Já quase me esquecia de comentar aqui, mas ainda dá tempo: A exposição Ser Estar Sergio Rodrigues, do Itaú Cultural, precisa ser visitada e fica até o dia o dia 05 de agosto. Fui para conhecer um pouco mais do trabalho do criador da famosa poltrona Mole e do banco Mocho. Chegando lá, me deparei com uma agradável surpresa: Sérgio é filho de Roberto Rodrigues, de quem eu já era fã, e pude apreciar de lambuja várias obras do pai. Desenhos, pinturas e gravuras do grande pintor e ilustrador que era irmão de Nelson Rodrigues, por sua vez tio de Sergio. Esse post, não por acaso, está parecendo uma trama Rodrigueana... Mas é isso, a exposição precisa mesmo ser vista. Até pela curadoria de Daniela Thomas, Mari Stockler, Felipe Tassara e Fernando Mendes, que suspenderam os móveis e objetos numa altura que proporciona uma visão bem mais detalhada. São vários ambientes e em alguns deles a gente pode até sentar e desfrutar do conforto das peças. O design brasileiro que você respeita nos representando no melhor estilo "o Brasil que eu quero"... É quando o dito popular se faz mais verdadeiro: Quem sai aos seus não degenera. Ou filho de peixe, peixinho é. Ou até mesmo: O fruto não cai muito longe da árvore. Bem, chega de enrolar. Era só pra avisar que ainda dá tempo. Ah! E as obras de Roberto, o pai, valem a pena. Uma delas, a minha preferida, se chama O Elogio da Cocaína. E o próprio Sergio, além de designer, era também ilustrador. Como comprova o auto-retrato intitulado Sergio do Roberto, uma das fotos que ilustra o post. Corre que o bagulho é sinistro...
Nas fotos, Sergio repousa sobre a sua famosa criação, o retrato do pai assinado por Portinari e o próprio auto-retrato.
quinta-feira, 26 de julho de 2018
sábado, 21 de julho de 2018
JE SUIS NANETTE
Nem só de machismo e piadas preconceituosas se alimenta o stand up comedy. Aliás, isso que se pratica por aqui com o nome de stand up nada mais é do que uma deturpação do estilo. Nós brasileiros adoramos nos apropriar de formatos de sucesso, esvaziando-lhes o conteúdo para depois preencher com toda sorte de bobagens... Mas vamos falar do que presta: Hannah Gadsby. Seu show Nanette, exibido no Netflix, lança uma luz sobre as brumas do mau gosto que insistem em turvar nossa visão. Quem caiu na besteira de cancelar o Netflix porque ele exibiu a série O Mecanismo não vai poder apreciar essa pérola do humor contemporâneo. Chamar de humor o que Hannah faz é redutor. É muito mais. Fora a sua competência para fazer rir, que é inquestionável, fora todo o seu conteúdo, que é de grande relevância, e fora também a sua construção dramatúrgica, que é impecável, o que mais me pega nessa comediante é a sua habilidade em conduzir o público - que está ávido por risadas - até a sua dor mais profunda. E, uma vez lá, exibir a ferida e chafurdar nela para então devolvê-lo ao conforto de teatro dizendo: É por isso que eu preciso deixar a comédia. Minha história precisa ser contada da maneira certa... Adoro comediantes que fazem isso. Que ousam reverter as expectativas da plateia, surpreender, sacudir, fazê-la pensar sobre o que a faz rir. Hannah Gadsby o faz com maestria. Ela diz que uma das suas maiores qualidades é a resiliência, a capacidade de vergar-se e não quebrar. E só quem sentiu na pele a dor do preconceito e da discriminação na infância e na adolescência é capaz de entendê-la completamente. Ela encerra dizendo que ninguém pode com uma mulher que foi destruída e se reconstruiu. E é isso mesmo: Precisamos todos nos reconstruir. Independente de gênero, orientação sexual ou classe social. Pois essa maneira cruel pela qual fomos construidos já está provado que não deu certo. O que temos aqui não nos serve mais... Não se engane pensando que possa ser chato. É extremamente divertido de se assistir. Mas, por favor, assistam com os olhos, os ouvidos e o coração bem abertos. E tem que assistir até o fim. Se não, não vale. Fica a dica.
domingo, 15 de julho de 2018
COISAS QUE VI E VIVI
Ontem à noite, ao entrar no metrô saindo de um show, fui surpreendido por um rapaz que, gentilmente, se levantou e me ofereceu o seu assento. Minha primeira reação foi agradecer e aceitar, pois estava realmente cansado, tinha caminhado bastante, subido escadas e atravessado ruas e passarelas depois de ter ficado um bom tempo sentado na plateia do teatro. Mas logo em seguida veio a reação inevitável: Uma pontinha de tristeza por constatar que o tempo passara implacável e eu - embora tão cheio de vida e ânimo para aproveitar tudo de bom que ela pode oferecer - finalmente, en-ve-lhe-ce-ra. Meus cabelos brancos eram a prova incontestável...
O fato é que a vida segue interessante. E eu, malgré o adiantado da idade, sigo interessado. Felizmente, vivo em uma cidade que constantemente oferece atrativos. De tédio, eu com certeza não morrerei na Pauliceia...
Tanto, que tenho deixado passar várias coisas bacanas que vejo, vivo, assisto, visito e constato, sem relatá-las aqui no blog. Numa tentativa de não permitir que a memória me falhe e no intuito de preservá-las para quem por ventura me leia, trato de relembrá-las aqui. Agora... Começo justamente pelo show a que me referi no início do texto. Uma belíssima homenagem aos cem anos de Dalva de Oliveira, concebida e dirigida por Thiago Marques Luiz. Reunindo nomes como Ângela Maria, Claudete Soares, Alaíde Costa, Cida Moreira, Maria Alcina e Virgínia Rosa, o espetáculo fez jus à importância de Dalva no cenário musical brasileiro. Arranjos sofisticados e um quarteto que reuniu piano, baixo acústico, bateria e sopros. E lançou juventude e frescor sobre as canções da homenageada nas vozes de Felipe Catto e Ayrton Montarroyos. Tipo histórico... No mesmo fim de semana pude conferir o espetáculo PI - Panorâmica Insana, da diretora Bia Lessa. Uma grata e bem vinda surpresa. Em um cenário/ambiente pós ecatombe - as ruínas do teatro em reforma - os excelentes atores se movimentam entre toneladas de roupas e trocam, em velocidade espantosa, de personagens. Destaco Rodrigo Pandolfo, que sempre é magistral sobre a cena, e Claudia Abreu, com sua incrível velocidade para acessar as emoções mais variadas. Some-se a trilha sonora perfeita (com direito a Benjamin Clementine) e tem-se um dos melhores espetáculos do ano... Voltando um pouco mais no tempo, coisa de um mês, ainda tenho a citar a exposição de Bill Violla no recém-reinaugurado Sesc da Avenida Paulista. Imensas e pequenas telas que projetam imagens em movimento. Fotografias que se movem ou videos parados. Inquietante, para dizer o mínimo... Nesse meio tempo teve também a dança teatro da Cia. 4 pra nada que, com o curioso título de (H3O)mens, coloca em cena três homens nus abordando todas as possibilidades do universo masculino. Esse merece post especial aqui no blog. Se eu me animar, mais adiante postarei. Mas vale muito a pena conferir. Se não ao vivo, pelo menos na gravação completa do espetáculo que está disponível no YouTube. Com direito a nudez total, essa questão ainda tão tabu e que tanta polêmica suscita em pleno século XXI...
Paro por hora. Mas prometo voltar logo e cheio de novidades. Vamos em frente aquecendo esse inverno rigoroso que ainda está na metade...
Nas fotos, os cantores dos cem anos de Dalva, a panorâmica de Claudia Abreu insana & de cuerpo entero, a imagem em movimento de Bill Viola e os três homens nus de (H3O)mens.
O fato é que a vida segue interessante. E eu, malgré o adiantado da idade, sigo interessado. Felizmente, vivo em uma cidade que constantemente oferece atrativos. De tédio, eu com certeza não morrerei na Pauliceia...
Tanto, que tenho deixado passar várias coisas bacanas que vejo, vivo, assisto, visito e constato, sem relatá-las aqui no blog. Numa tentativa de não permitir que a memória me falhe e no intuito de preservá-las para quem por ventura me leia, trato de relembrá-las aqui. Agora... Começo justamente pelo show a que me referi no início do texto. Uma belíssima homenagem aos cem anos de Dalva de Oliveira, concebida e dirigida por Thiago Marques Luiz. Reunindo nomes como Ângela Maria, Claudete Soares, Alaíde Costa, Cida Moreira, Maria Alcina e Virgínia Rosa, o espetáculo fez jus à importância de Dalva no cenário musical brasileiro. Arranjos sofisticados e um quarteto que reuniu piano, baixo acústico, bateria e sopros. E lançou juventude e frescor sobre as canções da homenageada nas vozes de Felipe Catto e Ayrton Montarroyos. Tipo histórico... No mesmo fim de semana pude conferir o espetáculo PI - Panorâmica Insana, da diretora Bia Lessa. Uma grata e bem vinda surpresa. Em um cenário/ambiente pós ecatombe - as ruínas do teatro em reforma - os excelentes atores se movimentam entre toneladas de roupas e trocam, em velocidade espantosa, de personagens. Destaco Rodrigo Pandolfo, que sempre é magistral sobre a cena, e Claudia Abreu, com sua incrível velocidade para acessar as emoções mais variadas. Some-se a trilha sonora perfeita (com direito a Benjamin Clementine) e tem-se um dos melhores espetáculos do ano... Voltando um pouco mais no tempo, coisa de um mês, ainda tenho a citar a exposição de Bill Violla no recém-reinaugurado Sesc da Avenida Paulista. Imensas e pequenas telas que projetam imagens em movimento. Fotografias que se movem ou videos parados. Inquietante, para dizer o mínimo... Nesse meio tempo teve também a dança teatro da Cia. 4 pra nada que, com o curioso título de (H3O)mens, coloca em cena três homens nus abordando todas as possibilidades do universo masculino. Esse merece post especial aqui no blog. Se eu me animar, mais adiante postarei. Mas vale muito a pena conferir. Se não ao vivo, pelo menos na gravação completa do espetáculo que está disponível no YouTube. Com direito a nudez total, essa questão ainda tão tabu e que tanta polêmica suscita em pleno século XXI...
Paro por hora. Mas prometo voltar logo e cheio de novidades. Vamos em frente aquecendo esse inverno rigoroso que ainda está na metade...
Nas fotos, os cantores dos cem anos de Dalva, a panorâmica de Claudia Abreu insana & de cuerpo entero, a imagem em movimento de Bill Viola e os três homens nus de (H3O)mens.
terça-feira, 10 de julho de 2018
CHOPIN PARA AQUECER
Nas noites frias e chuvosas do inverno de Porto Alegre há que se aquecer não apenas o corpo mas, também e sobretudo, a alma. Pois a minha foi lindamente aquecida nessa noite de segunda-feira. A Orquestra de Câmara do Teatro São Pedro convidou o pianista Nelson Freire para duas apresentações de um recital em homenagem à memória de Dona Eva Sopher. Quem venceu o frio e a chuva foi brindado com a belíssima execução do Concerto Número 2 para piano e orquestra, de Chopin. Eu já havia assistido a uma apresentação de Nelson Freire em duo com a pianista argentina Martha Argerich na Sala São Paulo, no ano de 2004. Lembro que eles apresentaram, em um repertório que ia de Brahms a Rachmaninoff, a inquietante La Valse, de Ravel. Agora, na fria noite dos pampas gelados de Gay Port City, acompanhado pela nossa brava Orquestra de Câmara, foi ainda melhor. Que bom que a cidade tem o seu teatro e que o teatro tem a sua orquestra. E que sorte de ambos terem tido a sua, a nossa, a eterna Dona Eva. Tenho certeza de que, muito mais do que no display que recebe o público na entrada, ela está presente em cada frisa do seu amado Teatro. O menino de Soledade, que um dia sonhou ser pianista, foi dormir embalado e aquecido pelas notas da melodia de Chopin. Minha irmã Raquél, que me convidou para a noitada, não poderia ter me dado presente melhor. Só contemplar o teatro lotado já foi extremamente reconfortante. É um alento constatar que não apenas musicais da Broadway e shows de youtubers enchem as salas. Me alegra muito ver o público lotando uma casa de espetáculos para assistir a uma apresentação de música clássica. Me aqueceu ainda mais do que a dose de uísque que tomei no bar do foyer...
Na foto, o pianista agradece os merecidos aplausos que o fizeram voltar várias vezes ao palco.
Na foto, o pianista agradece os merecidos aplausos que o fizeram voltar várias vezes ao palco.
sexta-feira, 6 de julho de 2018
BALZAQUIANA ESTRAVAGANTE
A Cia. Stravaganza, da minha amiga Adriane Mottola, que já mereceu post aqui no blog, está completando trinta anos de existência. Eu disse trin-ta. O que, por si só, já não é pouca coisa. Mas ainda tem mais: Como parte das comemorações, está em cartaz às quintas-feiras no seu espaço próprio, o Studio Stravaganza, a peça Espalhem Minhas Cinzas na Eurodisney. O texto, do dramaturgo e diretor argentino Rodrigo García, tem direção de Adriane e apresenta o elenco da companhia em um interessante cenário/instalação no qual dão vida a uma espécie de jogral performático cheio de questionamentos e reflexões acerca da sociedade de consumo, seus hábitos, seus habitantes, suas contradições, seus enganos. Mas não se engane pensando que se trata de teatro cabeça. É vivo, crítico, tem humor, muita movimentação e experimentos cênicos. O espetáculo se mantém interessante do começo ao fim. Me lembrou o teatro vanguardista e performático do Grupo Balaio de Gatos, do qual Adriane foi integrante. O espaço físico onde acontece a peça também é bastante interessante, com um bar aconchegante onde o público pode beber enquanto espera o espetáculo começar. O que, no frio da noite de ontem, foi providencial: O vinho aqueceu corpos e corações para a celebração do fazer teatral. O que, aliás, a troupe vem fazendo com louvor nesses últimos trinta anos. Parabéns, Adriane. Parabéns a todos os estravagantes integrantes da companhia. E vida longa ao Teatro di Stravaganza!
Na foto, Adriane e seus pupilos celebram os trinta com corpinhos de vinte.
Na foto, Adriane e seus pupilos celebram os trinta com corpinhos de vinte.
quarta-feira, 27 de junho de 2018
CONTO À BEIRA MAR
I
-Meu filho, será que você poderia me ajudar com essas sacolas? Preciso pegar aquele táxi que está parado do outro lado da rua.
Minha vizinha é uma senhora idosa que mora sozinha e perdeu recentemente a única companhia que tinha, seu cachorrinho. Ajudei-a de pronto e assim que o táxi partiu levando minha amiga fiquei pensando em como seria a minha vida quando eu estivesse com a idade dela e sem ninguém para cuidar de mim. No dia seguinte, seu filho bateu à minha porta. Ele estava angustiado e parecia escolher cada uma das palavras que pronunciava. Na verdade, ele queria saber se eu poderia acompanhar sua mãe numa viagem ao litoral. Ele havia reservado uma semana num hotel em Ilhabela, para que ela se distraísse e superasse a perda do cachorrinho. A primeira coisa que pensei, e isso durou um átimo de segundo, foi: Eu teria alguém que me quebrasse esse galho? Achei que tinha muito tempo antes de me preocupar com isso e, sem pensar muito, respondi que sim, que poderia. Depois que ele se foi fiquei com a sensação de que tinha tomado a decisão acertada. Pensei: Eu sou sozinho, ela também. Adoro a sua companhia. Quem sabe no futuro também terei um jovem que adore a minha? No fim da semana passei em seu apartamento para apanhá-la e partimos rumo ao litoral...
II
O lugar onde nos hospedamos era agradabilíssimo. Chamava - se Hotel Pelicano. Ficava a poucos passos da praia, era só atravessar a rua e já se estava com os pés na areia. Toda a fachada do prédio era composta de sacadas. Ficamos em um amplo apartamento, composto de uma sala grande com mesa de jantar, banheiro e dois quartos com sacada de frente para o mar. Além de apreciar a companhia da minha amiga eu ainda teria uma sacada de frente para o mar só para mim. Ah, e com direito a uma rede estendida nela. Todos os dias acordávamos cedo, fazíamos uma pequena caminhada à beira mar, tomávamos um pouco de sol e almoçávamos. Depois ela deitava e tirava uma soneca. Era quando eu aproveitava para escrever. À tardinha, após ela tomar seu banho, eu lia um pouco para ela, jantávamos e ela ia se deitar. Aí eu me entregava ao meu mundinho particular. Minha sacada se transformava em uma espécie de cápsula, isolada do mundo externo, onde eu vivia a minha vida. Lia, escrevia, bebia, ouvia música nos fones de ouvido, tirava fotografias do mar, dos passantes, enfim, dava asas à minha imaginação...
III
Pois na última noite antes de voltarmos para casa eu havia bebido um pouco a mais e, como não conseguisse ler nem escrever, fiquei sentado numa das cadeiras apreciando as marolas que o vento fazia na água do mar. Percebi então que algo estranho acontecia sob a superfície das águas. Era como se uma luz tivesse sido acesa e se movimentasse lentamente dentro do mar. Foi quando aconteceu:
IV
Um ser iluminado saiu do fundo do mar. Emergiu reluzindo sua luz furta-cor. Primeiro a cabeça, depois o pescoço - que era longo - o tronco e os membros. Era um pouco maior do que um ser humano normal. Assim como andou sobre as águas desde o ponto onde aparecera até a areia da praia, andou também pelo ar numa diagonal ascendente em direção à minha sacada. Quando dei por mim ele já estava sentado ao meu lado. Sua luz, agora mais tênue, marcava presença sem ofuscar. Uma espécie de luminária de canto, uma luz indireta. Um abajur. Às vezes lilás... Fiquei me perguntando o que aquela criatura iridescente estaria fazendo ali, ao meu lado, iluminando minha sacada com sua doce luz colorida. Teria sido eu escolhido? E, caso tivesse sido, para quê? Ou seria ele uma cyber morte que veio, envolta em luz de led, buscar minha vizinha que jazia, digo dormia, no quarto ao lado? Fiquei nessas indagações até que adormeci sem me dar conta. Acordei quando o primeiro raio de sol apontou na direção do meu rosto. Olhei imediatamente para a cadeira ao lado. Ele não estava mais ali. Mas eu ainda era capaz de sentir sua presença iluminada, sua energia pulsando ao meu lado, espalhando tranquilidade. Como ainda sou capaz de sentir até hoje...
-Meu filho, será que você poderia me ajudar com essas sacolas? Preciso pegar aquele táxi que está parado do outro lado da rua.
Minha vizinha é uma senhora idosa que mora sozinha e perdeu recentemente a única companhia que tinha, seu cachorrinho. Ajudei-a de pronto e assim que o táxi partiu levando minha amiga fiquei pensando em como seria a minha vida quando eu estivesse com a idade dela e sem ninguém para cuidar de mim. No dia seguinte, seu filho bateu à minha porta. Ele estava angustiado e parecia escolher cada uma das palavras que pronunciava. Na verdade, ele queria saber se eu poderia acompanhar sua mãe numa viagem ao litoral. Ele havia reservado uma semana num hotel em Ilhabela, para que ela se distraísse e superasse a perda do cachorrinho. A primeira coisa que pensei, e isso durou um átimo de segundo, foi: Eu teria alguém que me quebrasse esse galho? Achei que tinha muito tempo antes de me preocupar com isso e, sem pensar muito, respondi que sim, que poderia. Depois que ele se foi fiquei com a sensação de que tinha tomado a decisão acertada. Pensei: Eu sou sozinho, ela também. Adoro a sua companhia. Quem sabe no futuro também terei um jovem que adore a minha? No fim da semana passei em seu apartamento para apanhá-la e partimos rumo ao litoral...
II
O lugar onde nos hospedamos era agradabilíssimo. Chamava - se Hotel Pelicano. Ficava a poucos passos da praia, era só atravessar a rua e já se estava com os pés na areia. Toda a fachada do prédio era composta de sacadas. Ficamos em um amplo apartamento, composto de uma sala grande com mesa de jantar, banheiro e dois quartos com sacada de frente para o mar. Além de apreciar a companhia da minha amiga eu ainda teria uma sacada de frente para o mar só para mim. Ah, e com direito a uma rede estendida nela. Todos os dias acordávamos cedo, fazíamos uma pequena caminhada à beira mar, tomávamos um pouco de sol e almoçávamos. Depois ela deitava e tirava uma soneca. Era quando eu aproveitava para escrever. À tardinha, após ela tomar seu banho, eu lia um pouco para ela, jantávamos e ela ia se deitar. Aí eu me entregava ao meu mundinho particular. Minha sacada se transformava em uma espécie de cápsula, isolada do mundo externo, onde eu vivia a minha vida. Lia, escrevia, bebia, ouvia música nos fones de ouvido, tirava fotografias do mar, dos passantes, enfim, dava asas à minha imaginação...
III
Pois na última noite antes de voltarmos para casa eu havia bebido um pouco a mais e, como não conseguisse ler nem escrever, fiquei sentado numa das cadeiras apreciando as marolas que o vento fazia na água do mar. Percebi então que algo estranho acontecia sob a superfície das águas. Era como se uma luz tivesse sido acesa e se movimentasse lentamente dentro do mar. Foi quando aconteceu:
IV
Um ser iluminado saiu do fundo do mar. Emergiu reluzindo sua luz furta-cor. Primeiro a cabeça, depois o pescoço - que era longo - o tronco e os membros. Era um pouco maior do que um ser humano normal. Assim como andou sobre as águas desde o ponto onde aparecera até a areia da praia, andou também pelo ar numa diagonal ascendente em direção à minha sacada. Quando dei por mim ele já estava sentado ao meu lado. Sua luz, agora mais tênue, marcava presença sem ofuscar. Uma espécie de luminária de canto, uma luz indireta. Um abajur. Às vezes lilás... Fiquei me perguntando o que aquela criatura iridescente estaria fazendo ali, ao meu lado, iluminando minha sacada com sua doce luz colorida. Teria sido eu escolhido? E, caso tivesse sido, para quê? Ou seria ele uma cyber morte que veio, envolta em luz de led, buscar minha vizinha que jazia, digo dormia, no quarto ao lado? Fiquei nessas indagações até que adormeci sem me dar conta. Acordei quando o primeiro raio de sol apontou na direção do meu rosto. Olhei imediatamente para a cadeira ao lado. Ele não estava mais ali. Mas eu ainda era capaz de sentir sua presença iluminada, sua energia pulsando ao meu lado, espalhando tranquilidade. Como ainda sou capaz de sentir até hoje...
quinta-feira, 14 de junho de 2018
CONTO POSTAL
Meu caro amigo,
Não sei quem você é nem onde está. Não sei ao menos se você existe de fato. Mas de repente senti uma vontade incontrolável de escrever uma carta para um amigo distante. E resolvi fazê-lo aqui, via internet. Como quem joga ao mar uma garrafa com uma mensagem, na esperança de que ela vá dar a alguma praia e que alguém a encontre e a leia... Por aqui tudo bem. Sem grandes novidades. Tenho levado uma vida tranquila e agradável, malgrado as turbulências que sacodem o mundo lá fora. Fora da minha casa, eu quero dizer. Mais especificamente, da minha vida. Desenvolvi uma espécie de blindagem que me permite seguir existindo em meio ao caos em que tudo parece estar imerso. Dito assim pode soar egoísta. E digamos que seja um pouco, mesmo. Mas o que é um pequeno ato de egoísmo frente à crueldade humana? A falta de escrúpulos, a intolerância, a ganância e a exploração do próximo? Sim, sigo levando a minha vida em paz. Espero que o mesmo ocorra com você. Onde quer que você esteja...
Às vezes, para passar o tempo quando já estou cansado de ler ou de escrever, assisto a programas de variedades na televisão. Dia desses, enquanto trocava de canal, vi uma garota super alternativa, descolada, vegana, sustentável e outras mumunhas mais, que ensinava, em um canal de tv a cabo, como fazer um mojito "super diferente". Você acredita que não havia nenhum ingrediente do mojito na receita que ela mostrou? Se você não sabe, o que eu duvido muito, pois imagino que você viva fora do país e viaje bastante, mojito é um drink feito com rum, hortelã, limão, açúcar e água com gás. No lugar do rum, a garota colocou cachaça. No lugar da hortelã, poejo. O limão foi substituído por laranja. Não colocou açúcar e acrescentou chá de hibisco. Ou seja: Nossa jovem apresentadora & bartender não colocou nenhum ingrediente da receita original. Ah! Já esquecia: Água com gás ela colocou. Mas água com gás está longe de ser o ingrediente definidor de um mojito, você há de concordar. Então fiquei me perguntando: Já que a pessoa é tão criativa, por que raios não inventa um nome novo para o seu incrível drink? Posto que mojito, inequivocamente, não é...
Não sei porque senti vontade de escrever isso aqui na carta. Mas imagino que esteja tentando, mesmo que inconscientemente e de maneira indireta, dar a você uma espécie de trailer do que ando vendo e vivendo. Se é que você existe e, supondo que exista, esteja interessado... Espero que esteja tudo bem com você. Ou eu deveria dizer vocês? Será que você encontrou alguém com quem dividir a sua interessante vida internacional? Se isso de fato ocorreu saiba que fico muito feliz por você. Ou melhor, por vocês. Pois mesmo não conhecendo a pessoa pela qual você se apaixonou e com a qual decidiu dividir a sua vida, sinto que gosto dela só de saber que o faz feliz. No mais, sigo tentando aprender a tocar piano. Ou melhor, eu sei tocar piano. O que quiz dizer é que sigo tentando me transformar em um pianista. O duro é que cada vez tenho menos tempo para isso. A vida está passando a cada dia mais depressa. E o fim parece estar cada dia mais próximo...
Desculpe se não consegui escrever uma carta bela e inspiradora, cheia de boas notícias e grandes novidades. Mas, pelo que me lembro do tempo em que escrevia cartas, era mais ou menos assim que funcionava: A gente dizia como estava, dava um panorama geral do presente, contava algumas coisas banais, uma novidade se tivesse, perguntava como o interlocutor estava, desejava coisas boas para ele e sua família e se despedia esperando resposta. Acho que cumpri meu objetivo. Ah! Já ia esquecendo: Minha gata pariu uma ninhada de seis gatinhos e resolvi ficar com todos. Pelo menos a casa vai ficar cheia e mais animada... Bem, paro por aqui. Fique bem, fiquem bem. Espero que recebam essa carta. E, se possível, que a respondam. Um grande beijo e um grande abraço,
Do seu amigo distante.
PS - A Marieta manda um beijo para os seus. Um beijo na família, na Cecilia, nas crianças. O Francis aproveita pra também mandar lembranças a todo o pessoal. Adeus...
Não sei quem você é nem onde está. Não sei ao menos se você existe de fato. Mas de repente senti uma vontade incontrolável de escrever uma carta para um amigo distante. E resolvi fazê-lo aqui, via internet. Como quem joga ao mar uma garrafa com uma mensagem, na esperança de que ela vá dar a alguma praia e que alguém a encontre e a leia... Por aqui tudo bem. Sem grandes novidades. Tenho levado uma vida tranquila e agradável, malgrado as turbulências que sacodem o mundo lá fora. Fora da minha casa, eu quero dizer. Mais especificamente, da minha vida. Desenvolvi uma espécie de blindagem que me permite seguir existindo em meio ao caos em que tudo parece estar imerso. Dito assim pode soar egoísta. E digamos que seja um pouco, mesmo. Mas o que é um pequeno ato de egoísmo frente à crueldade humana? A falta de escrúpulos, a intolerância, a ganância e a exploração do próximo? Sim, sigo levando a minha vida em paz. Espero que o mesmo ocorra com você. Onde quer que você esteja...
Às vezes, para passar o tempo quando já estou cansado de ler ou de escrever, assisto a programas de variedades na televisão. Dia desses, enquanto trocava de canal, vi uma garota super alternativa, descolada, vegana, sustentável e outras mumunhas mais, que ensinava, em um canal de tv a cabo, como fazer um mojito "super diferente". Você acredita que não havia nenhum ingrediente do mojito na receita que ela mostrou? Se você não sabe, o que eu duvido muito, pois imagino que você viva fora do país e viaje bastante, mojito é um drink feito com rum, hortelã, limão, açúcar e água com gás. No lugar do rum, a garota colocou cachaça. No lugar da hortelã, poejo. O limão foi substituído por laranja. Não colocou açúcar e acrescentou chá de hibisco. Ou seja: Nossa jovem apresentadora & bartender não colocou nenhum ingrediente da receita original. Ah! Já esquecia: Água com gás ela colocou. Mas água com gás está longe de ser o ingrediente definidor de um mojito, você há de concordar. Então fiquei me perguntando: Já que a pessoa é tão criativa, por que raios não inventa um nome novo para o seu incrível drink? Posto que mojito, inequivocamente, não é...
Não sei porque senti vontade de escrever isso aqui na carta. Mas imagino que esteja tentando, mesmo que inconscientemente e de maneira indireta, dar a você uma espécie de trailer do que ando vendo e vivendo. Se é que você existe e, supondo que exista, esteja interessado... Espero que esteja tudo bem com você. Ou eu deveria dizer vocês? Será que você encontrou alguém com quem dividir a sua interessante vida internacional? Se isso de fato ocorreu saiba que fico muito feliz por você. Ou melhor, por vocês. Pois mesmo não conhecendo a pessoa pela qual você se apaixonou e com a qual decidiu dividir a sua vida, sinto que gosto dela só de saber que o faz feliz. No mais, sigo tentando aprender a tocar piano. Ou melhor, eu sei tocar piano. O que quiz dizer é que sigo tentando me transformar em um pianista. O duro é que cada vez tenho menos tempo para isso. A vida está passando a cada dia mais depressa. E o fim parece estar cada dia mais próximo...
Desculpe se não consegui escrever uma carta bela e inspiradora, cheia de boas notícias e grandes novidades. Mas, pelo que me lembro do tempo em que escrevia cartas, era mais ou menos assim que funcionava: A gente dizia como estava, dava um panorama geral do presente, contava algumas coisas banais, uma novidade se tivesse, perguntava como o interlocutor estava, desejava coisas boas para ele e sua família e se despedia esperando resposta. Acho que cumpri meu objetivo. Ah! Já ia esquecendo: Minha gata pariu uma ninhada de seis gatinhos e resolvi ficar com todos. Pelo menos a casa vai ficar cheia e mais animada... Bem, paro por aqui. Fique bem, fiquem bem. Espero que recebam essa carta. E, se possível, que a respondam. Um grande beijo e um grande abraço,
Do seu amigo distante.
PS - A Marieta manda um beijo para os seus. Um beijo na família, na Cecilia, nas crianças. O Francis aproveita pra também mandar lembranças a todo o pessoal. Adeus...
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