sexta-feira, 16 de dezembro de 2011


SEU ZARPELLON

Seu Zarpellon era fotógrafo. O fotógrafo de Soledade, minha cidade natal. Mais do que isso, ele era a memória da cidade. Todo o que acontecia, ele registrava. E o que acontecera no passado, também. Seu estúdio ficava em frente à praça, bem no centro da cidade. Era uma pequena casa de madeira, no fundo do terreno do prédio no qual ele morava. Entrava-se pela garagem do edifício, que ele transformou numa espécie de galeria, onde fixava quadros com as fotografias dos últimos eventos da sociedade. Sempre que íamos passear na praça, dávamos uma passada por lá para saber das novidades. Uma espécie de coluna social ilustrada... Cada vez que ia tirar uma foto, Seu Zarpellon ficava um tempão dirigindo os modelos. O que deu origem à expressão: Vai, Zarpellon! Usada sempre que alguém demorava demais para bater uma foto... Sua filha Marília foi minha professora de história no ginásio. Eu adorava a Marília. Ela era interessantíssima. A única pessoa que eu conhecia que já havia feito várias viagens à Europa... Um dia, numa das minhas visitas à Marília, pedi ao Seu Zarpellon que posasse para mim. Já que ele fotografava todo mundo, eu queria ser a pessoa que iria fazer o mesmo com ele. Então subimos no terraço do prédio, onde fiz a foto que ilustra o post... A maior parte dos retratos de família que tenho foram feitas por ele. Tenho especial carinho por um que ele fez da minha mãe, fantasiada de cigana no carnaval. Fez a foto em preto & branco e depois coloriu-a à mão. Hoje ela está emoldurada e tem lugar de destaque na sala da minha casa... Adoraria ter acesso aos arquivos do Seu Zarpellon, espécie de google images da época. Aliás, onde estará guardado tal tesouro?

Na foto, Seu Zarpellon contempla Soledade do alto do seu edifício.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011



NATALIZAÇÃO PRECOCE

Adoro o Natal e desde criança essa sempre foi a minha época preferida do ano. Mais do que a data em si, com os presentes, a decoração, a família reunida, as comidas deliciosamente diferentes, o que me encantava e continua encantando era a chegada das férias e do verão. Fim de um ano e início de um outro, cheio de expectativas e sonhos a realizar. Eu fico muito mais feliz nesse período em que os dias são mais longos, as noites agradáveis, todo mundo fica muito mais à vontade no verão do que no inverno, escuro, frio e fechado por natureza. Mas o que tem me irritado bastante, de uns tempos pra cá, é o que chamo de natalização precoce. Com o explícito intuito de incentivar o consumo, começa-se a viver o Natal cada vez mais cedo! Gente, pelo amor de Deus, esse ano já tinha enfeites de Natal no mês de outubro! Quer dizer, o Papai Noel ainda nem pensou em entrar na chaminé e o Natal já está sendo gozado... Outra coisa que me irrita sobremaneira é a permanência, em pleno século vinte e um, da reprodução, aqui nos trópicos, do Natal dos países do hemisfério norte. Há tempos atrás, tudo bem. Não se tinha muito acesso à informação e éramos colonizados mesmo, logo, aceitávamos essa aculturação sem muito questionamento. Mas hoje em dia, com a globalização, a internet e tudo o mais, continuarmos representando o Natal com neve, renas e trenós é no mínimo insólito... E o Papai Noel com aquela roupa de pelúcia? Aliás, será que alguma criança com mais de dois anos de idade ainda acredita em Papai Noel? Muitos gostam de destacar, principalmente nas redes sociais, que perdeu-se o “verdadeiro sentido” do Natal e que agora é só consumo. Pois bem: Eu fui criado numa família católica e juro a todos vocês que nunca soube o que vem a ser esse tal “verdadeiro sentido” do Natal. Pra mim, e acho que pra todas as crianças do meu tempo, o sentido do Natal sempre foi ganhar presentes. De preferência coisas mais caras, que durante o ano, nas datas menores, não ganhávamos... E, claro, festejar com parentes, amigos, comidas e bebidas especiais...

E, cá entre nós, não é uma delícia?

Joyeux Noël à tous!

Nas fotos, a Fiesp toda trabalhada no dourado e a reciclagem de pets que adorna a fachada do Conjunto Nacional.

domingo, 11 de dezembro de 2011









DOMINGÃO
O domingo amanheceu nublado e eu não dava nada por ele... De repente se encheu de sol e tudo começou a acontecer! Fui almoçar com minha amiga Adriane Mottola, que está de passagem por São Paulo, e colocamos o papo em dia. Depois fui ao Sesc Belenzinho para assistir ao espetáculo Alguém Acaba de Morrer lá fora, texto do jovem dramaturgo Jô Bilac, de quem já ouvira muito falar, com direção de Pedro Neschling. Adorei. Fico muito feliz quando vejo gente jovem produzindo trabalhos relevantes e de qualidade. Ótimos texto e direção. Pedro revela-se excelente diretor, claro, limpo, seguro, moderno. Como disse minha professora Irene Brietzke ao avaliar a primeira cena que dirigi na faculdade de teatro: Tem postura de diretor. O que, nos dias de hoje, já tem valor de ouro... Sem falar que no elenco está a musa da minha adolescência Lucélia Santos, que vem a ser a mãe do Pedro e está na sua melhor forma, uma menina em cena... O Sesc Belenzinho é um luxo e merece um post à parte aqui no blog. E nos brindou com um entardecer encantador, com direito a por do sol do terraço do café do teatro... Agora escrevo
admirando a lua cheia, que resolveu não deixar por menos e dar um show digno de abafar as luzinhas do Natal, que atravancam a Avenida Paulista e adjacências. O fim de semana foi pródigo em artes cênicas. Na sexta, fui assistir à Dona Fernanda Montenegro com seu solo chiquérrimo Viver Sem Tempos Mortos. O título diz tudo e é exatamente o que a dama do nosso teatro faz desde que põe o pé sur la scène e senta-se na sua cadeira: Vive sem tempos mortos a vida de Simone de Beauvoir e nos leva junto com ela. Só voz, expressão facial, pouquíssimos gestos e uma dicção impecável. Fernanda, do alto dos seus oitenta, não erra uma sílaba. É um luxo em tempos de atores que mal sabem falar... No sábado foi a vez do novo Almodóvar: A Pele que Habito. Sempre amei, idolatrei Almodóvar, salve, salve. Ele está cada vez melhor e mais louco, o que, por si só, já quer dizer melhor. Entendam como quiserem. O que é melhor para uns pode não ser melhor para outros. E deixa eu sair do computador que a lua grita lá fora!



Bonne semaine à tous!



Nas fotos, Pedrinho e Mamãe e entardecer sobre o Sesc Belenzinho.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011


JUDY IN RIO...
De volta a São Paulo, rotina retomada, e já com saudades do Rio... Meus últimos momentos na Cidade Maravilhosa foram marcados pela incrível atuação de Claudia Netto vivendo Judy Garland no musical da dupla/grife Charles Moeller & Claudio Botelho, Judy Garland o Fim do Arco-iris. Quando digo vivendo não é nenhum exagero. Claudia vive mesmo a Judy dos últimos meses de vida, alternando cenas de show com bastidores bafônicos de vida pessoal totalmente embalada pela explosiva combinação álcool+ barbitúricos. Impressionante. Quem for ao Rio de Janeiro, por favor, não deixe de conferir, é daqueles espetáculos que a gente guarda para sempre na lembrança, sabe? Não vou falar mais para não ficar parecendo uma crítica, pois não sou profissional habilitado para tal. O que deixo aqui são impressões de um espectador emocionado pelo enorme talento dessa que eu nem suspeitava fosse a grande atriz e performer que é. Uma pena o ator que interpreta seu noivo, apesar de belo, ser tão fraco, quase um Cigano Ígor... Lembra? Melhor não. O que fica e vale realmente a pena é a antológica criação de Claudia Netto. Se alguém que ler esse post por ventura conhecê-la, transmita a essa moça incrivelmente talentosa os meus parabéns. E o meu mais sincero agradecimento...
Na foto, Claudia caracterizada como a mãe de Liza Minelli.

sábado, 3 de dezembro de 2011




BATE PERNAS...

Adoro bater pernas no Rio de Janeiro, de Ipanema ao Centro, passando por Copacabana com suas riquíssimas fauna & flora. E, claro, seu mundo mineral também... Aliás, esse é um hábito que tenho. Sempre que viajo, gosto de me deixar levar pelas cidades. Programo uma atividade ou lugar que quero conhecer e, a partir daí, acabo indo a vários outros, que surgem ao acaso. E assim, desvendo as cidades... Ao meu modo. Quando vou a lugares turísticos, gosto de observar os turistas estrangeiros que fazem todos os passeios usando aquelas horríveis sandálias de tiras de nylon e grossas solas pretas de borracha, com bermudas, camiseta e mochila. E fico me perguntando: De que adianta conhecer lugares incríveis e sair horroroso nas fotos? Sim, porque ninguém, nem a mais loura e alta das suecas, fotografa bem usando trajes tão deselegantes...Tudo bem, eu sei que é em nome do conforto. Mas, se unissem conforto a um mínimo de elegância, ficaria melhor pra todo mundo... E as gerações futuras, ao admirarem velhos retratos, teriam outra impressão dos seus antepassados... Os espelhos art- nouveau da Confeitaria Colombo, por exemplo, devem contemplar incrédulos a ação do tempo sobre a indumentária dos seus frequentadores... Estive no Centro do Rio, fui ao Paço Imperial, à Colombo em si, ao Convento de Santo Antônio, meu santo de devoção, ao Centro Cultural Banco do Brasil, onde visitei a exposição da Índia e assisti ao espetáculo Não me Diga Adeus, com direção de Gilberto Gavronski e fui também ao Centro Cultural dos Correios, onde estão expostas as fotografias de Brassaï, reunidas na mostra Paris la Nuit.... Ou seja, uma coisa leva à outra e à outra e etc...

Nas fotos, o Largo da Carioca visto do Convento de Santo Antonio, a fachada da Colombo e a colorida rua Primeiro de Março.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011



LEME

Se você estiver de frente pro mar, na ponta esquerda de Copacabana, lá no finzinho, fica o bairro do Leme. Ele não é moderno como Ipanema, nem sofisticado como o Leblon. Tampouco esfuziante, como sua feérica e já muitas vezes cantada vizinha, Copacabana. O Leme é discreto, pequeno e charmoso. Quase todos os moradores se conhecem e se cumprimentam pelo bairro. As ruas são mais tranqüilas, sem aquele trânsito constante de carros e ônibus das suas vizinhas. Tem restaurantes charmosos e modernos, como o já aqui citado La Fabrique, e tradicionais, como o Amicci e o Shirley, onde se come os mais incríveis frutos do mar... No início dos anos noventa, quando voltei de Paris e vim para o Rio trabalhar com Luiz Arthur Nunes, morei no Leme, na rua Gustavo Sampaio, que é paralela à Avenida Atlântica. O bom é que da minha janela dava pra ver uma nesga de mar... Clarice Lispector morava no Leme. Nessa mesma rua... É da Pedra do Leme que se tem uma das mais belas vistas da praia de Copacabana. Ela tem esse nome porque, quando vista do alto, tem a forma de um leme de navio. Lá fica o Caminho dos Pescadores, de onde eles lançam seus anzóis ao mar. Lá tem também um senhor japonês de quase oitenta anos que mergulha pulando do alto da pedra e volta por uma corda que deixa amarrada nas pilastras de proteção... Os cachorros dos moradores se encontram, latem uns para os outros, se cheiram e seguem o passeio. No Leme fica o prédio do antigo Hotel Méridien, cuja cascata de fogos iluminava o révéillon de Copacabana. No subsolo do Méridien ficava o Rio Jazz Club, onde assisti, nos anos noventa, ao show da banda paulista Vexame... Sempre vou ao Leme. Se por mais não for, para fazer belas fotos, como essas que ilustram o post. E sempre me vem à memória os versos da canção de Carmen Miranda: Paris, Paris je t’aime, mas eu gosto muito mais do Leme...

Nas fotos, o Leme em si, com o Méridien ao fundo, e o Caminho dos Pescadores.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011


PRIMEIRO DE DEZEMBRO
O mês de dezembro entrou com força aqui no Rio de Janeiro. Fui acordado às seis da manhã pelo barulho do vento, que soprava forte balançando as árvores da mata que vejo aqui da janela do meu quarto na casa da Shala. A força do vento foi tamanha que varreu para longe as nuvens que ameaçavam nublar o dia. E a quinta-feira primeiro de dezembro se fez quente e ensolarada, o mais esplendoroso dia desde que cheguei no Rio. Escrevo na praia, de frente para o mar de Ipanema, enquanto sinto queimando minha pele mesmo à sombra do guarda-sol...Ouço Marisa Monte no diskman: Ainda bem que agora encontrei você... Adoro o mês de dezembro. Sempre me traz as mais felizes lembranças da infância e juventude. Dezembro era quando pintávamos a casa para esperar o Natal. Até hoje, quando sinto cheiro de tinta fresca, me vem à memória as festas de Natal. O Natal da minha infância em Soledade, quando a nossa vizinha Doroty, que era artista plástica, vinha pintar motivos natalinos nas vidraças da porta de casa... Bem vindo, mês de dezembro! Mês do aniversário do meu blog, que esse ano completa dois anos... Estou adorando entrar dezembro no Rio, cidade que, nesse ano, só vim rever agora que ele começa a terminar... Bom dezembro a todos!