Palavras são como pássaros, às vezes pousam na página em branco enchendo-a de beleza e poesia. Outras vezes voam em bando, migratórias, para terras longínquas, deixando sem assunto e nem ao menos título a pobre lauda vazia... Vez por outra se permitem pousar sobre um ou outro assunto, o novo espetáculo de um grande ator de teatro, a estreia de um amigo, um livro que li, um restaurante que conheci, bem en passant, não chegando a preencher sequer um parágrafo... E os assuntos, assim como as palavras, voam em bando para outro hemisfério. Les mots me échappent, como se diz en français... A vida, esse fenômeno por si só já tão interessante, às vezes nos faz pensar que está passando em vão. São Paulo, essa cidade efervescente que amo tanto, às vezes me faz ter a sensação de que não me corresponde, pois me permite, morto de tédio, achar que não há mais o que fazer... E se vai com as palavras o meu assunto. Ouvindo antigos discos de Caetano Veloso me encontro e me reencontro em diversas faixas, refrões, versos. Por mais distante, o errante navegante, canta ele em Terra. Me dou conta de que sigo errando por esse planeta que, às vezes penso, não é o meu. Sim, porque no planeta que imagino meu, metade das coisas que aqui acontecem não aconteceriam... Eu não sou daqui, eu não tenho amor. Marinheiro só errando de cais em cais... Ela me conta que era atriz e trabalhou no Hair. Eu também era ator, costumava brilhar sobre a cena. Alguém disse outro dia na TV: A gente nunca sabe quando vai estar no palco outra vez. Nunca sabe. Acho que foi Crioulo... Eu sempre quis muito. Mesmo que parecesse ser modesto. Agora nem sei se o que quero é muito ou pouco. Tampouco se quero. Ou o quê... Que me voltem as palavras! Isso eu sei que quero. Pelo menos...
Na foto, grafitti na antológica Rua Augusta, inesgotável fonte de assuntos.
sexta-feira, 9 de junho de 2017
sábado, 27 de maio de 2017
ANTÍGONA
Como diria Odorico Paraguassu, é com a alma lavada e enxaguada nas águas da emoção mais profunda que venho por meio deste enaltecer o incomensurável talento de Andrea Beltrão. E, como trata-se de post em blog e o tempo/espaço urge, não me estenderei sobre o irretocável conjunto da obra mas, sim, me restringirei ao não menos irretocável solo que ela agora nos apresenta: Antígona. Não a de Sófocles, mas a da própria. Dela e de Amir Haddad em bem sucedida e oportuna adaptação. Os exageros iniciais de Odorico se justificam por vários motivos. Primeiro porque já pisei em temporada de três meses, há exatos trinta anos, as mesmas tábuas em que agora Andrea nos brinda com sua tragédia: O histórico palco do Sesc Anchieta, templo do teatro de Antunes Filho. Lugar sagrado em que, no ano de 1987, me apresentei com Império da Cobiça, criação do Grupo Tear, da minha mestra Maria Helena Lopes. E, segundo mas não menos importante, porque amo a tragédia grega, em especial essa de Antígona, a jovem que se rebela contra a tirania do governante opressor. Em adaptação primorosa, Andrea percorre não apenas a tragédia mas o mito em si. A genealogia do mito. E conduz a plateia com maestria pelas peripécias trágicas, sem deixar de lado o humor, se é que isso é possível, e acaba provando que é. Sem nunca banalizar a gravidade do tema. Ela é capaz de fazer o público embarcar facilmente em todas as emoções que propõe sobre a cena. Não sou crítico de teatro. O que tento passar aqui vem totalmente embalado pela emoção. E, devo confessar, por algumas taças de vinho... O que mais me agrada na montagem é a dosagem perfeita entre o registro trágico e o drama. Recentemente assisti a uma montagem de Gota d´Água em que o registro da interpretação escorregava o tempo todo para o drama, o que não seria o caso, posto que Gota d´Água é uma adaptação da Medeia, portanto, uma tragédia. Ocorre que Andrea é uma grande atriz. E mais não digo... Muitos anos atrás, nem vou dizer quantos, assisti a uma montagem da Antígona protagonizada por minha professora de interpretação, a grande Sandra Dani, que me marcou profundamente. Dois anos atrás assisti, em Paris, a uma montagem cinematográfica protagonizada pela não menos maravilhosa Juliette Binoche. Devo dizer que temia algo que não estivesse à altura dessas minhas referências. Pois meu temor revelou-se totalmente infundado. Andrea brilha como nunca. Ou melhor, como sempre. Fui às lágrimas quando ela avança pela plateia dizendo a frase do coro: Numerosas são as maravilhas da natureza, mas de todas, a maior é o Homem... Lembrei o tempo todo do meu professor de teatro grego na faculdade de teatro em Porto Alegre, o mestre Ivo Bender. Ele certamente faria várias críticas ao espetáculo. Mas saberia, como poucos, apreciá-lo... Fica até 18 de junho. Não perca!
Fiz a foto enquanto Andrea esperava o público sentar para começar o espetáculo. Depois, educadamente, desliguei o celular.
Fiz a foto enquanto Andrea esperava o público sentar para começar o espetáculo. Depois, educadamente, desliguei o celular.
quinta-feira, 11 de maio de 2017
JAPAN HOUSE
Como volta e meia costumo repetir aqui no blog, São Paulo não se cansa de me surpreender. Acaba de inaugurar na cidade, em plena Avenida Paulista, a Japan House. Em bom português, a Casa Japão. E eu, encantado que sou com tudo o que diz respeito a esse país, fui correndo conferir. Correndo é maneira de falar. A inauguração foi no sábado passado, mas esperei até ontem para evitar aglomerações. E foi ótimo ter esperado. Estava super tranquilo. Mesmo assim, visitei tudo rapidamente, uma passada geral para conferir todos os ambientes. Pretendo voltar com mais tempo e mais calma para me dedicar a cada recanto. Um misto de galeria de arte, biblioteca, café, jardim, loja, restaurante e museu. A exposição inaugural é dedicada ao bambu, elemento presente em vários aspectos da vida e da cultura japonesas. Diversos artistas apresentam obras de grande beleza e impacto visual utilizando esse rico e versátil material. Dei uma rápida olhada nos livros e fiquei especialmente tocado por Kazu, ensaio fotográfico de Herb Ritts com nus artísticos do jogador de futebol japonês Kazuyoshi Miura. O restaurante, no segundo andar com vista para a Avenida Paulista, é o Junji Sakamoto, do renomado chefe de mesmo nome, e a cafeteria no térreo é o Imi Café. Sem muito o que dizer e ainda sob o impacto da primeira visita, deixo algumas imagens que registrei com meu celular. Mais para a frente conto em detalhes sobre o restaurante, exposição, café e etc. Como sempre, a cidade de São Paulo me surpreende e encanta. Sou muito grato por ter sido acolhido por ela. Arigatô, Pauliceia!
Nas fotos, o terraço com vista para a Paulista, eu fazendo graça em frente à parede de washi do artista Yasuo Kobayashi, obra de Chikuunsai IV Tanabe na sala de exposições, o incrível jardim de pedra e Kazuyoshi Miura para Herb Ritts.
Nas fotos, o terraço com vista para a Paulista, eu fazendo graça em frente à parede de washi do artista Yasuo Kobayashi, obra de Chikuunsai IV Tanabe na sala de exposições, o incrível jardim de pedra e Kazuyoshi Miura para Herb Ritts.
terça-feira, 2 de maio de 2017
MONÓLOGO PÚBLICO
Como é bom ir ao teatro. Como é bom ir ao teatro e sair satisfeito. Como é bom ir ao teatro e se sentir provocado, instigado. Como é bom ir ao teatro e sair de lá transformado. Assim é o teatro de Michel Melamed: Provocador, instigante, transformador. Foi a melhor coisa que eu poderia ter feito nesse feriado de segunda-feira. Gosto muito de tudo o que faz esse poeta, autor, ator, diretor, performer e apresentador de TV. Seu solo Dinheiro Grátis já havia mexido muito comigo anos atrás no Rio de Janeiro. E nesse Monólogo Público ele vem ainda mais intenso e autobiográfico. É um deleite embarcar nas desventuras do personagem narrador cujo texto se desenvolve ora em verso ora em prosa, cheio de jogos de palavras e associações, pleno de beleza e inteligência raras. Com uma belíssima luz assinada por Adriana Ortiz, um impressionante objeto/cenário de Sergio Marimba e uma trilha sonora inspirada e inspiradora do DJ Ansioso, Michel está muito bem amparado sobre a cena. Mas ele não precisaria de nada disso. Se quisesse, poderia chegar e fazer seu solo em qualquer lugar, com qualquer roupa, em quaisquer condições. O que interessa, o que enche os olhos, a alma e o coração, é o que está com ele. Seu conteúdo. Ainda bem que o seu monólogo é público. Para mim, que já vivo uma crise de abstinência cênica, foi como uma espécie de abdução ao mundo do teatro. Uma consagração. Uma epifania. Viva Michel Melamed!
Nas fotos, Michel em si sobre o palco e eu totalmente abduzido após o espetáculo.
Nas fotos, Michel em si sobre o palco e eu totalmente abduzido após o espetáculo.
domingo, 30 de abril de 2017
MEDO DE AVIÃO
Que sacanagem esse negócio de todo domingo um cantor bacana se despedir da gente. Domingo passado foi Jerry Adriani. Hoje, Belchior. O tempo vai passando, vamos envelhecendo e perdendo pelo caminho amigos, ídolos e referências. Eu, que nunca tive medo de avião, tremi nas bases quando encontrei com Belchior na loja de discos Spotless, do então meu amigo Cid (onde andará?) na longínqua Porto Alegre do ano de 1979... Já contei mil vezes aqui no blog desse encontro que mudaria a minha vida. Mas, dada a importância da efeméride, vale repetir. Eu ouvia atentamente nos fones de ouvido o recém-lançado LP de estreia de Ângela Ro Ro quando o cearense adentra o descolado point para uma tarde de autógrafos de seu igualmente recém-lançado LP Medo de Avião. Meio sem graça com a pouca frequência, se dirige à minha pequena e meiga pessoa, pergunta o que estou ouvindo e engatamos animada conversa. O que nunca contei aqui é que eu não estava lá por acaso. Sabia muito bem que o rapaz latino-americano sem dinheiro no bolso e sem parentes importantes viria do interior para dar os seus autógrafos. E, do alto dos meus quinze aninhos, fiz a desavisada & blasé... Belchior se encantou comigo, eu com ele e, além de um bom papo e um autógrafo, ganhei um convite para assistir ao seu show novamente, pois já havia assistido na noite anterior. Me pediu para esperá-lo na entrada lateral do Teatro Leopoldina, que era por onde entravam os artistas, que me levaria com ele para os bastidores do show. Eu era um poço de ingenuidade e virgem até a raiz dos cabelos. O que fez com que nenhuma segunda intenção me passasse pela cabeça. Fiquei com ele no camarim até o começo do show, assisti ao show da coxia e, quando as cortinas se fecharam após o bis, me escafedi com algum tipo de sinal de alerta não identificado me dizendo para sumir. É lógico que até hoje me arrependo amargamente de não ter esperado por ele, de não ter saído com ele após a apresentação, de não ter vivido o que quer que fosse que o destino estava tentando fazer para unir o nordeste ao sul. Um gole de conhaque, aquele toque em teu cetim, que coisa adolescente, James Dean. Agora já foi, já era. Até parece que foi ontem minha mocidade, com diploma de sofrer de outra universidade... Ainda bem que tenho suas canções. Que sempre amei, amo e amarei. Não quero ficar falando aqui de coisas que aprendi nos discos. Quero apenas contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo. Vai em paz, Belchior. Em cada luz de mercúrio vejo a luz do teu olhar. Passas praças, viadutos, nem te lembras de voltar. De voltar, de voltar...
Eu tenho o autógrafo guardado, não sei onde. Se soubesse, postaria aqui para ilustrar o post.
Eu tenho o autógrafo guardado, não sei onde. Se soubesse, postaria aqui para ilustrar o post.
domingo, 23 de abril de 2017
DOMINGO CINZA, FADO FELIZ
Domingo, 23 de abril. Depois de amanhã faço aniversário. Cinquenta e quatro anos de idade. Hoje é o dia de São Jorge. Dia das eleições presidenciais na França. Logo mais, à tardinha, vou ver meu amigo Edson Cordeiro cantar Fado, seu novo trabalho, no Sesc Santana. Ano passado eu estava no Rio de Janeiro. Ano retrasado eu estava em Paris. Pelo menos esse ano, já que não estou em Paris, estou de volta ao lar... Sempre gostei de comemorar meu aniversário. Não necessariamente com festa, mas principalmente me presenteando com coisas que gosto de fazer... O domingo cinza de outono levou Jerry Adriani, cantor de grande beleza e voz potente. Como poucas são hoje em dia. Eu, que sempre fora seu seu fã, um dia fui agraciado com sua presença em um dos shows da Terça Insana aqui em São Paulo. Me esperou na saída e ficou um bom tempo conversando comigo. Me contou na ocasião que seu filho se preparava para ser ator. Me deu o número do celular e eu, bobo que sou quando se trata de ídolos, nunca liguei... Que os anjos o recebam no céu da Jovem Guarda! Sobre o quê mesmo é esse post? Não é sobre uma música chata, repetitiva e sem fim, com mensagem de auto-ajuda. Nem pretendo contar nove verdades e uma mentira sobre mim. Prefiro Nove Semanas e Meia de Amor, o filme... Edinho já cantou, arrasou como sempre, foi ovacionado pela plateia lotada do Sesc. Costurou fados com música popular brasileira e internacional. Como só ele sabe fazer. Seu gesto é no momento exato em que me mato, para citar Bethânia em Drama, de Caetano. Quando agradece ao Sesc, Edson fala de um Brasil que dá certo, que pode dar. E com o qual eu sonho... Estou de volta em casa, torcendo para que Le Pen não seja eleita presidente da França. E dando continuidade aos trabalhos comemorativos do meu aniversário... Bonne semaine à tous!
quarta-feira, 12 de abril de 2017
ABRIL 5.4
Bem vindo, mês de abril. O quinquagésimo quarto abril da minha existência na Terra. Começo me desculpando com os leitores, afinal hoje já é dia 12 e este é apenas o primeiro post do mês. Eu poderia alegar falta de assunto, o que não é verdade. Aliás, assunto é o que não falta nessa era dos assuntos que vivemos. Os top trends, os assuntos do dia, da semana, do momento. As opiniões de uns versus as opiniões de outros. A polarização, a ressignificação, a votação, a cassação, a ocupação e, claro, o José Mayer. Então confesso: É desmotivação mesmo. Os assuntos estão todos aí, eu estou aí, no meio deles, afetado direta ou indiretamente por todos. Mas chega uma hora em que a gente cansa, não é mesmo? Tem dias em que a vida pesa. Mesmo para quem leva a vida na flauta... Abril é um mês que mexe muito comigo. É o mês dos meus anos. Do meu inferno astral. Estou me aproximando da metade dos cinquenta, portanto, ficando cada vez mais perto dos sessenta, setenta, etc. Essa perspectiva me põe para pensar. E nem sempre tenho vontade de dividir o que penso com quem me lê. Quando estou pensativo gosto de ficar quieto no meu canto. Ícaro, o espetáculo do Luciano Mallmann a que assisti em Porto Alegre, me pôs para pensar. O filme Moonlight me pôs para pensar. Logo, paro para pensar... A internet se transformou numa espécie de depósito onde todo mundo joga o que quer, independente da qualidade, sem separar o que é reciclável do que é meramente descartável... Quando comecei esse blog oito anos atrás eu estava cheio de expectativas que hoje não tenho mais. Temo estar passando por um processo de desblogarização... Fala sério: Arrasei no termo. Desblogarização. Acho que acabo de cunhá-lo. Nunca tinha ouvido ou lido... Lembro de muitos meses de abril passados nos mais diferentes lugares: Soledade, Porto Alegre, Paris, São Paulo, Rio de Janeiro. Espero que esse quinquagésimo quarto seja pleno de renovação. Porque chega uma hora em que a gente cansa, não é mesmo? Bom mês de abril a todos...
Na foto, Chanson de Montmarte, de Anita Malfatti. Um bom lugar para se passar o mês de abril.
Na foto, Chanson de Montmarte, de Anita Malfatti. Um bom lugar para se passar o mês de abril.
Assinar:
Postagens (Atom)








