Há muito, muito tempo, cerca de dois mil anos pelo menos, que todos os anos, no período que se inicia na quarta-feira de cinzas e termina na Páscoa, só dava ela: A Quaresma. No mundo todo cristãos dedicam-se à reflexão, à elevação espiritual, ao jejum e à abstinência. Nos últimos tempos ela, a Quaresma, já andava de saco cheio de ouvir falar dessa tal Quarentena, cujo nome era claramente inspirado - para não dizer copiado - no dela. Mas agora, em 2020, a Quarentena passara do limite! Roubar o protagonismo da Quaresma justamente na única época do ano em que ela reinava absoluta era um ultraje. E o pior: Incitando todos a fazerem as mesmas coisas que ela recomendava havia séculos. Recolhimento. Meditação. Isolamento. Mudança de hábitos. Reflexão. Introspecção. E, consequentemente, jejum, pois a escassez de alimentos viria na sequência... Esse período do ano sempre foi dedicado a mim, bradava inconformada a Quaresma. Sou bíblica, atávica, arquetípica! Aliás, o número quarenta é frequentemente citado na bíblia. Quarenta foram os dias de dilúvio na Arca de Noé. Quarenta dias de Moisés no Monte Sinai, quarenta dias de Jesus no deserto, quarenta anos de peregrinação do povo de Israel! Agora vem essa mundana, sem criatividade nenhuma, empanar a minha liderança. Sem um pingo de sororidade, sem noção, sem nada! Claro que tudo isso chegou aos ouvidos da Quarentena. Mas ela, isolada que estava, fez ouvidos moucos. Nem olhou, fez a egípcia. Para evitar contato. Enquanto isso, seguia a inflamada Quaresma: Isso sem falar que ela está disseminando o transtorno obsessivo compulsivo. Todos arrumam armários e limpam as casas freneticamente, assistem a séries e filmes sem parar e desinfetam tudo o que tocam com álcool gel. Tudo porque um velho espirrou lá na China e um vírus se espalhou pelo mundo. Devo admitir que a danada teve muito senso de repercussão. Uma marqueteira de primeira, essa Quarentena. Preciso rever meus conceitos. Acho que vou para um spa fazer um retiro espiritual. Se eu ainda encontrar algum spa aberto... Dito isso, a quaresma saiu de cena e ninguém mais ouviu falar dela...
Na foto, painel de Aldo Locatelli para a Via Crucis na igreja São Pelegrino, em Caxias do Sul.
sexta-feira, 20 de março de 2020
terça-feira, 17 de março de 2020
QUARENTENA
Essas são algumas das reflexões de um quase idoso em quarentena na tentativa de conter a propagação do vírus Covid19, o famigerado Corona Vírus. Digo quase idoso porque ainda não completei sessenta anos. No dia 25 do mês que vem completarei cinquenta e sete outonos. Mas, mesmo não sendo considerado grupo de risco, entendi a importância de proteger os outros me mantendo em casa. Muitos dos que me leem talvez não saibam, mas sou extremamente caseiro. De modo que não muda muito a minha rotina cotidiana. O que mais me afeta é não ir à academia para os meus treinos diários. Afeta, inclusive, física e psicologicamente. Mas vamos em frente. Ou melhor, não vamos. Fiquemos. Em casa, no caso... Felizmente nessa época do ano o sol já começa a bater na sacada. Assim não preciso descer para tomar sol na piscina, evitando possíveis contatos com vizinhos. Essa é uma ótima maneira de passar parte da manhã... Tenho lido o livro Metrópole à Beira Mar, de Ruy Castro, sobre o Rio de Janeiro dos anos vinte. Interessante painel de uma época rica em cultura e informação vivida em nosso país. Só para se ter uma ideia, a Capital Federal tinha dezesseis jornais diários circulando. Os teatros funcionavam de segunda a domingo com várias sessões diárias e todos os profissionais (artistas, técnicos, etc.) eram contratados. Bem diferente do que vivemos hoje em dia... Fiquei bastante chateado com o cancelamento das gravações da minha novela preferida, a única que acompanho no momento, Amor de Mãe. Mas entendo que é o melhor a ser feito pelo bem de todos e aguardo ansioso a nova temporada... Filmes e séries no Netflix eu sempre assisti pouco, não sou muito viciado. Agora tenho assistido um pouquinho mais. Isso me levou a uma outra reflexão: Antigamente uma história boa tinha que ter início, meio e fim. Hoje em dia parece que quanto mais esses três elementos estivarem misturados, de preferência embaralhados, melhor. Digo isso porque ontem, assistindo ao filme francês Jonas, do diretor Christophe Charrier, me peguei tentando editar a película enquanto assistia. Ora, eu prefiro que o filme já venha editado! De preferência, na ordem. E com isso quero dizer: Ordem crescente, do início ao clímax e, para encerrar, o fim. Coisa de velho chato e reclamão, que já foi fã de filmes feitos justamente nesse estilo. Por sinal, gostei muito de Jonas e recomendo... Hoje minha cantora preferida de todos os tempos, Elis Regina, faria aniversário se viva estivesse. Como na minha memória e em todo o meu ser ela ainda está, Feliz Aniversário, Elis! Escrevo ao som de seu álbum Essa Mulher, correspondente ao primeiro show dela a que assisti... No sábado à noite, quando ainda não tinha começado minha quarentena voluntária e as casas de espetáculos ainda estavam abertas, fui ao Teatro Eva Herz para assistir ao espetáculo As crianças, que tem no elenco os meus amigos Andrea Dantas e Mario Borges e mais a igualmente talentosa Analu Prestes. Um dos melhores espetáculos a que assisti nos últimos tempos. A direção impecável, criativa e sensível de Rodrigo Portella envolve o espectador no contundente e bem humorado texto da inglesa Lucy Kirkwood do início ao fim. Rodrigo já tinha me deixado de queixo caído com sua perturbadora montagem de Tom na Fazenda. Agora, trazendo o humor - ainda que inglês - como um dos ingredientes, me ganhou ainda mais. Meu novo diretor preferido do momento. Ah, e antes que eu me esqueça, o elenco também está impecável. Mas isso já é chover no molhado. Mario Borges, por exemplo, é sempre arrasador em tudo o que faz sur la scène... No mais, rápidas idas ao supermercado para comprar comida, porque essa histeria de estocar mantimentos não me pega. Sigamos em quarentena que haveremos de vencer esse vírus! E a internet está aí para nos conectar com o mundo na segurança do nosso lar...
Na foto, euzinho tomando sol no isolamento voluntário da sacada.
Na foto, euzinho tomando sol no isolamento voluntário da sacada.
domingo, 8 de março de 2020
ALLEGRO
Sempre fui mais afeito a adagios, no que se refere à música e seus andamentos. Mas aqui o termo allegro é emprestado do universo musical não apenas para nomear, mas também para definir a exposição do artista paulista Guto Lacaz. Se no campo da música o termo define o andamento rápido e o tom animado da composição, aqui ele revela o humor que permeia a obra do artista em todas as suas formas de expressão. A mostra apresenta desenhos, instalações, objetos, poemas visuais, serigrafias e videos de performances realizadas por Guto ao longo da sua extensa trajetória. Ele encarna com carisma e graça o personagem do "cientista louco", misto de clown com inventor, com um pé em Jacques Tatit e o outro no Professor Pardal. Impossível não rir e, ao mesmo tempo, se emocionar admirando suas criações. Guto extrai dos objetos mais cotidianos a poesia e a comicidade que pontuam suas invenções artísticas. Quem observa seu trabalho é convidado a refletir. Um exercício mental é proposto a cada peça que compõe essa mostra. Das "coincidências industriais"' que revelam medidas similares em objetos totalmente díspares, às "pequenas grandes ações", nas quais o artista amplia instruções de uso de objetos cotidianos. A poesia brota do contraste entre a beleza e o horror na gravura "submarino nuclear em noite de luar" (o título já diz tudo), uma das minhas preferidas de toda a exposição. Há muito o que dizer sobre o encantador universo desse artista genial. Mas prefiro sugerir aqui que visitem a exposição na Chácara Lane, ali na Rua da Consolação, até o dia 29 de março. Garanto que será um grande prazer.
Nas fotos, parte das ilustrações de Guto para a revista Caros Amigos e eu com o artista em si, que tive a sorte de encontrar na exposição.
Nas fotos, parte das ilustrações de Guto para a revista Caros Amigos e eu com o artista em si, que tive a sorte de encontrar na exposição.
sábado, 22 de fevereiro de 2020
PEIXES FOLIÕES
Acabo de descobrir por que as pessoas que nascem em fevereiro são do signo de peixes: É que chove demais nessa época do ano. Pelo menos aqui em São Paulo é assim... O carnaval explode em blocos de rua e a chuva não dá trégua. Quisera ser um peixe! Para enfeitar de corais minha cintura e sair soltando a franga pelas ruas da Pauliceia... O que vem acontecendo, de uns tempos pra cá, é exatamente o contrário. Fico o carnaval inteiro em casa. Gosto tanto! É que os famosos "bloquinhos" de rua de São Paulo se transformaram em verdadeiros trios elétricos, tamanha a multidão que agora os segue. E a cidade, que ficava praticamente vazia para mim, fazia jus à alcunha de Túmulo do Samba, criada pelo saudoso Poetinha... Agora virou uma espécie de Salvador nos dias de folia. E quantos dias de folia! Que eu me lembre, carnaval eram quatro dias: Sábado, domingo, segunda e terça. Agora é um mês inteiro... E a festa não acaba mais na quarta-feira. A coisa se estende por incontáveis enterros dos ossos. Uma pessoa de garganta frágil como eu, que inflama por qualquer bobagem (mais as alergias respiratórias, rinite, sinusite, bronquite), não pode nem pensar em correr o risco de tomar essa chuva toda com o corpo quente e suado. E multidão para mim se tornou sinônimo de pânico. Assim sendo, o aconchego do lar é o meu novo Reino Encantado de Momo. Carnaval mesmo, agora é só pelo Instagram... Boa folia a todos!
Na foto, Sampa toda caracterizada para receber os foliões.
Na foto, Sampa toda caracterizada para receber os foliões.
domingo, 16 de fevereiro de 2020
ALMA LAVADA
Acabo de assistir ao espetáculo solo de Irene Ravache, Alma Despejada. Um texto de Andréa Bassitt com direção de Elias Andreato. Dito isso, a gente já sabe que se trata de coisa boa. Muito boa. Assistir às peças de Irene Ravache é sempre um aprendizado, é como assistir a uma aula de interpretação. Eu já havia sido arrebatado por ela nos espetáculos Uma Relação Tão Delicada e De Braços Abertos. Em ambos os casos, acompanhada de grandes atores sur la scène. Agora, nesse monólogo, temos a oportunidade de apreciar o talento de Irene na sua totalidade. É ela em si, propriamente dita. E muito bem dita. O texto de Andréa Bassitt proporciona a essa grande atriz um passeio pela alma humana, rico em emoções, em diversidade de temas abordados e cheio de interessantes jogos de palavras, sempre levando o espectador a associações inusitadas de ideias. Que grande prazer. Que encantamento. É uma felicidade tão grande para quem, como eu, faz teatro, ver uma grande artista prender a atenção da plateia durante uma hora. Sozinha no palco, em meio a caixas de papelão que guardam memórias, ela consegue fazer o público de um teatro de shopping esquecer o celular, a novela, as séries do Netflix, as contas para pagar, a casa, o dia a dia, o trabalho, os problemas e embarcar com ela nessa interessante história que pode ser a história de qualquer um dos que a assistem. E é. É exatamente a história de todos e precisamente por isto se torna tão interessante. Obrigado dona Irene Ravache por se dar o trabalho de nos ensinar tanto. Não apenas com a peça, mas com o que fala ao público depois que ela termina. Falar o que se pensa e ouvir o que os outros pensam, mesmo que em discordância, é direito de todos. E que nunca nos seja negado. Palmas para Irene Ravache! Quanto ao título do post, é exatamente assim que a gente sai do teatro depois de assistir a essa master class: De Alma Lavada.
Na foto, Irene fala com a plateia depois de sua inesquecível performance.
Na foto, Irene fala com a plateia depois de sua inesquecível performance.
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020
YOUTUBE
Adoro essa plataforma, ou seja lá como se chama, de vídeos. Confesso que uso mais para áudio, é meu local preferido para ouvir música. E, tirando os anúncios, que detesto, amo a maneira como o YouTube nos leva de uma coisa à outra, o tal algoritmo. Dia desses, enquanto assistia ao último episódio de The Crown no Netflix, tocou a música Star Man, de David Bowie, numa das cenas. Depois de assistir à série fui procurar a música no YouTube e, quando percebi, tinha ido parar no álbum Encore!, de Klaus Nomi. Me dei conta de que eu escutava isso nos anos oitenta em Porto Alegre e do quanto era moderno e continua sendo. Daí, claro, fiquei pensando: O que é moderno assim hoje em dia? E o aplicativo seguiu me levando a The Cure, Marianne Faithful, Laurie Anderson, Tom Waits e tantos mais. Laurie Anderson eu cheguei a assistir ao vivo num show em Paris nos anos noventa, no lendário cinema e teatro Grand Rex, verdadeiro templo do art-déco. Cadê aquela modernidade toda? Onde foi parar? De repente fiquei velho e sem modernidades equivalentes à minha atualidade... Lembro que na primeira peça que dirigi em Porto Alegre, Lisístrata, enquanto o público entrava no teatro e esperava o espetáculo começar, ficava tocando justamente este álbum de Klaus Nomi, Encore!. E lá se vão trinta e dois anos... Mas, voltando ao YouTube, foi ele que divulgou a Terça Insana para o Brasil e o mundo e é ele que me faz viajar no tempo através de álbuns e canções que marcaram a minha trajetória. Chego à conclusão que talvez a modernidade de hoje seja justamente essa ferramenta que nos põe em contato com o passado. E que, tirando os youtubers, o YouTube é realmente o máximo...
Nas fotos, Klaus Nomi na capa do icônico álbum Encore! e o ingresso do show de Laurie Anderson que, obviamente, guardei.
Nas fotos, Klaus Nomi na capa do icônico álbum Encore! e o ingresso do show de Laurie Anderson que, obviamente, guardei.
domingo, 9 de fevereiro de 2020
FORÇA NO ESPANADOR
Olá, mês de fevereiro! Já estamos praticamente no carnaval. Digo praticamente porque já pipocam os blocos pelas cidades e o clima de folia se instala sorrateiramente... Desde que tudo se tornou irremediavelmente político (e, pior ainda, binário, bifásico, maniqueísta ou, para usar uma palavra que detesto, polarizado) resolvi exaltar as qualidades do prosaico e do banal como possibilidade de se levar a vida sem maior estresse (outra palavrinha que já deu). Pois bem, hoje o domingo se fez ameno e ensolarado e decidi encará-lo de frente como um velho e bom dono de casa... Assim sendo, logo cedo fui à feira para fazer as compras de mantimentos da semana e, na volta ao lar (para citar Harold Pinter), entreguei-me de rodo, balde e pano a uma rápida faxina. Não foi assim uma faxina "súplica", como dizia uma empregada da minha mãe quando limpava a casa com grande esmero. Sabe-se lá de onde ela tirou tal adjetivo. Sei que nunca esqueci. Nada comparado à grande limpeza que fiz no mês de dezembro para esperar minha irmã que veio passar o Natal conosco. Mesmo assim, embalado pelas canções de Paulinho da Viola do álbum Acústico MTV, pilotei o aspirador de pó cheio de nobreza & dignidade. Ah, coração leviano! Nem sabe o que fez do meu... E agora que fui um bom menino, as plantas estão aguadas e a casa já está um brinco, vou me dar de presente a maravilhosa muqueca de camarão do Ritz como merecido almoço dominical... Bom fevereiro a todos!
Na foto, a elegância discreta de Paulinho da Viola em momento acústico.
Na foto, a elegância discreta de Paulinho da Viola em momento acústico.
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