quarta-feira, 8 de abril de 2026
PIANO ELÉTRICO
Com o dia do meu aniversário se aproximando, tenho pensando na minha velhice precoce. Digo precoce porque começou muito antes de eu me tornar um idoso sessenta mais. Foi nesse pensar que me lembrei da história do piano elétrico rsrs… Sempre fui apaixonado por piano. Desde criança ficava encantado com Elton John, Rick Wakemam, Benito de Paula. Depois, com o tempo, fui conhecendo Eduardo Dusek, Cida Moreira, Arthur Moreira Lima, Wagner Tiso, César Camargo Mariano. Mais depois ainda descobri Keith Jarret, Nina Simone, João Carlos Assis Brasil, Éric Satie, Benjamin Clementine e tantos outros que não caberiam aqui no post. Dos nove aos quinze anos estudei piano clássico, além de teoria e solfejo. Não ter me tornado um pianista é uma das minhas (poucas) grandes frustrações. Até que na década de oitenta a música popular brasileira foi dominada pela dupla de arranjadores Lincoln Olivetti e Robson Jorge e todos, simplesmente to-dos os artistas passaram a usar piano elétrico nas suas gravações. Eu tinha uma implicância tão grande com aquela sonoridade (que para mim era totalmente falsa) que fiquei “de mal” de grande parte dos meus ídolos. Não entrava na minha cabeça alguém preferir aquilo a um piano acústico, de verdade, com teclas e cordas… A moda pegou de tal maneira que de repente até César Camargo Mariano estava usando piano elétrico nos discos de Elis! Aquilo era demais para mim rsrs. Como podem perceber, desde a mais tenra idade eu já era um velho rabugento com sérios problemas de convivência em sociedade. O engraçado é que hoje eu escuto aquelas gravações e acho bonito. Aliás, uma das minhas gravações preferidas de Elis é a da canção Rebento, de Gil, do disco de 1980, na qual ela é acompanhada por César no piano elétrico, vejam só. Outra que me encanta sobremaneira é Só de Você, de Rita Lee e Roberto de Carvalho, com o belíssimo arranjo do mesmo César Mariano tocando, vejam só novamente, piano elétrico. Enfim, as modas passam e o piano fica. Minha paixão por esse instrumento só cresce e se renova. Já a minha rabugice não passa nunca, pelo contrário, só aumenta com o passar dos anos. Aquele idoso que eu já era aos vinte anos se tornou um ancião. Capaz de implicar com sabiás que cantam de madrugada, crianças que brincam aos gritos, gente que fala e escreve errado o português, vizinhos barulhentos e muitas outras coisas que não caberiam aqui. Mas cá entre nós, implicar com piano elétrico é demais, não? Ainda mais aos vinte anos. Acho que meu caso é sério. Será que preciso de internação? Sugestões, conselhos ou dicas nos comentários, please… Na foto, Robertinho se apresenta ao piano no auditório do colégio das freiras em Soledade.
terça-feira, 31 de março de 2026
MANHÃ DE OUTONO
Andar de ônibus sem pagar a passagem tem me dado uma agradável sensação de pertencimento. Melhor ainda, de merecimento. Finalmente fiz meu bilhete único de idoso. É como se depois de um longo período de investimento eu estivesse finalmente colhendo os juros de uma aplicação rsrs. Mais ou menos como uma planta que depois de um longo e rigoroso inverno finalmente desabrocha em magnífica florada… É claro que o outono, com sua luz dourada, torna tudo mais vibrante ao olhar. Da janela do coletivo a cidade adquire cores nunca dantes vislumbradas. Minha idade já avançada, com certeza, também contribui para esse estado de plenitude e gratidão que me invade em plena manhã. Meu aniversário que se aproxima me deixa mais receptivo e atento a tudo ao meu redor. Logo mais, no dia 25 de abril, irei completar sessenta e três outonos de vida e as folhas mortas vermelhas e douradas começarão a cair como na velha canção: C’est une chanson que nous ressemble, toi tu m’aimais et je t’aimais… Meu ponto se aproxima e me preparo para descer do ônibus. A Avenida Paulista me parecia bem maior antigamente. Agora eu a percorro tão rapidamente que mal cabe nela o meu devaneio de senhor de meia idade. O outono da vida tem o sabor das memórias guardadas. Como folhas secas entre as páginas de um livro. Basta abri-lo e elas voltam a cair… Na foto, feita por Guto de Castro, eu em um outono no Parque da Redenção, em Porto Alegre.
sexta-feira, 27 de março de 2026
SONHOS QUE VIRÃO
Faz tempo que eu não assistia a uma peça de teatro de que gostasse tanto quanto gostei de Hamlet, Sonhos Que Virão. Por uma série de motivos. Primeiro, por ser uma encenação de um texto clássico, coisa rara de se assistir por aqui. Segundo, por ser uma boa encenação, coisa ainda mais rara. Terceiro e não último, por ser uma direção competente, inspirada e que não se sobrepõe à obra, coisa mais do que rara, raríssima… O espetáculo é impactante, prende a atenção, tem efeitos cênicos de encher os olhos, mas tudo na medida - nada é mais importante do que a história que está sendo contada. Gabriel Leone encanta com seu Hamlet, potente, frágil, louco, racional, possível e contemporâneo. O diretor Rafael Gomes mostra que conhece não apenas dramaturgia, mas carpintaria teatral. Faz belas imagens brotarem do vazio, cria beleza no caos. A Ofélia de Samya Pascotto mergulha no azul deixando a plateia em suspensão. Em meio aos escombros do velho Cine Copan, há algo de podre no reino da Dinamarca (soa familiar, não por coincidência). Mas há também vigor, juventude e energia permeando os destroços. E os belos figurinos de Alexandre Herchcovich. Fiquei lembrando do Théâtre des Buffes du Nord, também em escombros, onde assisti à montagem de Peter Brook de A Tempestade, de Shakespeare, nos anos noventa... Fiquei feliz de ver o Cine Copan lotado. Mais feliz ainda de saber que os ingressos estão esgotados até o fim da temporada. E muito feliz de ver o público aplaudir com entusiasmo um clássico do teatro universal. Dentro de um clássico da arquitetura local. A vida é mesmo cheia de som e fúria. Um museu de grandes novidades, como cantou Cazuza. No bom sentido. No sentido de olhar para o passado para se entender o presente. Para terminar citando o próprio Hamlet (Shakespeare), "tratem bem os atores, eles são o resumo e a crônica dos tempos". O resto é só dar um Google…
Na foto, o Hamlet de Gabriel Leone vestido por Herchcovich.
domingo, 22 de março de 2026
30 ANOS EM SP
Hoje faz trinta anos que me mudei para São Paulo de mala e cuia e aqui amarrei o meu pingo… O dia 22 de março de 1996 caiu numa sexta-feira. Cheguei em São Paulo pela manhã e fui direto para o apartamento da minha amiga Nora Prado, na Avenida Rebouças, que me recebeu com o carinho e a afetividade que normalmente ela costuma dedicar aos amigos. No dia seguinte, também pela manhã, fui até a Moóca me apresentar ao diretor Oswaldo Gabrieli para começar a trabalhar no seu grupo de teatro, o XPTO. Oswaldo me mostrou o galpão onde se realizavam os ensaios, me deu uma cópia do texto para ler e me pediu que voltasse na segunda-feira de manhã para começar a ensaiar com o elenco. Já contei inúmeras vezes aqui no blog - mas não custa lembrar- que quem me conseguiu esse trabalho foi minha amiga Lúcia Serpa, que já estava morando aqui e também integrava o elenco. Lúcia sabia que eu estava louco para me mudar para São Paulo e assim que abriu uma vaga no grupo me indicou para o diretor. O espetáculo que estava sendo ensaiado pelo XPTO era O Pequeno Mago e o Pavão Dourado, que tinha no elenco ninguém menos do que uma outra amiga minha, Grace Gianoukas. E naquele fim de semana de março de 1996, teve início uma longa história que se estende até os dias de hoje: Minha vida em São Paulo… Não posso ser falso a ponto de dizer que é a cidade onde eu mais gostaria de morar no mundo (quem me conhece sabe que esta seria Paris). Mas posso dizer sem hesitar que é a cidade onde eu sempre quis morar aqui no Brasil. Com tudo o que ela tem de bom e de ruim. Amo a pluralidade de São Paulo. Seus contrastes. Seu caleidoscópio de sotaques e etnias. Sua esquizofrenia. Sua ansiedade, sua bipolaridade, seu TDAH… Os apressados ou distraídos, que pensam que ela é feia, precisam ir ao Terraço Italia numa noite enluarada; ou subir no mirante do Sesc Paulista; ou tomar um drink na sacada do Blue Note, debruçada sobre a Paulista; ou, pelo menos, apreciar um entardecer na Praça do Por do Sol; e quanto aos que dizem que não existe amor em SP, esses moços (pobres moços), ah se soubessem o que eu sei… Que bom que essa metrópole me acolheu, como faz normalmente com todos os que a procuram. E hoje comemoro meus trinta anos de habitante da cidade. Quem, como eu, vem de outro sonho feliz de cidade, aprende depressa a chamar-te de realidade... Mal posso esperar para me ver bem velhinho respirando monóxido de carbono e reclamando do trânsito; mas enquanto eu puder ir sozinho e a pé até o Ritz (moro a uma centena de passos de lá), me sentar no balcão e tomar o meu Manhattan, estará tudo bem. Aliás, essa é uma boa ideia para a minha comemoração de trinta anos logo mais, na happy hour… Com a graça de Santa Rita de Sampa!
Nas fotos, eu com minhas amigas Nora Prado e Lucia Serpa na festa de estreia de O Pequeno Mago no Teatro Popular do Sesi.
quarta-feira, 11 de março de 2026
COMBO DIVERSO
Dia desses, na academia, tive uma surpresa (isso ainda acontece, mesmo depois de mais de quarenta anos as frequentando): Da minha esteira, olho para o lado e o improvável se materializa: Um rapaz loirinho, de barba e óculos, bem jovem, lia Madame Bovary na bicicleta ergométrica. É verdadeira essa imagem? Teria sido gerada com uso de inteligência artificial? É fato ou fake? Pura verdade. Alheio ao movimentado e barulhento entorno ele se dedicava à leitura da obra de Flaubert como se não houvesse mais nada nem ninguém por perto. Lembrei de mim aos dezesseis, dezessete anos de idade, nos cafés do centro de Porto Alegre, naquelas travessas da Rua da Praia, com meu bornal de lona verde à tiracolo, trazendo sempre à mão algum exemplar de André Gide, Jean Genet, Sartre ou Camus. Sabe como é, nada como já adiantar pistas para possíveis interessados… Mas, voltando ao templo da boa forma - ou da forma perdida - percebo que do alto da minha idade já avançada e analógica tenho sido preconceituoso com a juventude atual. Sim, eles ainda leem. Mesmo que seja somente o loirinho gaúcho (deduzi que é gaúcho pela camiseta do Grêmio que vestia, o que tornou a princípio tudo mais improvável ainda). Achei o combo “juventude + academia + literatura” interessante. Me senti uma espécie de precursor do jovem, já que, como ele, também gosto de treinar e aprecio uma boa leitura. Ah, e também sou gaúcho. Ah, e também já fui jovem. Paradoxalmente, quando estou treinando costumo ler na biblioteca virtual que trago no celular, e não livros físicos, como fazia o jovem…
Por favor, não me julguem. Nem pensem que sou algum espião de academia. Eu não estou em busca de nada além da boa forma, são as informações que me chegam de maneira espontânea. Digo isso porque, dias depois estou no vestiário me trocando para ir embora e percebo que uma mochila com um chaveiro da faculdade de medicina repousa no banco ao lado do meu. Imediatamente pensei: Tem um estudante de medicina tomando banho. Instantes depois abre-se a porta do boxe e sai o loirinho gaúcho que no outro dia lia Flaubert na bicicleta ergométrica. Ele se dirige até a mochila e mais uma informação é imediatamente acrescentada ao já eclético combo: Trata-se, provavelmente, de um estudante de medicina. Quando o observo mais de perto, vejo que o combo não para de se ampliar: O tamanho e a delicadeza dos seus pezinhos e mãozinhas somados à total ausência de volume na cueca (com o perdão da indiscrição) me revelam tratar-se de um homem trans. Tudo, a meu ver, tornou-se ainda mais interessante. Estou acostumado a conviver com homens trans, inclusive nessa academia que frequento, até aí nenhuma novidade. O que torna tudo tão mais rico e complexo é a amplitude do combo. Algum leitor mais acomodado ou conservador pode pensar que esse último dado explique, por exemplo, a escolha de Madame Bovary como leitura. Ou que gostar de academia explique a escolha de medicina como curso superior. Mas, para mim, ele apenas torna tudo mais amplo e inclusivo. Materializa-se na minha frente a prova viva de que inclusão e diversidade são muito mais do que apenas conceitos ou militância. E são muito mais amplas e abrangentes do que possam supor as vãs tentativas de cerceamento da liberdade alheia. São uma realidade. Uma importante e bem vinda realidade. O combo já anteriormente rico (juventude + academia + literatura) agora se expandira para “juventude + academia + literatura + medicina + transexualidade”. Não sei o leitor, mas eu achei que meu personagem ganhou mais colorido e se tornou ainda mais interessante e pleno de possibilidades do que já se apresentara no início da narração... Vou seguir praticando meus treinos diários, sempre atento ao que me cerca. Se mais informações chegarem a mim de maneira espontânea como me chegaram estas, prometo dar sequência ao post. Ou, quem sabe, contar uma nova história... Que os combos se ampliem cada vez mais! E a convivência entre todos eles se dê em harmonia. Para haver amor entre os homens… Na foto, a capa de uma edição da obra de Flaubert.
sábado, 28 de fevereiro de 2026
30 ANOS SEM CAIO
No sábado dia 21 fui à missa de trinta anos sem Caio Fernando Abreu. Não consigo me lembrar há quantos anos eu não ia a uma missa. Estavam lá Cida Moreira, Celso Cury, Maria Adelaide Amaral, Sylvia Moreira e outros tantos amigos queridos do escritor. É claro que na hora da contrição me emocionei e fui às lágrimas por minha gatinha Lina, meu sobrinho Daniel, pelo Caio em si - motivo da reunião - e por todos os meus mortos amados. (E, nessa altura da vida em que me encontro, devo confessar que não são poucos). Minha emoção foi tal que acabei comungando. Há séculos não tomava a hóstia sagrada. Mas me enchi de coragem, pedi sinceramente a Deus perdão por todos os meus pecados, as minhas falhas, faltas e ausências e, contrito que só, tomei a santa hóstia em minhas mãos e a depositei com fervor cristão em minha boca. Na hora de rezar o Pai Nosso, Maria Adelaide, que se sentara a meu lado, me deu a mão. Fiquei felicíssimo, posto que tenho grande estima e admiração por ela. Ao nos despedirmos eu disse a Cida Moreira que irei assistir ao seu show no Blue Note e ela me disse que irá levar meus óculos Ray-Ban que esqueci há um ano na casa dela. Celso Cury e eu nos perguntamos dos “nossos japoneses”, o meu, Weidy, e o dele, Wesley. Silvia Moreira me disse que Caio “rodou a gira” ao me ver comungar. E Maria Adelaide, sempre fina, gentil e educada, me disse que foi muito bom me encontrar. E mais, que sempre é. Eu que o diga, Maria. Eu que o diga! Saí da capela do Sion ainda mais macambúzio do que entrara, mas com um certo conforto interior. Afinal de contas não é assim mesmo, desde que o mundo é mundo? Chegadas, partidas, nascimentos, mortes. Horários a serem cumpridos, compromissos, encontros. Livros a serem lidos, louça na pia para lavar, séries a maratonar, armários que precisam urgentemente ser organizados. Tristezas a superar, traumas a resolver, medos e fantasmas para se enfrentar. Shows a serem assistidos e óculos Ray-Ban a serem devolvidos, japoneses a serem lembrados, giras a rodar, mãos dadas a rezar? No meio disso tudo reencontros, amigos, brindes, comemorações, conquistas, vitórias... A vida não é mesmo fascinante? Quando estou quase chegando em casa passo em frente ao prédio onde Caio morava, na rua Haddock Lobo. Impossível não pensar que por um descuido do tempo, um pequeno erro de cálculo, não chegamos a ser vizinhos. Viro à esquerda na Alameda Franca e voilà, cheguei em casa. Acho que um pouquinho melhor do que quando saí...
Na foto, cena do meu solo Caio em Revista.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
QUARESMA
Hi, bolg! Voltei... Andei por lugares obscuros, mundos sombrios dos quais não tenho a menor vontade de discorrer aqui. Quem me conhece sabe que sou solar. Que prefiro o sol à chuva, o dia à noite, a alegria às tristezas. Mas sabemos também que a vida não é um conto de fadas. As tristezas fazem parte, assim como as alegrias. O bom é que todas passam. E quem, como eu, prefere a luz às trevas, acaba guardando somente as boas lembranças... Este ano vivi o carnaval mais triste da minha vida. Nada de bloco, baile ou folia. Nem confetes ou fantasia. Só lembranças, álcool, fotografias. Faz tempo que venho me fazendo a seguinte pergunta: Por que chega uma fase da vida em que a gente começa a perder todo mundo que ama? Isso não está certo. Perder os mais velhos, os avós, os pais, a gente até se conforma. Mas e quando se trata de alguém que ainda teria muito pela frente? Sigo sem resposta... Quando digo que sou solar, alegre e etc. por favor não me tomem por alguém raso, superficial. Sou denso e profundo também. Só que as minhas profundezas têm claraboias. O meu isolamento tem wi-fi. Vou e volto, sabe? Mais ou menos como Rimbaud: Uma temporada no inferno. A palavra "temporada" traz em si a ideia de transitoriedade. Pois eis-me aqui, de volta à tona. Ferido, sentido, triste, mas já antevendo o sol que voltará a brilhar. Nem todo o óbvio é ululante, para citar Nelson Rodrigues. Trago algumas pérolas cuidadosamente preservadas... A memória, esse dom inestimável que possuímos, esse ítem de fábrica que a gente nem precisa pagar - já vem no pacote - quando bem preservada e exercitada nos salva. Nos alimenta e aquece. Assim como a arte, a cultura, a educação e a literatura. Que nada mais são do que memórias preservadas, certo? E vamos vivendo, felizes e infelizes, contentes e descontentes, satisfeitos e aborrecidos, com o nosso hd de lembranças. Para acessá-las não é necessário nenhum grande esforço. Não precisa nem baixar um aplicativo. É só diminuir as luzes da sala, abusar de luzes indiretas, colocar uma boa música em volume civilizado e, claro, preparar um bom drinque. Há quem prefira esquecer, ou até mesmo deletar. Se entorpecer, se anestesiar. Fugir da própria realidade, quando esta se apresenta difícil. Mas é sempre bom lembrar que não somos robôs. Que temos inteligência e que ela, graças a Deus, não é artificial. Mas precisa, claro, de exercícios. Assim como os músculos... Que bom que o carnaval acabou. Quer dizer, ainda não. Pelo menos aqui em São Paulo ainda teremos um pós-carnaval esse fim de semana. Mas que bom que a vida parece estar, finalmente, voltando ao normal. Se é que se pode chamar essa loucura que estamos vivendo de normal... Boa quaresma a todos!
Na foto, Straight Flush, meu palhaço triste num distante carnaval em Soledade.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
SUOR E LÁGRIMAS
O mês de fevereiro entrou rasgando. Levou logo nos primeiros dias minha gatinha Lina, que acabara de completar seis aninhos. Uma dor imensurável, ela era o sol das nossas vidas, nosso amorzinho de filha. Hoje, para desanuviar, fui ao cinema assistir ao filme Hamnet, de Chloé Zhao. Belíssimo e triste, me lançou em um mar de lágrimas e soluços no escurinho do cinema. A dor da perda do filho Hamnet, sentida por seus pais Agnes e William (Shakespeare), reacendeu a dor da perda de minha Lina. Com roteiro surpreendente e atuações irretocáveis, o filme tem o poder de expor a interioridade dos personagens sem psicologizar, se é que vocês me entendem. A atriz Jessie Buckley, que interpreta Agnes, merecia um Oscar por cada cena… Dia desses eu estava na academia fazendo esteira quando li no monitor de tevê ligado à minha frente a seguinte frase: “Braços definidos assumem o centro da estética fitness ideal em 2026”. Após registrar a pérola no bloco de notas do celular (para jamais esquecer) fiquei me perguntando qual seria a estética fitness ideal possível. Ou qual seria o seu centro. Ou mesmo que sentido oculto guardaria a tal frase, com o intuito de levar os frequentadores da academia a qual tipo de reflexão… Sigo sem respostas. A essa última questão e a todas as anteriores. São Paulo segue sob chuvas fortes, como se chorasse as perdas de Lina e Hamnet. Ou como se suasse em busca da estética fitness ideal. O resto é silêncio.
Na foto, minha morte em cena no espetáculo Império da Cobiça, de Maria Helena Lopes.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
TEAR DO TEMPO
Terminei emocionado a leitura do livro No Tear da História - Maria Helena Lopes, de Juliana Wolkmer. A obra me foi presenteada pela autora após ela assistir ao meu espetáculo Caio em Revista no Estúdio Stravaganza, em novembro do ano passado, em Porto Alegre. Como a própria Juliana diz na dedicatória, é um pouco da minha história também. Mas acrescida de muitas outras que eu desconhecia. E de outras tantas que eu ouvira falar de forma nebulosa e que ela agora traz à luz com precisão de antropóloga… Maria Helena moldou minha visão sobre a arte, o teatro e, porque não dizer, sobre a vida e o mundo. Sou eternamente grato por ter tido a sorte, a benção de ter sido aluno da Lena nas disciplinas de improvisação na escola de teatro e seu ator no Grupo Tear. Vivi com ela um longo processo de criação que resultou em dois lindos trabalhos: O experimento cênico Na Piscina e o espetáculo Império da Cobiça, que teve estreia nacional em São Paulo e no Rio de Janeiro, para só depois cumprir temporadas em Porto Alegre nos teatros Renascença e São Pedro. Com ela aprendi que ouvidos e olhos atentos são as ferramentas principais para quem se debruça sobre a atividade criativa. Somados à sensibilidade, evidentemente... O livro de Juliana Wolkmer é um pequeno tesouro de valor inestimável. A belíssima edição, em formato coffee table book, é fartamente ilustrada com fotos e documentos da vida, da carreira e dos espetáculos realizados por Maria Helena; traz legendas e pequenos textos que descrevem as imagens e que, somados aos capítulos propriamente ditos, proporcionam a agradável sensação de que se está a ler uma revista de arte. Ponto para o editor e muitos, muitos pontos para Juliana! Essa jovem artista que, mesmo sem sequer ter sido aluna de Maria Helena, consegue recriar sua trajetória artística e revela genuíno interesse de pesquisadora e preservadora do patrimônio histórico e cultural de Porto Alegre. Voltei da minha última temporada na cidade com uma pilha de livros que venho saboreando aos poucos, com a devida atenção que todos eles merecem. Não apenas seus artistas e intelectuais, mas a Capital dos Pampas, em si, também está de parabéns! Quando a Lena foi para Barcelona e terminamos as apresentações do Império da Cobiça eu me dediquei à minha carreira de diretor, que despontava com o sucesso da minha montagem de Lisístrata; depois fui para Paris onde, como ela, estudei com Monika Paigneux; na volta ao Brasil fui para o Rio de Janeiro trabalhar com Luis Artur Nunes e logo depois já me mudei para São Paulo. Não acompanhei, portanto, a fase final do Tear. Não assisti aos últimos espetáculos. Nem sequer o solo de Sergio Lulkin, que eu tanto queria (e confesso aqui que nutro a secreta esperança de que um dia ele volte a fazê-lo para que eu finalmente o assista). Mas guardo comigo uma lembrança única: Um dia, quando já morava aqui em São Paulo há um tempo - não me lembro o ano - encontrei com a Lena pertinho da minha casa. Eu descia a Rua Augusta e ela subia. Quando nos vimos ela abriu um enorme sorriso e nos abraçamos demoradamente. Rimos muito, mas não me lembro do que falamos nem do que ela estava fazendo por aqui. Ficou essa memória. Foi a última vez que estive com ela. E acho ótimo que tenha sido aqui, a uma quadra da minha casa, o que torna a presença dela muito mais próxima de mim do que nas memórias da minha juventude… Obrigado, Juliana Wolkmer, pelo seu belo, sensível e relevante trabalho; pelo seu olhar atento e detalhista sobre a história do teatro gaúcho; e pelo merecido reconhecimento da importância de Maria Helena Lopes. Evoé!
Nas fotos, a capa do livro, Juliana me presenteando e Lena brindando na entrega do Prêmio Eva Sopher.
domingo, 25 de janeiro de 2026
SALVE SAMPA!
Hoje é domingo e a cidade de São Paulo faz aniversário. Todos os anos eu passo por aqui nessa data para declarar um pouco mais do meu amor por essa cidade incrível que há quase trinta anos vem sendo o meu lugar no mundo. (Não concordo com clichês negativos como "não existe amor em SP"). Já contei mil vezes as nossas histórias - minhas e de São Paulo - mas o importante é ressaltar que ela segue me surpreendendo e encantando. Ontem mesmo foi pura beleza o show de Cida Moreira ao piano na Praça das Bibliotecas do Centro Cultural São Paulo. Ver aquele local lotado de gente, ao som das canções interpretadas por Cida, me fez perceber com outros olhos o brutalismo da sua exuberante arquitetura. O amplo espaço de concreto e ferro com pé direito altíssimo e teto envidraçado me lembrou demais aquelas estações de trem de Paris através das quais o tempo parece deslizar… Quando eu ainda era apenas um visitante por aqui, nos anos oitenta e noventa, esse local representava toda a efervescência cultural da cidade. Agora ressurge lindamente embalado pelas canções de Angela Ro Ro na voz desse ícone da vanguarda paulistana que é Cida Moreira e aplaudido com entusiasmo pelo público que lotou suas dependências. Sem falar que logo na entrada do espaço somos recebidos pela belíssima escultura Eva, de Brecheret, outro ícone da modernidade paulistana. Felizmente já tive a graça de me apresentar com Cida nas comemorações do aniversário de São Paulo no ano de 2018, cantando Brecht e Weill na belíssima Biblioteca Mario de Andrade, mais um símbolo cultural e arquitetônico dessa nossa desvairada Pauliceia. Naquele ano quem recebeu o presente de aniversário fui eu! Hoje pretendo comemorar passeando pelas suas ruas arrepiadas curtindo o seu friozinho arrebitado em pleno verão. Pois, como disse Mario de Andrade, “minha Londres das neblinas finas… Pleno verão. Os dez mil milhões de rosas paulistanas. Há neves de perfume no ar. Faz frio, muito frio. Meu coração sente-se muito triste… Enquanto o cinzento das ruas arrepiadas dialoga um lamento com o vento… Meu coração sente-se muito alegre! Esse friozinho arrebitado dá uma vontade de sorrir! “
Nas fotos, a Eva de Brecheret recebe os visitantes e Cida ao piano na praça lotada.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
DOIS IRMÃOS
"Amo tua voz e tua cor; e teu jeito de fazer amor"...Desde que voltei de Porto Alegre, onde estive por vinte dias no mês de novembro fazendo meu espetáculo Caio em Revista, fui tomado por um saudosismo muito agradável que me levou a comprar ingresso para o show de Kleyton & Kledir na novíssima casa noturna paulistana The Cavern Club. Logo de cara uma surpresa positiva: O show começou pontualmente no horário marcado, 22:30h. Assim que soaram os acordes da primeira música percebi que não estava apenas assistindo a um show: Tinha acabado de entrar em um portal que me levou de volta à minha juventude, vivida nos anos oitenta em Porto Alegre. No texto do meu espetáculo, logo na primeira cena, Caio Fernando Abreu diz, quando seu dia começa: "Atrasado, correndo pelas manhãs, maldigo muito a vida e a cidade assobiando: Deu pra ti, baixo-astral, vou pra Porto Alegre, tchau"! Então essa música da dupla tem estado bastante presente na minha playlist, assim como Paixão, uma das minhas canções preferidas. Mas à medida em que o show transcorria, fui surpreendido por uma sequência de hits: Nem Pensar, Vira Virou, Maria Fumaça, Fonte da Saudade, Tô Que Tô, Navega Coração e muitos outros. Eu não me lembrava que eles tinham tantas canções de sucesso, praticamente a trilha sonora de uma década. Foi muito prazeroso e emocionante compartilhar com o casal que dividiu a mesa comigo, ambos da minha idade, as histórias relacionadas à dupla e a seus hits. É incrível essa capacidade que a música tem de emoldurar nossas vivências. Quando temos acesso a este material as memórias ressurgem repletas de significados e emoções. Além das próprias canções, a dupla também apresenta alguns sucessos dos Beatles; e sua famosa versão em português de Bridge Over Troubled Water, de Simon e Garfunkel, chamada Corpo e alma. De lavar a alma... Munidos de seus violões e violino, os irmãos gaúchos preenchem acusticamente a sala como se estivessem acompanhados de banda. E o coro da plateia, que sabe todas as letras de cor, torna alguns momentos ainda mais divertidos e emocionantes. Ganhei o fim de semana! Desde então é só o que tem tocado no meu iPad. "E essa aventura em carne e osso deixa marcas no pescoço, faz a gente levitar"...
Nas fotos, os irmãos arrasando no palco do Cavern Club e eu todo pimpão entre os dois no camarim.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
A BOSSA DA PROVÍNCIA
Passei os últimos dias de 2025 e os primeiros de 2026 saboreando a leitura da obra Grupo de Teatro Província - Memórias, de Luís Artur Nunes. Quem me conhece sabe não só da nossa amizade e parceria teatral, mas também da enorme admiração que nutro por esse mestre das artes cênicas. Sou, portanto, suspeitérrimo para falar rsrs. Pois quero aproveitar esse meu “lugar de fala suspeito” exatamente para exaltar a riqueza da escrita de Luís Artur e, quem sabe, influenciar quem me lê a fazer o mesmo. Luís Artur realiza a proeza de embutir nas suas memórias - vastas e personalíssimas - todas as informações que um texto técnico traria , mas sem soar didático ou acadêmico em momento algum. Pelo contrário: Ao contar a história de seu grupo de teatro, o Província, ele nos brinda com pura literatura, extremamente rica e palatável. Para ser não apenas lido, mas degustado. Palavras que não são habitualmente utilizadas surgem tão habilmente inseridas no contexto das frases que a gente as saboreia e as reconhece sem precisar ir correndo ao dicionário. Fora a importância do registro histórico da existência do grupo, que é maravilhoso e bem-vindo, o livro suscita o prazer de uma boa leitura. Nos enriquece e nos ensina. Resgata a beleza da nossa língua, que tem andado tão maltratada. Que Porto Alegre sempre foi celeiro de talentos e pródiga em antecipar tendências e vanguardas todos nós já sabíamos. A novidade é o frescor e a vastidão linguística com que Luís Artur nos brinda ao lançar seu olhar objetivo e ao mesmo tempo afetuoso sobre essas importantes memórias. Um relevante resgate da nossa arte e cultura, fundamental nos tempos desatentos e fragmentados que vivemos... Tive a felicidade de estar presente no lançamento do livro em Porto Alegre, na última Feira do Livro, que reuniu grande parte dos integrantes do grupo. Foi emocionante rever Graça Nunes, Haydée Porto, Suzana Saldanha, Beto Ruas, Arines e Izabel Ibias, entre outros. Uma tarde inesquecível, emoldurada pelos jacarandás da Praça da Alfândega... Como dei a entender no início do post, não tenho a isenção necessária para fazer uma crítica ou mesmo uma análise formal da obra. O que me move é a paixão. E o livro é apaixonante. Tomara que ele inspire algum cineasta a transformar em filme a história dessa fantástica troupe, que mudou os rumos do teatro gaúcho e brasileiro. Seria lindo! Fica a dica…
Na foto, os jovens e nada provincianos Luís Artur e Suzana Saldanha na capa do livro.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2026
RETOMANDO
Comecei o ano dando atenção total à nossa gatinha Lina, que se recupera de uma crise renal. Cuidar de um animalzinho doente faz a gente pensar e rever muitos conceitos e sentimentos. Nos confronta com a nossa fragilidade, nossa incapacidade, nossa incompreensão do que sente aquele ser que habitualmente é só amor e alegrias. Nessas horas a tecnologia se mostra ineficiente: Queria um Google translator que traduzisse em palavras o que minha gatinha sente, para poder aliviar com maior prontidão e eficácia o seu sofrimento…
Retomei meus treinos diários e voltei a beber somente nos finais de semana. Dezembro foi tão alcoólico & açucarado que agora acho que só volto a entrar em forma em abril rsrs…
Retomei minhas leituras, hábito que tinha sido deixado de lado com a ida a Ilhabela para passar o Natal. Tanto a pilha de livros físicos quanto os digitais do Biblion foram retomados com sucesso. Os físicos leio mais em casa e no ônibus. Os digitais leio durante meu treino de cardio na academia…
Eu obviamente devorei a nova temporada de Emily in Paris. Mas devo dizer que desta vez achei um pouco fraca. Tudo muito em função de merchandising e as situações se repetindo à exaustão. Parece que a série resolveu andar em círculos, ao invés de se renovar. Quando Emilly finalmente volta para Paris (no sexto episódio) melhora um pouco , mas ainda assim deixa a desejar. Felizmente um episódio me encantou demais: La Belle Époque, o nono da temporada. Gostei tanto que já o assisti duas vezes e pretendo rever ainda mais. Todo amarrado dentro de um conceito, temático, bem ilustrado e com uma interessante reflexão: A nossa tendência de romantizar o passado em detrimento do momento presente. Lá pelas tantas o personagem Gabriel diz a Emily na despedida de seu reencontro na Gare de Lyon: “Só começaram a chamar a Belle Époque assim depois que ela passou; não sabemos quando vivemos a melhor época, pode ser que seja agora”… Eu comecei o ano relembrando minhas “belles époques” e me dando conta de que sempre teve coisas boas e coisas ruins. Como agora. E, felizmente, todas elas passam. O que armazenar no HD da memória e levar para sempre conosco a gente é que decide…
Bom 2026 a todos!
Nas fotos, nosso réveillon-à-trois e Emily no Le Train Bleu.
Assinar:
Comentários (Atom)


















