domingo, 13 de junho de 2010



DE VOLTA A SP

Sabe quando você volta pra casa depois de férias incríveis e a cabeça continua no lugar onde você estava? E o seu corpo insiste em permanecer no horário daquele local? Talvez como uma vã tentativa de se manter no lugar que você tanto adora e que dessa vez foi melhor do que nunca?
Acho que todo mundo sabe do que estou falando. Basta lembrar dos tempos de escola, quando, ao voltar às aulas, sempre tínhamos que escrever a redação: Minhas Férias...
Pois é, é mais ou menos assim que me sinto sempre que volto de Paris. Ainda mais que dessa vez extrapolei: fiquei quarenta dias! Mas férias não é bem o caso, pois desde dezembro do ano passado que estou sem trabalhar formalmente. Trata-se de tempo de pesquisa, ou, se preferirem, reciclagem. Melhor dizendo: Ócio produtivo. Afinal, durante todo esse tempo, tenho alimentado esse blog regularmente, o que não deixa de ser trabalho, só que não remunerado...
Enfim, fico lembrando das coisas que vi e vivi em Paris. Como o simpático restaurante 4pat. No coração do Marais,em meio a uma profusão de bares e restaurantes gays e gay friendly, o 4pat a princípio assusta, pois tem uma iluminação bastante peculiar, que se assemelha muito a de uma balada. Sempre passávamos pela frente, olhando desconfiados para o seu interior e pensando: que estranho comer com essa luz! Até que, novidadeiro que sou, resolvi entrar para conhecer. E me tornei freguês! A comida é ótima, coisa rara por ali, onde o que predomina são os drinques e a paquera, o ambiente é hiper animado, festivo e fervido, sem ser impossível de conversar, se é que vocês me entendem. A música é ótima, e o dono, Julien, além de muito simpático e comunicativo, é um trés beau garçon!
Teve muitas outras coisas das quais não falei aqui no blog, mas, à medida em que for lembrando, prometo contar. Mesmo que o tempo continue passando e deixando isso tudo pra trás. E isso é inevitável que aconteça...
Ah, novidade! O blog já me rendeu um convite para escrever: André Fischer, do Mix Brasil, me convidou para escrever uma crônica para a revista Junior de junho, que já está nas bancas. Comprem!!

sexta-feira, 11 de junho de 2010


MON AMI À PARIS

Eu tenho um amigo em Paris. Um grande amigo. Um dos mais antigos que tenho, pois nos conhecemos em 1986 (esqueçam essa data, por favor!!). Quando morei lá nos anos noventa, ele foi e nunca mais voltou. Casou-se, obteve a cidadania e nós, infelizmente, o perdemos. Perdemos é uma maneira egoísta de falar, pois ele está lá. Sempre pronto a nos receber. De volta ao Brasil, depois daquela ocasião, fiquei dezesseis anos sem ir a Paris. Quando em 2007 resolvi voltar para passar férias, nossa amizade continuava a mesma, e a intimidade se havia mantido intacta: a impressão que dava era de que havíamos nos falado no dia anterior. Todas as nossas afinidades e sintonias, gaúchos do interior que somos, estavam vivas e pulsantes. Desde então tenho ido pelo menos uma vez por ano. E dessa última eu abusei: fiquei cinco semanas em sua casa. E ele sempre pronto a me acompanhar, me orientar, cuidar de mim como um verdadeiro irmão. Acho que posso contar nos dedos das mãos os amigos dessa qualidade que tenho. Acho, não. Tenho certeza. Nos tempos em que vivemos, a amizade verdadeira tornou-se artigo de luxo, como as bolsas, perfumes e roupas de grife tão desejados por tantos. Que chegam a fazer filas nas portas das lojas e fotografar suas vitrines para postar no facebook. Só que o valor da amizade, ao contrário das grandes marcas, é inestimável. E, definitivamente, não se pode comprar. O que se pode, e aliás se deve fazer, é o que diz a música do grupo A Cor do Som:
“Sim, é como a flor.
De água e ar, luz e calor
O amor precisa para viver.
De emoção e de alegria,
E tem que regar todo dia”.
A amizade também. Precisa ser cultivada. Mesmo que haja um oceano e muitos anos a separar os amigos. Eu tenho certeza que, como diz seu nome, meu amigo João Faria faria tudo pela nossa amizade. É o que ele vem demonstrando através das décadas...
PS: Desculpa, João, acho que entreguei nossa idade!

quarta-feira, 9 de junho de 2010



ÚLTIMOS MOMENTOS...

Sempre que posso, gosto de observar Paris do alto. Já subi na Tour Eiffel, há vinte anos atrás, no Beaubourg sempre e, mais recentemente, como já contei aqui no blog, no Arco do Triunfo. Ontem fui conhecer o terraço da Galerie Lafayette, que tem um pequeno café e restaurante com vista panorâmica. Paris fotografa muito bem do alto. A Galerie Lafayette fica atrás da Opéra Garnier e ver o prédio da Opéra de cima é maravilhoso. Quando a gente a olha do chão não chega a ver tudo o que há no alto do prédio...
Durante o verão os restaurantes estão servindo os rosés, brancos e champanhes em simpáticas bolsas plásticas transparentes, as ice bags, que, com algumas pedras de gelo no fundo, mantém a bebida gelada e ocupam pouco espaço na mesa. Trés charmant. Eu já comprei a minha...
Ontem fui também assistir ao espatáculo L'impardonnable Revue Pathétique e Dégradante de Monsieur Fau, minha terceira ida ao teatro do Rond-Point, do qual já me tornei frequentador assíduo, não só das salas de espetáculo mas, também e principalmente, do bar restaurante, onde bebo minhas coups de champanhe. Michel Fau, o protagonista e autor do espetáculo, que pode ser visto nos filmes de François Ozon, é uma figura hilária em cena, travestido de velha diva da canção, que canta sobre playbacks tirando muito proveito de seu histrionismo. Ele faz uma homenagem à revista e ao music-hall, acompanhado de um casal de bailarinos que dançam com ele e costuram as cenas...
Fui, também, rever a igreja Saint- Eustache, no interior da qual pode-se ver a obra de Keith Haring, genial artista plásico americano de quem sou fã e cuja foto ilustra o post...
Se der tempo, ainda posto mais alguma coisa antes de partir amanhã à noite para o Brasil...
Au revoir!

terça-feira, 8 de junho de 2010



LE SOIR, DES LIONS...

Já está chegando o dia de ir embora e Paris fica mais linda e acolhedora como que me pedindo pra ficar. A cada dia descubro e redescubro coisas bacanas. Como o restaurante Dalva, na rue d'Argout, onde fui jantar ontem com meu amigo João e comemos em uma mesa na calçada, num agradabilíssimo clima de primavera em Paris. A rua é bem estreita, não passa carro, e os proprietários, dois italianos super simpáticos, colocaram, além das mesas onde se come, dois pequenos sofás para se esperar e tomar drinques. Descobri também, e fiquei encantado com, o talento de François Morel, comediante francês que está se apresentando em um espetáculo de canções, compostas por ele mesmo, chamado “Le soir, des lions...” As canções são costuradas por pequenas histórias que comentam e ilustram os temas cantados. Como a do título do espetáculo, tirado de uma frase dita por um dono de tratoria em Frakfurt, quando François se apresentava na Alemanha com sua trupe les Deschamps. O patrão via seus garçons que tinham feito festa a noite inteira e que, ao meio dia, chegavam pra trabalhar ainda quase dormindo, e dizia: Regardez-les, le soir, des lions, le matin des pauvres cons. Algo como: Olhe pra eles: de noite, leões, de manhã pobres idiotas. Morel canta muito bem acompanhado de três músicos, todos multi-instrumentistas que, além de tocar, fazem vocais e contracenam com ele o tempo todo. No mesmo teatro do Rond Point, onde assisti aos Voyageurs Immobiles, de Philippe Genty. A surpresa agradável foi encontrar Silvia Buarque no bar, esperando para assistir ao espetáculo de Genty, ao qual eu já assistira. Ficamos conversando e trocando dicas do que assistir nos teatros de Paris. Tomando champanhe, bien sur. No mais sigo minhas caminhadas intermináveis pela cidade, sempre encantado, sempre pensando em voltar para cá.

sexta-feira, 4 de junho de 2010


RÊVE D'UN APRÈS-MIDI D'ÉTÉ

Sempre adorei sol e calor mas confesso que, em Paris, calor demais não combina. Também adoro fazer turismo, mas sempre na contra-mão. E confesso que não está sendo o caso. Estou, no máximo, na mão inglesa, tal a quantidade de gente vindo na minha direção. O dia mais quente e lindo, com céu azul de brigadeiro, se fez hoje e aproveitei para rever Montmartre...Só que tem gente demais! Depois de tomar sol em frente ao Sacre Coeur (e faço aqui um parêntese para dizer que estranhei bastante as pessoas ficarem semi-nuas estendidas ao sol em frente a uma igreja: Imaginei a cena se passando, por exemplo, em Soledade, com o padre olhando incrédulo, do alto das escadas da igreja matriz, as pessoas se bronzeando nos canteiros da praça...) Enfim, depois de tomar sol em frente ao Sacre Coeur, quase desisto do passeio intimidado pela turba turística, mas, no fundo, algo me dizia que, se me sentasse em um pequeno restaurante, mais ou menos afastado do burburinho, e pedisse uma cerveja, tudo iria mudar. Não deu outra! Sentei no Cadet de Gascot, em plena Place du Tertre, coração de Montmartre e, na metade da primeira bierre en pression, tudo mudou incrivelmente para melhor...Ouço o som de um pandeiro, vejo capoeiristas brasileiros se aproximando da praça e lembro que ontem, no Marais, vi um grupo deles cantando: quando eu morrer, toque Dalida pra mim...Il faut s'adapter!

quinta-feira, 3 de junho de 2010


LA VIE EN ROSE
O sol voltou a brilhar, esquentou novamente e eu flano pela cidade como um peregrino. Há rosas em todos os canteiros e aqui em Paris elas são enormes, de fazer inveja às da Katia Gianini, parecem cabeças de repolho perfumadas e coloridas. Muita gente nas ruas, demais para o meu gosto. Em dias assim, os cartões postais devem ser evitados: entrar na Notre- Dame, nem pensar! Filas enormes. Sigo, então, pelas minhas pequenas ruas, minha Paris particular. Depois de bater muita perna, nada melhor do que descansar vendo a cidade a bordo do Bateau- Mouche. Você entra, se senta e Paris desfila à gauche et à droite...O que não deixa de ser um banho de sol, só que em movimento. Ainda no espírito cor de rosa, fui assistir à peça Bonjour Ivresse, de e com Frank Le Hen, cujo título, bom dia bebedeira em português, faz um trocadilho com Bonjour Tristesse, de Fraçoise Sagan. Como sempre faço, cheguei bem antes, comprei o ingresso e fui fazer hora bebendo em um café. Só que dessa vez o lugar era tão horroroso e mal frequentado que nem vou dizer o nome, nem onde fica, pra que ninguém saiba que estive lá. Passado o susto inicial provocado pelo café e redondezas, surpresa total e agradabilíssima ao iniciar o espetáculo. Como o próprio autor já havia declarado em entrevista, trata-se de um Will and Grace à francesa, que cumpre com perfeição a empreitada no palco. Um divertissement completo: bons atores, texto ágil e inteligentemente bem escrito, muitas reviravoltas na trama, com direito a beijo gay (na boca) e final feliz. A presença em cena de Frank Delay, ex integrante da boy band francesa 2be3, causa frisson e arranca suspiros da platéia na cena em que as garotas arrancam sua roupa...Costumo dizer que sempre se aproveita algo em um espetáculo. Nesse caso, não foi pouco.

terça-feira, 1 de junho de 2010


DÉSIRS

Muitas novidades e uma certa preguiça de escrever...Quero absorver cada instante da minha estada na Ville Lumiére. O título do post refere-se ao novo espetáculo do Crazy Horse de Paris, com mise en scéne de Philippe Découflé, o que me levou a assisti-lo. Découflé já havia se apresentado em São Paulo, com sua companhia, naquele festival internacional da Ruth Escobar, lá pelo fim dos anos noventa e eu, que fui ao Teatro Municipal, fiquei encantado com a sua dança-teatro. Retomada total do encantamento nesse pocket cabaret, no qual sucedem-se quadros curtos, com variações do tema feminino-sensual, embalados no mais luxuoso fetiche- para- presente. O espaço super intimista, que permite ver a beleza das dançarinas nos mínimos detalhes, é transformado a cada quadro pela luz impecável, pelos elementos cênicos simples mas de grande efeito visual, pelos truques ilusionistas, pela trilha sonora pefeita e, claro, pelos sapatos de Christian Louboutin, praticamente a única coisa que elas vestem, ou melhor, calçam ao longo do espetáculo. Não acreditei quando começou o quadro Rugir de Désir, no qual uma moça de lingérie dança sobre um elemento cênico indefinido, misto de touro mecânico com divã, ao som de Anthony and the Johnsons...O encenador imprime sua grife em alto estilo. Tudo regado a bom champanhe. Para nós, espectadores, bien sur. No fim de semana, mais precisamente no sábado, fui assistir ao outro Philippe, o Genty. Ele segue encantador atravessando décadas, com seu teatro de imagens que mistura dança, marionettes e grandes elementos infláveis. Transbordando poesia visual, seus Voyageurs Immobiles cruzam desertos de papel craft e mergulham em gigantescos mares de plástico no palco do teatro do Rond- Point, em plena Aveue Franklin Roosevelt. Como sempre, cheguei cedo, comprei o ingresso e fui dar um tempo passeando pela Avenue Montagne para ver as vitrines...Comi alguma coisa no Bar des Theatres, ainda faltava uma hora para começar o espetáculo, então fui até um café da Champs Elysées que adoro, o Unissex, para tomar algumas coups de champanhe. No mais, sigo caminhando como um peregrino por Paris, sempre revendo e descobrindo coisas. Nos fins de tarde de domingo gostamos de ir, João e eu, ao Rosa Bonheur, um bar dentro do parque Buttes Chaumont, que se transforma em uma festa, com muita gente do lado de dentro e de fora, boa música para dançar, muita bebida, comida e conversa. Os gramados do parque também ficam cheios de gente fazendo pequenos pic-nics...Uma beleza! De vez em quando, consigo espantar a preguiça e vou nadar na piscina do Les Halles, com fiz hoje pela manhã.

Na foto, gravura do livro Les Cocktails du Ritz Paris