morei em Paris no começo dos anos noventa, só conheci o trabalho de Decouflé aqui em São Paulo. Mais precisamente em 1996, ano em que mudei para a capital paulista. Mais precisamente ainda, no festival de teatro da saudosa Ruth Escobar. Que naquele ano apresentou Decodex no palco do Teatro Municipal. Foi amor à primeira vista. Fora os trabalhos de criação da companhia, assisti também à direção de Decouflé para o cabaré Crazy Horse de Paris em 2010: Désirs. Que foi, devo dizer, inesquecível. Ou, como dizem os franceses, inoubliable... Agora ele traz Nouvelles Pieces Courtes, sua mais recente criação. Essas trazem a inequívoca marca da sua formação. Decouflé é formado pela École Nationale du Cirque de Annie Fratellini onde, modestamente, euzinho também estudei quando morei na Cidade Luz. Sua dança teatro é profundamente marcada pela figura do clown. As altas doses de humor que essas "peças curtas" apresentam também trazem a marca Fratellini. Fico tão feliz e emocionado de ver tantos pontos em comum, tantas referências e identificações sobre a cena, que me fogem as palavras. Só posso recomendar que assistam. Aliás, nem isso eu posso fazer, posto que hoje foi a última apresentação. Então façam isso: Se informem, procurem saber, joguem no Google, vão a Paris, perguntem à Siri: Who the hell is Philippe Decouflé. A resposta, eu garanto, irá agradar. Ele representa o que há de mais moderno e criativo na dança teatro contemporânea. Ah, o título do post refere-se à canção de Kurt Weill, September-Song...
Na foto, a companhia recebe os merecidos aplausos, Philippe em si ao centro.