Eu, que ingenuamente pensei que o mau gosto tivesse atingido o seu ápice nas saídas de praia rendadas, com brilhos e plumas, descubro estarrecido que, junto ao mar, ele pode ir ainda muito mais além. A primavera verão 2019 acaba de trazer a Ilhabela o sutiã de biquíni com babados. São inacreditáveis quatro camadas de babados em cada peito. Nem sei dizer com o que se parece, porque não se parece com absolutamente nada que eu já tenha visto nessa encarnação. Lembram do shortinho de renda em camadas que parecia uma capa de botijão de gás? Pois é, foi superado... E a moça que está ao meu lado na praia está usando um modelo AMARELO! Deus é mais. Só o humor é capaz de nos salvar... O fato é que estamos passando uns dias em Camburi e resolvemos vir passar o dia em Ilhabela para matar a saudade. E ela continua bela. Melhor dizendo, belíssima. Malgrado o mau gosto estético de alguns visitantes. Se é que se pode dizer que mau gosto seja estético...
O tempo passou e já estou de volta em casa. Fui recebido por uma São Paulo fria, escura e chuvosa. O oposto total dos dias ensolarados passados na praia. Mas fui surpreendido por um filme coreano maravilhoso. Parasita. Não sei como consegui arranjar ânimo para sair de casa numa tarde chuvosa para ir ao cinema. Ainda bem que fui. Envolvente e surpreendente do início ao fim. Vai da comédia à tragédia, passando pelo triller e pelo nonsense para terminar de forma completamente poética. Um presente de fim de ano. Palmas para Bong Joon-ho, roteirista e diretor. Aliás, mais do que simplesmente palmas: A Palma de Ouro, que ele já abocanhou no Festival de Cannes. Fica a dica para esse novembro que praticamente termina. À bientôt!
Nas fotos, o sol sobre o mar de Ilhabela e a chuva sobre a Rua Augusta, em São Paulo.
quinta-feira, 28 de novembro de 2019
sexta-feira, 22 de novembro de 2019
DIA DE CHUVA
Acabo de sair do cinema. Fui assistir ao novo filme de Woody Allen, Um Dia de Chuva em Nova Iorque. No original, Rainy Day in New York. Amo o título. E devo confessar que já sabia que iria amar o filme também. Aliás, vou confessar algo ainda mais grave. Um furo de reportagem: Na minha cabeça eu vivo como numa espécie de filme deste cineasta. Entre parques, rooftops e piano-bares, tomando drinks e, invariavelmente, ouvindo jazz. Porter, Berlin, Gershwin. Agora mesmo, que cheguei em casa a tempo de escapar do toró que se anunciava, escrevo ouvindo Nat King Cole e bebendo uísque... Romântico e cômico na medida, como sempre. Um personagem central que é uma espécie de alter-ego do diretor e roteirista, como sempre. Nova Iorque como cenário, como quase sempre. Só que, dessa vez, um elenco surpreendentemente jovem. A começar pelos protagonistas: Timothée Chalamet (de Call me by Your Name), Elle Fanning e Selena Gomez. A trilha sonora traz, como tema da vez, Everything Happens to Me. Em várias versões, inclusive tocada ao piano e cantada pelo próprio protagonista. Nada mal para um fim de tarde de sexta-feira em uma São Paulo que chove quase diariamente. Digam o que disserem de Woody Allen, ele continua sendo, ao lado de Pedro Almodóvar, um dos meus cineastas preferidos. Dos poucos que me fazem sair de casa para assisti-los. Não obstante um certo machismo mal disfarçado, ao retratar as mulheres bonitas e desejáveis como burras. Ainda que de forma light, isso se evidencia em vários momentos do filme. Como quando o protagonista cita "in the roaring traffic's boom, in the silence of my lonely room", de Cole Porter, e a mocinha pensa que é Shakespeare... Mas é sempre um deleite assistir a uma película nova de Allen. Pena que o tempo esteja passando depressa demais e logo não teremos mais filmes novos dele para assistir. Como os personagens dizem, a certa altura do filme:
- O tempo voa.
- Pena que seja de classe econômica.
- O que isso quer dizer, exatamente?
- Que a viagem nem sempre é confortável.
Ainda bem que temos filmes novos de Woody Allen a cada ano. Isso faz com que a nossa viagem seja mais confortável. Pelo menos a minha viagem pessoal...
Na foto, o protagonista Timothée Chalamet como uma espécie de Woody Allen jovem.
- O tempo voa.
- Pena que seja de classe econômica.
- O que isso quer dizer, exatamente?
- Que a viagem nem sempre é confortável.
Ainda bem que temos filmes novos de Woody Allen a cada ano. Isso faz com que a nossa viagem seja mais confortável. Pelo menos a minha viagem pessoal...
Na foto, o protagonista Timothée Chalamet como uma espécie de Woody Allen jovem.
sábado, 16 de novembro de 2019
DELICADEZAS
Sou fã da cantora Evinha, que há muito tempo vive em Paris. Quando criança eu adorava cantar o hit Luciana, que ela emplacara no Festival Internacional da Canção, nos shows de teatro que fazia no porão de casa. De uns tempos para cá tenho ouvido seus álbuns antigos no YouTube. Amo tudo o que ela gravou de Beatles e Michael Jackson. Mais tudo o que gravou da nossa MPB. E do cancioneiro internacional. Só não conheço o que ela cantava com o Trio Esperança, formado com os irmãos. Agora, finalmente, tive a oportunidade de vê-la cantar, ao vivo, sobre o palco. Foi no Teatro Italia, no centro de São Paulo, na última terça-feira, acompanhada ao piano pelo marido Gérard Gambus. No repertório, canções do nosso hitmaker mor Guilherme Arantes. Um luxo. Evinha é tranquila. Mostra logo a que veio. Comunica. Simplifica. Apazigua... Em tempos de ataques explícitos, deselegâncias e ironias nada finas, ela apresenta delicadezas. Dá novos sentidos às letras já coloridas de Guilherme Arantes. Pinta e borda filigranas. Que prazer. Que sorte a minha e de todas as pessoas que compareceram àquela terça nada insana... Estava tudo lá: De Êxtase a Cuide-se Bem, passando por Um Dia Um Adeus - que parece ter sido composta para a voz de Evinha- e mais Brincar de Viver, Deixa Chover e outras tantas. No final, um brinde com antigos hits como Teletema e Casaco Marron. Um deleite. Aplausos também para o produtor Thiago Marques Luiz, sempre nos presenteando com shows das estrelas da nossa canção popular. Saí do espetáculo com a certeza de que amanhã a luminosidade, alheia a qualquer vontade, há de imperar...
Nas fotos, Evinha sur la scène e a contracapa autografada do CD.
Nas fotos, Evinha sur la scène e a contracapa autografada do CD.
domingo, 10 de novembro de 2019
ON THE ROAD
Sexta-feira. Mês de novembro. Ano que termina. A van que nos leva para uma apresentação em Poços de Caldas entra agora em um engarrafamento na estrada. Chove. A tarde cai rapidamente. Várias cidades se sucedem a pouca distância umas das outras. Nas redes sociais memes indicam que finalmente "sextou". E que Lula poderá sair da prisão. Procuro no YouTube uma versão rap da música Cavalgada, de Roberto Carlos, que toca no final do filme francês Encontros, a que assisti recentemente. Me dou conta de que estou sempre procurando alguma coisa na internet. E mal consigo lembrar como é que eu conseguia viver sem essas procuras quando ainda não havia internet. Parece que foi ontem, mas já está tão distante esse tempo, essa realidade. Saimos do engarrafamento. A chuva engrossa. Daqui a pouco vamos parar para um café, um lanche, fazer xixi, essas coisas que se faz na estrada. Leio Patti Smith. O Ano do Macaco. Sua escrita me inspira. Parece mentira que essa escritora que adoro tenha lançado dois livros de uma só vez. Esse e também Devoção, que li muito devotamente. É uma pena que não vou estar em São Paulo justamente no dia em que ela vai se apresentar em um festival e lançar os livros batendo um papo com os leitores no Sesc Pompeia. C'est dommage. Uma lástima. Mas, na verdade, não sei se iria mesmo se estivesse em Sampa na data. Ando avesso a eventos populares. Tudo que reúna mais de cem pessoas me espanta. Prefiro ficar comigo e com meus botões. Já fizemos a parada. No Frango Assado. Comi uma empada (de frango) e um pão de queijo. Sem requeijão. Não havia nenhuma bebida alcoólica para vender no Frango Assado. E esse fim de tarde de sexta-feira clamando por um drink... Já anoiteceu. A chuva arrefeceu. Seguimos viagem em direção a Poços de Caldas. Em direção ao fim do ano. Em direção a... Corte de tempo. Já estou de novo em São Paulo. A viagem de volta foi tranquila e incrivelmente rápida. Nem parecia o mesmo trajeto. Nossa apresentação em Poços de Caldas foi no Teatro Urca, onde já se apresentou Carmen Miranda. Um lugar lindo. Mas, infelizmente, em adiantado estado de depredação. Por que tudo nesse país tem de ser assim? Há quase vinte anos percorro o Brasil inteiro fazendo teatro e é sempre a mesma coisa: Teatros estaduais ou municipais jogados às traças. Os que funcionam, inevitavelmente, são os mantidos pela iniciativa privada. Há quem seja contra... Saúdo o mês de novembro, que se inicia pródigo em efemérides. Essa semana mesmo, volto a Porto Alegre para duas apresentações no histórico e amado Teatro São Pedro. E, depois de vinte e três anos morando em São Paulo, pela primeira vez estarei de volta à cidade na Feira do Livro. Vida que segue...
Nas fotos, interior das Thermas Antônio Carlos, que merecerão post especial, e a lua tímida espiando no céu de Sampa.
Nas fotos, interior das Thermas Antônio Carlos, que merecerão post especial, e a lua tímida espiando no céu de Sampa.
quinta-feira, 7 de novembro de 2019
ENCONTROS
Sempre que estou morrendo de saudades de Paris, tendo surtos, palpitações, crises de abstinência, procuro algum programa que, por aqui mesmo, alivie mon petit coeur. Foi assim que decidi assistir ao filme Encontros, de Cédric Klapisch. Na verdade eu já havia sido atraído pelo cartaz, que mostra um jovem casal com a vista do Sacre-Coeur ao fundo. O rapaz é o ator François Civil, de quem sou fã desde que assisti à série Dix Pour Cent, no Netflix. Agradabilíssima surpresa. O tema, um dos meus favoritos: A solidão das grandes cidades. Só que aqui, abordado do ponto de vista dos jovens. Como cada um lida com a própria solidão. De que maneira cada um deles tenta superar as dificuldades da vida adulta. Rémi e Melánie são vizinhos, não se conhecem, estão sempre por um triz para que aconteçam os tais encontros do título. Mas o que vemos é uma série de desencontros. Ela dorme muito. Ele é insone. Ela tenta vários dates por aplicativos de relacionamentos. Ele se isola. Ambos procuram, por razões diferentes, psicoterapeutas. A história se passa em uma Paris surpreendentemente urbana, jovem, tecnológica e - malgré a alcunha de Cidade Luz - obscura. Totalmente oposta ao clichê romântico de cartão postal tão largamente explorado pelo cinema do mundo inteiro... Outra agradável surpresa: Camille Cottin, a Andrea de Dix Pour Cent, como a psicanalista da personagem Melánie. E Pierre Niney, que viveu Yves Saint Laurent no filme homônimo, como um amigo mala que o personagem Rémi reencontra pelo Facebook. Parece aqui, não? Aliás, parece com qualquer lugar do mundo... Eu, que vivi uma Paris bem mais tête à tête, cujos matchs se davam ao vivo, em lugares direcionados à paquera ou a outros tipos de relacionamentos, fiquei bastante surpreso. Primeiro porque nem me lembrava que solidão é um assunto que também diz respeito aos jovens. Segundo, porque nem havia internet quando eu fui jovem em Paris... Pra não dizer que só falei bem: Há um erro grave de continuidade. Quando os prédios aparecem no térreo, com os personagens entrando nas portarias, o dela fica à direita da imagem e o dele, à esquerda. Quando eles estão em casa, ele na sacada e ela na janela da chambre de bonne, estão ao contrário, como na foto que ilustra o post. Será que só eu percebi? Rsrsrs... Ah, quase me esquecia: Tem um gatinho tão fofo, mas tão fofo, que rouba as cenas em que aparece. E o árabe do mercadinho, que dá palpites e conhece toda a vizinhança e arredores. Mais a cara de Paris, impossível... Last, but not least: No final do filme, já nos créditos, uma versão remix de Cavalgada, do Rei Roberto, cantada em português. Chorei...
Na foto, os jovens solitários Rémi e Melánie em Paris. Bem que eu gostaria de um pouco de solidão em Paris agora.
Na foto, os jovens solitários Rémi e Melánie em Paris. Bem que eu gostaria de um pouco de solidão em Paris agora.
segunda-feira, 28 de outubro de 2019
IMPERMANÊNCIA
Há dias uma dor lombar do lado direito me impede de ir à academia treinar. Não há nada pior para um taurino do que algo que o impeça de cumprir a sua rotina diária... Me cai às mãos um raio de esperança e de inspiração: Um novo livro de Patti Smith. Devoção. E é com incontida devoção que me debruço sobre ele... Acordo de madrugada com uma chuva forte que lava a cidade. Volto a dormir. Quando finalmente me levanto, ao abrir o celular encontro a triste notícia: Morreu Jorge Fernando. Parte da vida volta em flash-back. Eu muito jovem, recém-saído de Soledade para estudar na capital, Porto Alegre, acompanhando o seriado Ciranda Cirandinha pela televisão. Depois vieram Guerra dos Sexos, Vereda Tropical, Cambalacho, Brega & Chique, Que Rei Sou Eu, Rainha da Sucata e tantas outras novelas. Como não amar, mesmo à distância, essa figura iluminada e iluminadora? Mais tarde, já morando em São Paulo, fui com meu amigo Edson Cordeiro assistir ao espetáculo Boom, que ele protagonizava, aqui perto de casa, no teatro Procópio Ferreira, onde hoje me apresento com a Terça Insana. Edinho me levou ao camarim depois da apresentação e cheguei a ser apresentado a ele, rapidamente, em meio a uma profusão de fãs e amigos que disputavam sua atenção... Um dos meus sonhos nessa vida era trabalhar com ele. Esse, infelizmente, não deu tempo de realizar. Mas o que fazer, senão seguir em frente tentando realizar outros tantos? Cheguei a ser chamado para fazer uma participação no seriado Macho Man, de Fernanda Young e Alexandre Machado, do qual ele era o protagonista. Mas um problema de agenda me impediu de participar. No dia da gravação eu tinha apresentação do meu espetáculo solo em São José do Rio Preto... Impermanência. Vida que segue. Minhas referências. Meus ídolos. Minhas fontes de inspiração... Agora vou à farmácia comprar remédio para a dor na lombar. Depois, fazer compressa com a bolsa de água quente. Felizmente, ainda tenho Patti Smith...
Nas fotos, o sorriso inesquecível de Jorge Fernando e Patti Smith na capa de Devoção.
Nas fotos, o sorriso inesquecível de Jorge Fernando e Patti Smith na capa de Devoção.
quarta-feira, 23 de outubro de 2019
DOMINGO NO TEATRO
Dia desses fui assistir ao espetáculo Velórios, que a minha amiga Patrícia Vilela dirigiu com seus alunos. Era uma tarde de domingo, sem maiores expectativas, mas que acabou se revelando única e inesquecível. Já, já eu falo do espetáculo em si. Primeiro quero falar do prazer que foi conhecer pessoalmente o ator Reinaldo Gonzaga. Fomos apresentados e nos sentamos juntos no café do teatro após a função bebendo, rindo e conversando. Reinaldo tem uma voz incrivelmente grave, tão encorpada que a gente tem a impressão de estar ouvindo Deus falar. E como ele fala pausadamente, com voz baixa e muito bem articulado, contando histórias interessantíssimas, não tem como a gente não ficar prestando atenção. Enquanto ouvia, eu ficava olhando pra ele e lembrando de quando eu era criança em Soledade e já era fã, não apenas dele, mas também do pai dele, o grande ator Castro Gonzaga. Seu Castro imortalizou coronéis que representou em novelas como Gabriela e Saramandaia. Além de achar Reinaldo um ótimo ator, lembro que eu também o achava bonito. Sentia por ele algo que à época eu não conseguia entender o que era, mas que hoje imagino que fosse atração... Pois bem, ele tinha ido assistir à peça porque vai ser dirigido pela Patrícia em um monólogo que irá montar. Agora vamos ao espetáculo, os tais Velórios. Um texto interessantíssimo, escrito por cinco autores diferentes. São cinco histórias, todas elas passadas em velórios, com os mesmos personagens, sendo que em cada uma delas é um dos personagens que morre. E elas são ligadas por textos que versam sobre a morte, ditos em solos pelos diferentes atores. O que constitui um fio condutor que dá unidade ao todo. Os alunos de Patrícia revelam-se ótimos atores, todos muito talentosos e versáteis, acalentadoras promessas de que nosso ofício irá se manter por muitos anos ainda. Evoé! Patrícia, que é uma excelente atriz, surge à frente de sua jovem companhia como uma diretora firme e certa do que pretende realizar. Como diria minha professora de direção Irene Brietzke, tem postura de diretor. E diz logo a que veio. Já estou na fila para ser dirigido por ela logo depois do Reinaldo... Ficamos um bom tempo lá, bebendo, rindo e jogando muita conversa fora. Quando o domingo já findava, voltei para casa pensando nas voltas que a vida dá. Em como nem passava pela cabeça daquele menino do interior do Rio Grande do Sul que eu era sentar um dia na mesma mesa e trocar tantas ideias com um ator como Reinaldo Gonzaga, que eu via na tela da televisão lá na remota Soledade da minha infância. A vida é mesmo bela e cheia de descobertas. Que fenômeno incrível é a gente estar nela. E saber aproveitar cada dia...
Nas fotos eu, bobo de tão alegre com o Reinaldo e com minha amiga, a diretora e atriz Patrícia Vilela.
Nas fotos eu, bobo de tão alegre com o Reinaldo e com minha amiga, a diretora e atriz Patrícia Vilela.
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