quarta-feira, 12 de novembro de 2014

IGREJAZZ

Eu adoro jazz. E, como fã que sou desse estilo musical, estou sempre em busca de grupos, cantores e cantoras que o pratiquem. Não me canso de ouvir as mais diversas versões de uma mesma música feita por diferentes artistas. Minha busca não se restringe apenas a músicos e cantores, também procuro sempre encontrar novos lugares onde possa apreciar o jazz executado ao vivo. Recentemente contei aqui no blog do projeto Jazz Ao Meio Dia, da Livraria Cultura. Pois a minha mais recente descoberta foi justamente o Igrejinha, bar que adoro e do qual já falei diversas vezes aqui no blog, do meu amigo Ricardo K e de seu fofo sócio Edu Revi. Pois não é que agora tem jazz ao vivo no Igrejinha? Sim, todas as terças-feiras, a partir das 21 horas, com o excelente trio Faithfull Jazz. O projeto vem de começar, ainda não foi descoberto por muita gente, então é bom se jogar logo antes que fique lotado demais, pois o espaço é pequeno e não cabem muitas pessoas. Eu fui ontem à noite e adorei. Enquanto saboreava meu drink ao som de My Funny Valentine, fiquei lembrando de Elis, divertidíssima em Alô, Alô Marciano, de Rita Lee, quando suspira blasé: "Ai, que chic é o jazz, meu Deus!" Então corre...

terça-feira, 11 de novembro de 2014

ESFINGE

Era assim tão surpreendente porque, quando a gente menos esperava, surgia detrás das pedras com seu olhar distante, seus longos cabelos louros encaracolados soltos ao vento, suas roupas esvoaçantes, exóticas, coloridas. Era assim tão diferente porque, naquele lugar onde ninguém pintava a cara, ninguém usava perfume nem andava de salto alto, ela sempre pintava seu belo rosto de traços felinos, desfilando muito bem maquilada, perfumada e usando os mais altos sapatos de salto alto. Era assim tão misteriosa porque sempre batia pé quanto aos seus misticismos, seus ocultismos, as suas seitas. Era assim tão sonhadora porque, numa época em que todos faziam amor com quem quisessem, preferia ficar sozinha e saciar ela própria os seus desejos a ter de se relacionar intimamente com quem quer que fosse dos homens que tinha à sua volta. Era assim tão desgarrada porque não tinha lugar fixo para morar, não tinha família e não fazia questão de dar nenhuma pista do seu paradeiro a ninguém. Era assim tão independente porque pagava, ela própria, as suas contas, suas roupas exóticas, os seus perfumes raros e a comida não menos rara e cara que comia, seguidora que era de regimes e dietas muito especiais. Era assim tão corajosa porque, com a onda de assaltos e violência que assolava os lugares, andava sozinha a altas horas da noite ou da madrugada, dependendo da sua disposição para ficar nos bares observando atenta as pessoas, procurando aquela que seria a escolhida para tirá-la da solidão. Era assim tão chocante porque, a cada um dos homens que a assediavam com segundas intenções, respondia na lata que até então só havia feito amor com mulheres e isso já há longos e insuportáveis três anos. Era assim tão sem tabus nem preconceitos porque, quando uma vez conversávamos, me disse sem rodeios: Desejo é um ser andrógino, um homulher, que, este sim, me possuirá, será possuído por mim e me dará prazer. Era assim tão direta porque não tinha papas na língua e dizia tudo o que bem entendia e pensava. Era assim tão oriental porque gostava de incensos e especiarias e véus e sedas e tal. Era assim tão insana porque não tinha pé nem cabeça e ninguém a compreendia. Era assim tão sui-generis porque não havia ninguém como ela. Era assim tão solitária porque ninguém lhe interessava. Era assim tão fascinante por ser dona de um passado e de um presente tão incríveis. Era assim tão esfingética por ser tão indecifrável...
Escrevi esse conto na Ilha do Mel, em fevereiro de 1985. Na foto, Shirley Mallman, que lembra muito a moça que me inspirou.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

UPDATED PIRACAIA

Já falei inúmeras vezes aqui no blog do quanto curto e preciso ir a Piracaia de tempos em tempos para recarregar minhas energias. E quando digo Piracaia me refiro ao sensacional La Figueira, misto de retiro, pousada, templo, centro de reconexão com a natureza, escola, complexo esportivo, casa de cultura, gastronomia e o que mais você desejar no alto da montanha, com vista para um enorme vale que descortina a figueira em si e, mais ao longe e abaixo, a represa. Uma experiência sempre inesquecível e renovadora. Nesse último fim de semana tive o privilégio de lá voltar, como special guest dos proprietários, e tive uma grata surpresa: La Figueira foi totalmente revista, melhorada, ampliada, atualizada e agora, na minha modesta opinião, está perfeita. (Antes eu achava - como urbanóide que sou - que faltava o acesso à internet para a perfeição). Agora tem internet, sauna, suítes maravilhosas com vista para o vale. Inclusive os banheiros tem inacreditáveis vistas para as montanhas. Só vivendo para saber. Você pode reunir um grupo e locar o espaço para qualquer tipo de atividade relacionada à saúde, ao auto-conhecimento, à reeducação alimentar, ou, até mesmo, para fazer uma inusitada festa particular. Retiros de silêncio e jejum são frequentes por lá. É claro que eu não vou assim tão desapegado e costumo levar várias coisinhas para passar o tempo. Entre elas bons drinks, é claro. Mas a grande estrela para mim, mesmo agora com a internet, continua sendo o silêncio. Esse meu sonho de consumo, meu artigo de luxo preferido. Depois do champagne, bien sûr... Vê-se macacos, tucanos, besouros-rinocerontes e sapos. E as noites costumam ser de tirar o fôlego, tal a quantidade de estrelas. Se tiver lua cheia, então, já viu... Se quem me lê não se animar a ir até lá para conhecer, pelo menos dê uma olhada e curta a página deles no facebook, La Figueira Piracaia. O mês de novembro não poderia ter entrado de maneira melhor...
Nas fotos, Rodrigo e Weidy fazem circo enquanto eu medito de frente para o vale.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

RESSACA

Acordou passava do meio-dia. O calor de quarenta graus fazia a cidade derreter. Porto Alegre sempre foi um forno no verão, pensou, a cabeça pesada de ressaca. No videocassete o filme de Jim Jarmusch, Stranger Than Paradise. (Não esquecer de rebobinar a fita antes de devolver para a locadora). Será que a Vespa está na garagem? Por Deus, não lembrava de na-da. Sim, constatou depois de ver pela janela, estava lá, estacionada na vaga. Tudo correra bem... Ou, pelo menos, quase tudo. Ou quase bem... Ocidente lotado, incontáveis gin-tônicas, a Gorda vestida como a Madonna, Paulo Vicente de maiô e estola de pele, procura-se Suzan desesperadamente! Aos poucos começava a lembrar: A festa na casa da Martinha! Tinha tomado um hipofagin antes daqueles uísques todos... Talking Heads, Laurie Anderson, The Cure, o pó mocosado na folhagem da portaria! Será que ainda está? Tinha certeza que entre uma aula no prédio antigo do DAD e o ensaio na cúpula da Engenharia guardara lá... Aff! Ressaca assim só depois daquela noite no Esperança, o bar do Java na Fernandes Vieira. Ou seria na Felipe? Que depois de uma rodada de beijos foram todos esticar na casa do Leandro. Quem tinha ido, mesmo? Não importa. O Leandro era namorado do seu melhor amigo e pegou super mal. Uma saia justa de couro. Sem forro... Restos de gel purpurinado grudavam o cabelo na nuca. Olhando no espelho pensou: Ligo pro Walter assim que voltar ao normal. Preciso passar hoje mesmo no Scalp pra dar um jeito nesse cabelo. Entre a aula de dança na Choreo e o show do Mareu. Onde é que guardara o retrato em monóculo que a Rochelle fez dentro do caixão do Beijo Ardente? A década inteira passava na sua cabeça: Mil novecentos e oitenta, oitenta e um, oitenta e dois, oitenta e três... Quatro , cinco, seis, sete... Em que ano a Gorda de Madonna? As festas da Martinha, quando foram os Talking Heads? A Vespa na garagem, os ensaios do Tear, o Esperança, a video-locadora, o Leandro... O Ocidente a década inteira, do início ao fim, isso era certo. Meu Deus, que ressaca! Ressaca de uma década. Depois Cazuza morreu, ele foi morar em Paris, os noventa foram chegando e, de repente, tudo já era passado... Nunca mais quatre-vingt!
Na foto, minha tentativa de digitalizar o monóculo de Rochelle Costi.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

TAXI

Saiu da boate entre bocejos, tragadas e goles. Foi o tempo de atravessar a rua, acenar e entrar no taxi que passava. Livre, graças a Deus. Percebeu pelo luminoso aceso em cima do carro. Afundou no banco traseiro enquanto dava a direção a seguir. Quando o taxi cruzou a Paulista de ponta a ponta, do Paraíso até a Consolação, o relógio digital no alto do Conjunto Nacional marcava quase quatro horas da manhã. Vinda do rádio, a voz de Baby Consuelo soava como uma última possibilidade de esperança: Eu queria tanto encontrar você... Olhando as pessoas que passavam a pé pela avenida era fácil distinguir quem estava saindo de casa para trabalhar de quem voltava pra casa depois de uma noite de festa, dança, bebida, incontáveis cigarros e interminável busca. Cai, cai aqui na minha mão. Eu não vou deixar cair, não... Na memória da retina as luzes ainda piscavam fortes e na cabeça, pulsava retumbante a batida da música eletrônica, remixando o auê com você de Baby Consuelo. Do Brasil, lembrou num esgar. Consuelo era tão melhor... Os últimos goles da última cerveja antes de pagar e descer do táxi em frente ao hotel. Só nos filmes as pessoas descem primeiro do taxi e pagam depois, pensou. Ou lembrou, como em um flash. O motorista arrancou e ele, parado à porta do hotel, ainda escutou, vindo do rádio do taxi que se afastava: Você voa no céu feito gaivota. Você é um passarinho... Deitado sozinho em seu quarto de hotel, olhava pro teto quando pensou: Isso já foi há tanto tempo. A boate da Brigadeiro nem existe mais. Como era mesmo o nome? Diesel? Base? Deixa pra lá...

terça-feira, 14 de outubro de 2014

SEM PALAVRAS

Outubro já está na metade e eu apenas chegando ao segundo post do mês. É raro de acontecer, mas às vezes é exatamente assim que me sinto: Sem palavras. Ontem fui assistir ao belíssimo filme Atilla Marcel, de Sylvain Chomet, no qual o protagonista, Paul, só pronuncia uma única palavra: Papai. E o filme acaba. Fiquei impressionado com a atuação daquele jovem ator francês, Guillaume Gouix, que passa pelas mais variadas emoções ao longo da história sem pronunciar uma só palavra. Aliás, só uma. Un seul mot: Papa. Acho que o filme me tocou justamente por esse detalhe: A ausência de palavras do personagem. E me refiro aqui, no meu caso, à palavra escrita. Pois, felizmente, falar eu continuo falando. Pouco. Mas falo. Acho que estamos vivendo um momento em que tudo é dito demais, falado demais o tempo todo. A própria Clarice Lispector, hoje tão citada pelos que tem muito a dizer, já declarou: "Minhas desequilibradas palavras são o luxo de meu silêncio". Eu modestamente venho dizendo há um bom tempo que silêncio em si é um artigo de luxo. E não apenas o silêncio externo, real. Mas o interno, também. O silêncio da alma. Fiquei lembrando do impressionante monólogo sem palavras Depois do Expediente, a que assisti aqui em São Paulo, nos anos oitenta, com a maravilhosa e saudosa Ileana Kwasinsky... A gente ouve tantas coisas, lê tantas coisas o tempo todo, recebe tanta informação, útil ou não, que se perde no alarido geral. Quero dizer que estou em crise de escrita. As palavras me escapam. Adoro dizer isso em francês: Les mots m'échappent... E é bom que assim seja, de vez em quando. Até que essa crise passe, talvez eu não escreva mais nada aqui. Não farei críticas nem elogios. Não reclamarei de ninguém nem de nada. E, sobretudo, não tentarei convencer ninguém a votar no mesmo candidato que eu. Que pra isso já basta o Facebook. E deixa eu parar por aqui porque, para quem está sem palavras, já estou escrevendo demais. Estou parecendo o filho de um famoso casal de atores que foi na estreia do musical de sua mãe, postou uma foto no instagram e escreveu: "Sem palavras para a estreia da minha mãe, etc, etc, etc..." e seguiu transformando em extenso parágrafo o que deveria ser apenas a legenda da foto. Eu ri imaginando o que ele escreveria se estivesse COM palavras... Bom, agora chega! E até, quem sabe, novembro! Enquanto isso, não deixem de assistir ao intrigante Atilla Marcel.
Na foto, o silêncio cheio de palavras não ditas de Guillaume Gouix.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

PARA SEMPRE TEU, CAIO F.

Adentro o mês de outubro no maior estilo, indo para o Rio de Janeiro para a exibição do documentário Para Sempre Teu, Caio F., de Candé Salles, inspirado no livro homônimo de Paula Dip, do qual tive a honra de participar como ator. O filme reúne depoimentos de amigos do escritor Caio Fernando Abreu, imagens do próprio Caio e atores interpretando os seus textos. Já contei aqui no blog, no post 15 ANOS, mas a importância da ocasião exige replay: Conheci Caio no começo dos anos noventa, quando morava em Paris, através de um grande amigo em comum, Luiz Arthur Nunes, que anteviu nossas possíveis afinidades. Eu hospedara o Luiz na minha humilde residência parisiense antes de ele ir a Londres e lá encontrar o Caio. Quando voltou para Paris, disse que tinha deixado meu número de telefone para ele, que em alguns dias chegaria na capital francesa. Detalhe: Caio era meu escritor preferido e um dos meus ídolos vivos sobre a Terra. Corte de tempo: Quase caio para trás quando atendo o telefone e escuto do outro lado da linha sua voz grave anunciando: É o Caio! Quando a gente tem vinte e poucos anos, morar em Paris já é um sonho. Imagine ter vinte e poucos, estar morando em Paris, conhecer o seu escritor preferido e ficar amigo dele? C'est inestimable... Além disso tudo e do que se seguiu por anos até a morte de Caio, muito da honra que sinto de participar desse filme vem do fato de eu estar apresentando uma faceta dele que é pouco conhecida do grande público de fãs e admiradores da sua obra: O Caio divertido, engraçado. Os amigos sabem: Ele era dono de um refinadíssimo senso de humor. E nada mais divertido do que falar bobagens "enchendo o cú de brama" na sua companhia. Pois interpreto sua Lenda das Jaciras, ou As Quatro Irmãs (Psico-antropologia Fake). Adorável desde o título, como só ele sabia ser... O texto não aparece inteiro no filme, pois a cena ficaria longa demais. Mas nas mãos de Candé ele teve uma edição perfeita, dando uma clara ideia de cada uma das quatro irmãs: Jacira, Telma, Irma e Irene. Pra quem não sabe, era assim que Caio classificava os quatro tipos de bichas existentes. Todas clássicas, arquetípicas... O filme será exibido no Festival do Rio nos dias 5, 7 e 8 de outubro. Você pode conferir horários e salas de exibição no site do festival. É isso! Bom outubro para todos. O meu está começando em alto estilo...
Na foto, colagem de Caio que ilustra o cartaz do filme de Candé e Paula.