quinta-feira, 26 de setembro de 2019

PERSEVERANÇA

Graças a Deus, taí uma coisa que nunca me faltou: Perseverança. Me considero a personificação da própria. Mas estou me referindo aqui ao título do novo livro de memórias de Antonio Bivar. Adoro essa ideia do Bivar de lançar a autobiografia em vários volumes, cada um deles dedicado a uma fase distinta da vida do autobiografado. A gente acompanha com o interesse e o entusiasmo de quem acompanha um folhetim, por exemplo. E Bivar é mestre nessa capacidade de contar a própria história de maneira a prender o leitor. Uma espécie de Sherazade, das Mil e Uma Noites... Desta vez não pude comparecer ao lançamento, pois foi numa terça-feira e estou em cartaz às terças com a Terça Insana. Mas comprei imediatamente e já devorei... Não vou chover no molhado mais uma vez dizendo que amo esse autor, que sou seu fã de carteirinha, que li todos os seus livros, etc. Basta digitar o nome dele no campo de busca do blog e pipocarão posts dedicados a esse ícone da dramaturgia e da cultura pop brasileiros. E esse Perseverança, que vem a ser o sexto volume da biografia, vem com mais novidades. Eu, que me achava conhecedor da vida de Bivar, fui surpreendido com fatos que desconhecia totalmente. Como, por exemplo, ele ter dirigido o show da dupla Leandro e Leonardo, quando estes despontavam para o sucesso no início dos anos noventa. E ter feito os dois cantarem Luar do Sertão acompanhados de Marlene Dietrich numa gravação ao vivo feita aqui no Brasil. Sempre surpreendente esse Bivar... Isso sem falar na fascinante história da sua visita ao quarto de hotel de Quentin Crisp, em Nova Iorque, e a entrevista que dela resultou; os bastidores do programa TVLeezão, mais uma parceria de sucesso de Bivar com Rita Lee; as deliciosas histórias de sua participação nas revistas Around e AZ, de Joyce Pascowitch. Sou completamente apaixonado por esse período e por essas publicações. Adoro todo o staf criativo, formado por artistas que admiro, entre os quais, para citar apenas um, Caio Fernando Abreu. Sinto como se pertencesse a essa geração, que é anterior à minha, e da qual não vejo correspondentes na minha própria. Me sinto, então, tremendamente só... Gosto especialmente dos trechos do seu diário, que ele inclui generosamente como um presente para os leitores. Que bom que Bivar se mantém ativo e producente. E eu, com muita perseverança, me mantenho à espera de seus novos lançamentos...
Nas fotos, Bivar em si com modelito afro no lançamento do livro e a capa de Perseverança, com aquarela do próprio.

sábado, 21 de setembro de 2019

SETEMBRO INSANO

O mês de setembro mal começou e já se aproxima do fim. E tem sido bem insano. A primavera explode em floradas de ipês que enfeitam as cidades e enchem os olhos, a alma, o coração. As comemorações dos dezoito anos da Terça Insana seguem agora, além da turnê nacional, com temporada em São Paulo às terças-feiras no Teatro Procópio Ferreira. Lá temos recebido, Grace e eu, convidados que já fizeram parte do elenco ou que fizeram participações ou mesmo só admiram o projeto ou foram influenciados por ele. Tem sido emocionante para mim que nunca havia me apresentado nesse teatro onde assisti a tantos espetáculos inesquecíveis... Já passamos por Belo Horizonte, Campinas, Jacareí, Cerquilho, Santos, Guarujá, Araras, Caxias do Sul e Florianopolis, de onde escrevo. Nos apresentaremos logo menos às 21 horas e amanhã às 19 horas. Amo essa cidade, espécie de ilha encantada que guarda muitas lembranças da minha juventude... De modo que, na insanidade de apresentar e reapresentar cenas e personagens criados ao longo de dezoito anos de Terça Insana, sigo meu setembro adentro sempre grato aos deuses que me permitem estar sobre o palco, um dos lugares onde mais gosto de estar nessa vida. O outro é Paris...
Na foto, minha personagem Betina Botox, que volta atualizada. Ou, como ela prefere dizer, totalmente reloaded.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

SP EM PODCAST

Por indicação de minha amiga Agnes Zuliani, estou participado de uma série em podcast para a Prefeitura de São Paulo. Para quem ainda não sabe - como era o meu caso até receber o convite e começar a gravar - podcast é um novo formato de mídia ou, melhor dizendo, uma nova plataforma de exibição de conteúdos em áudio. Só isso já seria interessante o bastante. Mas é ainda melhor: Trata-se de uma série de ficção, chamada Idas e Vindas, que conta a história da Capital Paulista. Para um apaixonado por São Paulo como eu, é um deleite conhecer a origem dos nomes de suas ruas, por exemplo. Ou como ela foi fundada. E o melhor: Tem um clima de novela de rádio que torna tudo uma delícia de se fazer. Tenho a oportunidade de exercitar diferentes vozes e sotaques. Já gravamos episódios sobre a Revolução de 32 e sobre a Semana de Arte Moderna, entre outros. Já dei voz a padres, bandeirantes, combatentes e até a um pirata inglês. Sem falar no deleite que foi personificar o poeta suíço/francês Blaise Cendras no episódio sobre a semana de 1922... Sempre desejei trabalhar com a voz para além dos palcos e isso finalmente se apresenta para mim. Quando ainda morava em Porto Alegre, cheguei a gravar alguns spots de rádio. O primeiro que gravei foi para a Gang, uma loja/marca de roupas. No estúdio da Versus, produtora do saudoso Bira Valdez. Lembro até hoje minha fala: "Quando eu era pequeno, tinha o maior medo de cair dentro da bolsa da minha mãe". E o locutor assinava: "Gang, a loja que te entende"... Pois agora, já passado em anos, finalmente tenho a oportunidade de trabalhar nesse nicho do mercado que sempre desejei. O que reforça minha crença de que nunca é tarde para se começar ou recomeçar o que quer que seja. Basta estar atento e forte... A direção, sempre atenta aos detalhes, é de Daniela Pistone, que vem a ser também a autora da série. Estou adorando participar...
Na foto eu, todo compenetrado, dando voz aos personagens de Daniela.

sábado, 24 de agosto de 2019

FUTURO

Senti vontade de repostar esse texto de fevereiro de 2010:
Lembra do futuro, aquela abstração longínqua e improvável que aconteceria lá pelo ano dois mil? Pois é. Sinto informar que ele chegou. E a conseqüência imediata e inevitável dessa chegada é que você deixou de ser aquele jovem um tanto irresponsável, cheio de sonhos na cabeça e com toda uma vida pela frente e se transformou nesse senhor de meia idade, com cabelos grisalhos e muita, muita responsabilidade. Ah! E sem o menor saco pra balada.
Só isso? Que nada. Muito mais. E agora não adianta reclamar. O futuro está aí e veio em conseqüência dos nossos atos passados e presentes. Quanta violência! Quanta desigualdade social! Quanto calor! Quanto frio! Quantas enchentes! Quantos desastres naturais...Pois é, pensássemos nisso tudo antes, quando o futuro ainda era aquela abstração longínqua etc. Imagino o futuro personificado, chegando aqui no nosso presente para dar o seu recado. Ele chegaria riquíssimo, coberto de ouro, num veículo ultra-moderno, pois, como todo mundo passou a vida inteira guardando dinheiro pro futuro, não deu outra: ele enriqueceu. Ele desceria de sua geringonça voadora saudando a todos com um simpático cumprimento:
- E aí, gentalha, tudo bem com vocês? Claro que não! Dá pra ver... Ahahaha! Eu sou o Futuro! Vocês não vivem esperando por mim? Então, cheguei! Agora lidem com isso...
Os céticos e os pessimistas, que achavam que o futuro era negro, ficam logo decepcionados, pois ele é branco, louro, tem olhos azuis e é belíssimo. Os crentes, que passaram a vida repetindo que “o futuro a Deus pertence” ficam estarrecidos ante a revelação feita por ele logo de cara, na lata:
- Sou autônomo. Não tenho vínculo com nenhuma divindade e muito menos com facção religiosa.
A turba, reunida em plena Avenida Paulista debaixo de chuva, segue atônita escutando as bombásticas declarações desse ser, misto de tempo verbal com o porvir da humanidade:
-Não quero nem saber se o pretérito é perfeito, imperfeito ou mais que perfeito. Eu sou o futuro do presente. De vocês. Sou a conseqüência do que vocês estão fazendo hoje. Agora, o que vocês gostariam que acontecesse é lá com o Futuro do Pretérito, aquela bicha insuportável. Aliás, quando eu estava vindo pra cá, cruzei com o Presente do Subjuntivo e ele falou: Espero que esteja tudo bem com você, porque pior do que está não vai ficar, não é? Eu falei: vai. Ah, vai. Bom, gente, a verdade é que nenhum tempo verbal fala mais comigo. O Gerúndio me vê e sai correndo. O infinitivo não pode nem me olhar. O Particípio ta passado! Ahahaha!
A multidão incrédula começa a achar que o Futuro se passou no champanhe, cuja flute é automaticamente preenchida assim que ele termina de sorver o líquido gelado & rosé...E ele segue o discurso:
- Sorry, galera. Só vim dar um toque. É tanta vidente, astrólogo, tarólogo, enfim, tanta gente abusando da boa fé de vocês pra falar em nome do futuro que eu resolvi vir pessoalmente pra esclarecer. Você aí: desista, você não vai ganhar na loteria. Desculpe, minha senhora, mas aquela loura não vai sair da vida do seu marido. Ah! Vocês não vão virar chefes dos seus chefes, esqueçam aquela promoção...Estão me achando pessimista? Cruel? Que nada, só digo a verdade. Deixa ver o que mais...ah! Não vai ter paz no futuro. Portanto, no próximo Ano Novo, peçam outra coisa pra Iemanjá. Aliás, poupem-se daqueles rituais intermináveis de comer doze grãos de lentilha, pular não sei quantas ondinhas do mar, bobagem. Bebam e pronto. Brindem o presente. Enquanto eu não venho de vez! Como ja falei, era só um toque. Se quiserem, podem continuar poluindo, batendo, discriminando, matando, desmatando, subornando, votando mal, roubando, desviando dinheiro público pra contas na Suíça, não to nem aí. Só não digam que não avisei. E agora eu ja vou indo, que ainda tenho que dar uma passadinha no Rio de Janeiro. Bye!
Dito isso, ele desaparece no céu, parecendo a Xuxa quando entrava na nave no fim do programa, lembra? Esquece...
E a multidão começou a dispersar jogando muita bituca de cigarro, latinhas de cerveja e refrigerante, papéis e embalagens pet no chão, enquanto reclamava sem parar dos alagamentos da cidade.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

AGOSTO A GOSTO

Eu não poderia ter adentrado o mês de agosto de maneira melhor: Com duas apresentações da Terça Insana em Belo Horizonte, uma na sexta e outra no sábado, duas casas lindas, cheias de mineiros muito animados que nos cobriram de carinhos, risadas e aplausos... Fomos muito bem recebidos nas Minas Gerais, com temperaturas amenas e muitos mimos. De volta a São Paulo, fui correndo ao Parque do Carmo para apreciar a floração das cerejeiras, posto que a florada dura uns quatro dias no máximo. Tanta beleza com tão pouca duração nos dá uma medida exata da impermanência de tudo nessa vida. A própria vida em si, inclusive... Minha mãe não gostava do mês de agosto. Para completar, meu pai faleceu no primeiro dia desse mês. Enquanto me abraçava, aos prantos, ela maldizia o mês nefasto que levara meu pai... Há várias crenças negativas sobre esse mês que, para mim, é exatamente igual a todos os outros que compõem o ano. Na verdade até gosto. Acho que agosto marca o início de um novo ciclo: O segundo semestre, que nos leva rapidinho para o fim do ano. E, consequentemente, para o novo, o que está por vir... Eu sugiro que cada um faça do seu agosto o que bem entender. Ou não faça nada, se assim lhe aprouver. Quer ficar zen, totalmente conectado com seu eu interior? Fique. Desligue a TV, o rádio, esqueça os jornais. Até porque as notícias não andam lá muito boas. Quer brigar com todo mundo que pensa diferente de você? Brigue, xingue, grite. Bloqueie nas redes sociais. Mas desfrute intensamente este mês que nada tem de louco ou mal assombrado. Viva o mês de agosto ao gosto do freguês. E, para terminar citando Caio Fernando Abreu, que sempre é oportuno: Que se possa sonhar, isso é o que conta. Com mãos dadas, suspiros, juras. E beijos, muitos. Bem molhados... Bom agosto a todos!
Na foto eu, bem pimpão, no Bosque das Cerejeiras do Parque do Carmo.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

P.S. DE SP

Caros leitores, peço desculpas por andar escrevendo tão pouco. Julho já se encaminha para o final e eis-me aqui no segundo e talvez último post do mês. Não é que eu não tenha vontade de escrever, pelo contrário, tenho muita. Vontade de escrever qualquer coisa, mesmo algo acadêmico como: Pesquisas recentes nos Estados Unidos apontam para uma desestimulação da escrita... Ou alguma coisa sensacionalista, do tipo: Blogueiro em crise desiste de tudo após ficar quase um mês sem escrever... Mas o que eu tenho vontade mesmo, aliás, muita vontade de escrever, é um romance. Um romance bem romântico, no qual eu utilizaria alguns dados autobiográficos, para acrescentar certa veracidade extra à trama. Algo do tipo: O personagem central é um ator de meia idade que, apesar de estar em cartaz há anos com um espetáculo de sucesso, está em crise. Pessoal e profissional. Um belo dia ele recebe, pelo direct do instagram, elogios de alguém que o assistira na noite anterior. Começam uma conversa que acaba evoluindo primeiro do virtual para o real e, segundo, do café onde marcaram o primeiro encontro para a casa de um dos dois. A história se passaria obviamente em Paris. Sim, porque o personagem central é filho de pai francês e mãe brasileira e ainda bastante pequeno foi levado para a Cidade Luz, onde fez seus estudos e concluiu sua formação de escritor. Depois disso ele optaria por residir no Brasil, embora não deixasse de passar pelo menos três meses por ano na capital francesa. Entre passeios por parques, museus e boulevards o leitor acompanharia o desenrolar dessa paixão proibida. Claro, a paixão teria de ser proibida. Ambos são casados e não tem a menor intenção de se separarem de seus parceiros. O primeiro encontro se passaria no Le Fumoir (meu bar preferido em Paris) e o personagem, ao invés de café, pediria uma coup de champagne. O romance seria escrito com poucas narrações e muitos diálogos. Tal como em P.S. de Paris, de Marc Levy, que mal acabei de ler e já estou relendo... Eu não poderia, obviamente, copiar Marc Levy, apesar de estar apaixonado pela sua escrita ágil, vivaz e contemporânea, cuja trama prende a atenção desde o primeiro capítulo. Adoro esse tempo verbal que estou empregando: O futuro do pretérito. É um tempo no qual as coisas ainda não aconteceram, mas há grande possibilidade de que venham a acontecer. Como podem aferir, apesar de não andar escrevendo muito estou sempre ligado na Língua Portuguesa e nas suas infinitas possibilidades de expressão... Não deixem de ler Marc Levy, o escritor francês mais traduzido do momento. Já, já prometo estar de volta. Quem sabe cheio de inspiração para escrever? Bom inverno para todos...
Na foto, o salão do Le Fumoir, onde se passaria o primeiro encontro da dupla apaixonada. Fiz a foto em 2015, última vez que estive em Paris.

sábado, 6 de julho de 2019

INVERNO ABSURDO

Enfim, o inverno chegou. São Paulo estava se recusando a aceitar essa realidade, continuava fazendo calor por aqui em pleno mês de junho. Mas, finalmente, julho veio trazendo o tão aguardado (por mim) frio. Depois de dois dias chovendo incessantemente, o sábado amanheceu do jeito que gosto: Frio e ensolarado. Como nas manhãs da minha infância e juventude no sul. Como em Paris... Falando nela, a Cidade Luz, minha saudade tem me levado a buscá-la cada vez mais por aqui mesmo. Ontem fui conhecer o Le Jazz do Shopping Higienópolis, enquanto fazia hora para assistir a um espetáculo. Adoro o Le Jazz, tanto o original da Rua dos Pinheiros quanto o dos Jardins, na Melo Alves, mais perto da minha casa. Mas ontem, nessa nova unidade do shopping, me senti como se estivesse em Paris. O clima, o cardápio, a taça de vinho num tamanho mais próximo ao que servem por lá, enfim, tudo. Para quem não sabe o Le Jazz é um restaurante bem no estilo brasserie française que, sem querer imitar, tem muito a cara da capital francesa... Depois subi para assistir, no Teatro Folha, ao espetáculo Quando Tudo Estiver Pronto. Uma agradável surpresa! Comédia dramática com toques de teatro do absurdo, um elenco afinadíssimo, um verdadeiro prazer. Lilian Blanc arrasadora como a mãe judia, esbanjando timming e carisma sur la scène... E por falar em teatro do absurdo, na segunda-feira (ótimo dia para se ir ao teatro) assisti ao novo espetáculo de Dan Nakagawa, o intrigante O Aniversário de Jean Lucca. Dan já me surpreendera positivamente com Normalopatas, sua primeira direção. Agora, mais seguro e amadurecido, ele confirma seu talento para a direção e a dramaturgia. Original, para dizer o mínimo. Você não pode deixar de assistir... Agora vou curtir meu friozinho com sol dando um rolé no bairro da Liberdade. Bon hiver à tous!
PS. Depois que dei esse título ao post, lembrei que tenho visto as pessoas utilizarem o termo absurdo como elogio, para se referirem a algo muito bom, muito incrível, muito sensacional. E fico me perguntando: O termo tem realmente esse significado? Deixo a questão para o leitor refletir....
Nas fotos, o cartaz de O Aniversário de Jean Lucca, Eliete Cigarini, Sylvio Zilber, Patrícia Pichamone, Otavio Martins, Lilian Blanc e Filipe Ribeiro agradecem os merecidos aplausos e o salão do Le Jazz Higienópolis.